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Gabriela Sotto Mayor: "A mudança de mentalidades é algo muito demorado"

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ENTREVISTAS - Ilustradores

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Gabriela Sotto Mayor: “Quando era adolescente queria ser pintora, mas depois entrei em Escultura nas Belas Artes. Tive sorte! Gostei muito do curso. Percebi rapidamente que gostava de me sujar, metendo a mão na massa. Foram anos bem passados, cheios de coisas novas. Absolutamente sem contar, no último ano do curso, uma colega de turma mostrou-me o mundo da ilustração. Fiquei seduzida. Bati a várias portas e ilustrei o meu primeiro livro em 2005. Depois desse, já vieram mais de duas dezenas. A adolescente que houve em mim é que tinha razão, afinal ainda se ia pintar qualquer coisa. As minhas ilustrações tiveram o privilégio de contar histórias junto com as palavras de escritores como João Pedro Mésseder, José Jorge Letria, João Manuel Ribeiro, Patrícia Reis, Álvaro Magalhães, Caetano Veloso, entre outros. Em 2011 coescrevi o livro «A avó come muito queijo, é o que é!» (Manuela Leite, Trinta por uma linha). Ilustrar sabendo o que o escritor pensava foi apaixonante. É uma experiência a repetir. Entretanto a minha curiosidade por este mundo nunca parou de crescer. Era preciso conhecer o trabalho dos outros para me conhecer melhor. Fazer parte do universo da ilustração de literatura para a infância como autora das imagens já não era suficiente. E foi aí que abracei um doutoramento onde tive a oportunidade de me dedicar à ilustração portuguesa da primeira década do século XXI. Vi, li, esmiucei e analisei o trabalho de outros ilustradores – daqueles que, por ótimas razões, já tinham feito correr alguma tinta. Foi um abraço longo, nem sempre terno (claro), com sorriso no final. Sou agora, soem os tambores, doutorada em Estudos da Criança, na especialidade de Comunicação Visual e Expressão Plástica, pela Universidade do Minho (2015). Especialista, dizem. No meio do regresso aos estudos, no meio da (quase) pausa como criadora de ilustrações, virei consumidora de livros de literatura para a infância, desta vez com olhos de progenitora feroz. Nasceu-me um rapaz! A contar três anos é ávido leitor de imagens e ótimo descodificador de sentidos. Agora retomo em força o lado criativo, com vários projetos em mãos. O meu repertório de ideias não para de expandir. Todos os dias se enriquece com a experiência de ver crescer um ser, pequenote, quase crescido, do tamanho do mundo.”

Livros & LeiturasQue significado tem para si o ato de ilustrar e a partir de que altura este se tornou “profissional”? 

Gabriela Sotto Mayor – Digamos que, quando ilustro, tenho noites tranquilas. Divido a minha vida pela investigação (na área da ilustração de LIJ) e pela ilustração e, apesar de ambas serem escolhas de coração, a investigação inquieta-me, revolve-me o sono. Quando tenho projetos de ilustração, mesmo que envolva prazos apertados ou constrangimentos menos apreciados, a paz mantém-se e as noites são tranquilas. Acho que isto diz tudo.

L&L – O que é necessário para se ser um bom ilustrador?

GSM – Se houvesse uma receita poderia dizer assim: “Ingredientes: Informação q.b., Interessa-se pelo que se faz por cá e pelo que se faz lá fora. Cultura não ocupa espaço mas torna o bolo mais fofo e aromatizado. Chávenas infinitas de criatividade. Sempre que possível seguir o lema «think outside the box». Como o leitor já se encontra pré-aquecido a responsabilidade é imensa. Há desses seres inteligentíssimos em qualquer casa perto de si. Trabalho árduo em quantidades industriais. Ingrediente que despensa apresentações. Nota: Se for um ilustrador que se sente em casa a ilustrar para si próprio, tem de se desafiar. Nunca se contentar com o óbvio. Terá de escolher as opções que tão depressa fazem rir como, logo de imediato, abrem as comportas às lágrimas. Optar pelo que nos faz sentir será sempre a melhor solução. Rendimento: milhões de leitores. Tempo de preparação: Uma vida inteira. Grau de dificuldade: Fácil, se gostar do que faz; Médio, se tiver o coração dividido; Difícil, se preferia estar a fazer outra coisa mas aceitou para ganhar uns trocos.

L&L – O seu trabalho é versátil ou, pelo contrário, tem um estilo muito próprio e facilmente identificável por quem o vê?

GSM – Muito embora o desenvolvimento natural de um artista passe por mudar abordagens concetuais ou mesmo técnicas, sendo expectável até que tal aconteça, dependendo do texto de onde partiu (considerando a forma mais tradicional de ilustrar onde se parte da palavra para a imagem), e dependendo também de tudo o que até à data já experienciou, quero acreditar que o meu trabalho é versátil mantendo a marca autoral que me caracteriza.

L&L – A ilustração tem vindo a afirmar-se na sua relação com a Literatura. O que falta para que a ilustração assuma um papel ainda mais preponderante?

GSM – A mudança de mentalidades é algo muito demorado. O leitor já aprecia publicações que vivem da ilustração (quer pela quantidade que ocupa no livro quer pela qualidade que se vem vindo a testemunhar) e o editor já arrisca repetir a experiência de publicar mais livros assim. Sermos exigentes, mantendo a qualidade do que oferecemos aos leitores e acreditarmos no que fazemos, divulgando essa mensagem, parece-me ser o caminho a seguir.

L&L – A tradição oral representa, nalguns países da lusofonia, uma importante marca de identidade cultural. A sua reprodução figurativa pode ser uma forma de preservar e divulgar essa tradição?

GSM – Claro. A imagem, de qualquer tipo, tem um poder comunicativo extraordinário, podendo, deste modo, ajudar na divulgação e preservação da identidade cultural. Acrescento que, quando bem utilizada, poderá contribuir para a fixação na memória desse património.

L&L – A Língua Portuguesa é uma mais-valia no panorama literário e artístico mundial? 

GSM – São muitos os falantes da língua portuguesa e há grandes nomes conhecidos, precisamente, na sua língua de origem e não só na sua tradução.

L&L – Quais os seus ilustradores lusófonos favoritos e porquê?

GSM – Bernardo Carvalho pela versatilidade. André Letria pela poesia das suas imagens. Catarina Sobral pela genialidade.

L&L – Ao nível da Literatura e das Artes, que medidas poderão ser implementadas para que o universo lusófono seja uma realidade mais coesa entre ilustradores de diferentes nacionalidades?

GSM – A divulgação dos vários talentos artísticos/literários é fundamental aproximando, sempre que possível, o leitor (de ambas as linguagens) dos criadores. Encontros, exposições, residências ou edições de coletâneas ajudarão, com certeza, a concretizar essa realidade.

L&L – A Internet e os recentes suportes informáticos contribuem para o reforço e promoção do seu trabalho?

GSM – Claro. A informação é disseminada de forma muito mais célere e as novidades chegam mais longe e a mais leitores. A promoção, nestes moldes, fica facilitada.

L&L – Qual o maior desafio que já enfrentou ou que gostaria de enfrentar em termos profissionais?

GSM – Livros sem palavras. Sem dúvida.

 

*Entrevista realizada no âmbito do “Munda Lusófono – 3º Encontro Literário de Montemor-o-Velho”

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