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O homem feliz é aquele que não tem tempo para pensar nas suas coisas. (Gary Cooper)

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ORIGINAIS

Esboço de um poema

ORIGINAIS - POEMA

Atirei bolotas aos porcos

restos de comida aos cães

lágrimas ao mar

flores às mulheres

poemas às crianças

e conselhos aos homens.

 

Os porcos engordaram

os cães ficaram amigos

o mar cresceu

as mulheres abriram-se em botão

as crianças tornaram-se poetas

só os homens ficaram na mesma…

 

E uma andorinha

a quem nada atirei e mal a vi

foi anunciar para outras paragens

que eu enlouqueci.
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Os viajantes e o urso

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ORIGINAIS - CONTO

Dois amigos, Renato e Rómulo, resolveram fazer uma longa viagem.

Durante a viagem, Rómulo, porque tencionava pedir um grande favor ao Renato, aproveitava todas as oportunidades para o convencer que nutria por ele muita amizade.

Sucedeu, porém, que, quando seguiam num ermo caminho e passavam junto de uma floresta, surgiu-lhes inesperadamente pela frente um possante urso.

Então, Rómulo, que era mais jovem, mais forte e mais destro, trepou, com facilidade, para cima de uma árvore, sabendo perfeitamente que o amigo não tinha agilidade para fazer o mesmo. Renato, consciente de que não poderia sozinho defender-se do urso, atirou-se para o chão fingindo estar morto. Seguiram-se momentos de enorme angústia para Renato. Se por um lado tinha a sensação de que a sua vida estava por um triz, por outro lado ainda acalentava a esperança de salvar-se, porquanto tinha ouvido dizer que os ursos não “atacam” pessoas mortas. Razão porque se manteve inerte, sem mexer sequer os olhos, completamente cerrados e, inclusive, susteve a respiração quando o animal se aproximou mais dele. O urso farejou-lhe o nariz, a boca e atirou-lhe pausadamente alguns bafos para o ouvido, retirando-se, em seguida, para a floresta convencido de que o Renato estava morto. Passados alguns minutos, Rómulo gritou para o Renato que ainda se conservava deitado no chão, tendo-se travado, entre eles, este interessante e elucidativo  diálogo:

Rómulo — O urso já se foi  embora. Vou já ajudar-te a levantar.

Renato — Obrigado, não é preciso.

Rómulo — O urso esteve com a boca quase metida no teu ouvido. Parecia dizer-te um segredo.

Renato — Não foi um segredo, foi apenas um aviso.

Rómulo — Um aviso?

Renato — Sim, avisou-me para ter cuidado e não escolher amigos que me abandonem ao primeiro sinal de perigo.


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Sonho de poeta

ORIGINAIS - POEMA

alt

É Natal todos os dias

num Pombal de pombas brancas

foi-se embora a hipocrisia

reinam só pessoas francas.


Não há meninos famintos

cada pobre tem seu pão

são os velhos respeitados

todos têm coração.


Já não há guerras

gritos de dor

e os homens cantam

canções de amor.



Já não há ódios

todos irmãos

e os Homens-Lobos

unem as mãos.

É voz estranha

é voz secreta

mas não estraguem o sonho ao poeta...


Não há ladrões, nem explorados

assassinos nem racismo,

chegou ao Cais a Amizade

caiu ao Poço o Cinismo.


Tomou vida o Deus-Bom

que há em cada um de nós

não acordes o poeta

deixa ouvir a sua voz.

É voz estranha

é voz secreta

mas não estraguem o sonho ao poeta...


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Basta-me

ORIGINAIS - POEMA

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Basta-me um olhar

de mel e de mar

um sorriso de marfim

um abraço sem fim

e um silente desejo

de um simples beijo.

 

E fico feliz

como em petiz

brincava em segredo

ao longo do dia

com certo brinquedo

que não possuía.


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O poema

ORIGINAIS - POEMA

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O poema

não visa um tema

é algo transcendente

supera a mente

é levitação

uma pitada de razão

um quase nada de coração

é magia

sinfonia

de palavras ocas

moucas

e sendo poucas

dizem sem dizer

o indizível

o ininteligível

para além do Ser.
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