António Brito: Foi um grande click que me pôs a sonhar com a escrita
ENTREVISTAS -
Escritores
Quinta, 23 Maio 2013 22:29

António Brito lançou, em Novembro, o seu mais recente livro, “Sagal – O Profeta do Fim”, a sequela de uma inovadora saga de acção e aventura que promete deliciar os leitores ávidos por histórias de ritmo alucinante. A Livros & Leituras quis conhecer um pouco deste autor nascido perto de Coimbra, que combateu em África durante a Guerra Colonial, o seu percurso literário, onde encontra as ideias e o que poderemos esperar dos seus livros hoje e no futuro.
Livros & Leituras (L&L) – Como e quando nasce o interesse pela escrita?
António Brito (AB) – O meu interesse pela escrita é um sonho antigo; vem desde os treze anos, recordo-me bem. Um dia vi na televisão um programa sobre a vida de Ernest Hemingway, sobre os livros que escreveu, as suas aventuras na guerra, na caça, na pesca, e fiquei fascinado. Foi o grande click que me pôs a sonhar com a escrita e me entusiasmou para ler e devorar todos os livros que me vieram parar às mãos… até hoje.
L&L – Como chega ao mundo editorial?
AB – Depois de algumas tentativas há uns anos atrás junto de editoras, para publicar um texto que, pensava eu, podia dar um livro, tive de convencer-me que precisava de trabalhar e aprender muito mais sobre como escrever ficção. Foi o que fiz, através de estudo, cursos de escrita criativa, workshops de escritores, etc. Em 2007 conclui OLHOS DE CAÇADOR e apresentei-o à Sextante Editora. Gostaram do conteúdo e da forma, do estilo enérgico, e o livro foi publicado. Não houve nenhuma recusa depois da primeira apresentação.
L&L – Onde vai buscar a inspiração para escrever as suas obras?
AB – A inspiração é o resultado de muito trabalho de preparação para escrever o livro. Há um primeiro momento que nasce da ideia. Se a ideia faz sentido, crio uma sinopse e começo a contar a história numa dúzia de páginas. Tipicamente, “era uma vez”… Desse esboço inicial faço um plano para todo o livro: enredo, identificação do herói, dos vilões, caracterização das personagens, etc. Planeio tudo, sei como o livro começa, como evolui e como acaba; e até fico com uma ideia do número de páginas que vai ter. Sei que há autores que não planeiam nada, ou muito pouco. Eu preciso desse plano ainda antes de começar a escrever a primeira linha. Porquê? Porque quando a famosa inspiração não está nos seus melhores dias, eu só preciso de seguir o plano para ela acordar e voltar a dar brilho ao texto. Resumindo, a inspiração vai emergindo se soubermos para onde queremos ir. E eu sei. Sempre.
L&L – A saga "Sagal", promete ser uma colecção de livros protagonizados por este "herói feito em África". Como nasce este personagem e esta história e o que podemos esperar de ambos no futuro?
AB – SAGAL é um projecto literário inovador composto por uma série de livros orientados para o grande-público, para os leitores que gostam de livros de acção, entretenimento e aventura. O primeiro livro, lançado em Maio deste ano com o título SAGAL – UM HERÓI FEITO EM ÁFRICA, é o de apresentação da personagem: de onde vem, quais os seus dramas e motivações, a sua experiência africana, porque se chama Sagal, o que fez para chegar aqui e ser solicitado a prestar serviços pouco habituais. Este e os seguintes não são livros de guerra, não tratam dos conflitos de África, nem têm a ver com as pessoas que viveram nessas paragens. A intervenção de Sagal nas guerras de África serve apenas para ajudar o leitor a situar o percurso da personagem e, desse modo, não estranhar porque é que ele é capaz de agir como o faz, às vezes à margem da lei, usando métodos pouco ortodoxos.
A partir do segundo livro, SAGAL – O PROFETA DO FIM, que foi apresentado ao público em Novembro deste ano, Sagal torna-se a assinatura que identificará toda a série. Cada livro desta série contará uma história diferente, centrada na acção irreverente e peculiar de Sagal – combatente, sedutor, aventureiro, marginal, herói romântico. A personagem inspira-se nas minhas vivências e testemunhos, mas também na fantasia gerada por personagens como Corto Maltese (Hugo Pratt), como Henry Chinaski (Charles Bukowski), e Capitão Alatriste (Arturo Pérez-Revert). Sagal tem o cunho firme do aventureiro português da era moderna, enriquecido por pinceladas de aventureiros e vilões portugueses de antigamente, como Fernão Mendes Pinto, João Brandão e Zé do Telhado.
Para escrever as histórias de Sagal inspiro-me nas notícias contemporâneas conhecidas dos leitores. A partir desses eventos reais de marginalidade, com criminosos de colarinho branco – e sem colarinho –, de gente corrupta que age sob a capa da legalidade, de malfeitores que os cidadãos tinham por gente séria, vou construíndo histórias de ficção de onde emergem personagens vilões, e onde SAGAL é solicitado a intervir, por sua iniciativa ou a mando de alguém.
L&L – Tem, igualmente, gosto pela escrita para cinema. Pretende transformar alguma das suas obras em filme?
AB – Gosto muito de escrita para cinema, pela sua clareza, pela sua organização. Da minha formação em escrita criativa consta também a escrita criativa para cinema, não porque nesta fase queira escrever cinema, mas para trazer para as histórias e estrutura dos meus livros a emoção do cinema, a suas imagens, a sua cor, as suas técnicas para contar uma boa história. Gostaria muito que livros como OLHOS DE CAÇADOR e SAGAL, muito cinematográficos, pudessem ser adaptados ao cinema. Acredito que isso irá acontecer.
L&L – Como caracteriza o seu estilo literário?
AB – Consigo escrever com diferentes estilos, depende das histórias que quero contar, do ritmo que quero impôr às personagens. No livro O CÉU NÃO PODE ESPERAR o estilo é mais suave, introspectivo, procurando levar o leitor para a reflexão de temas como o amor infinito e a imortalidade. Já nos livros OLHOS DE CAÇADOR e SAGAL, o estilo é muito diferente, é intenso, espécie de staccato ou rap, telegráfico, duro, cortante, irónico, com humor, cheio de frases curtas, incisivas, adoçadas com erotismo, capaz de fazer o leitor imergir na história e deixá-lo lá agarrado, sem saber se é ficção ou realidade.
L&L – Qual foi o maior desafio que encontrou durante o processo criativo e editorial?
AB – O maior desafio que encontrei no processo criativo foi planear, estruturar e escrever o meu segundo livro O CÉU NÃO PODE ESPERAR. É um livro mais complexo que todos os outros porque não é uma história, mas três histórias a correrem paralelas em três séculos diferentes, com personagens diferentes, e que, a meio, se fundem numa única história. Este livro conta uma das mais belas histórias inseridas no realismo fantástico. O desafio editorial foi montar a série SAGAL; desde o primeiro dia que a Porto Editora pegou neste projecto de modo muito profissional em termos de marketing, distribuição e comunicação, variáveis muito desafiantes para se ter sucesso. Estou muito satisfeito com o trabalho realizado.
L&L – Que projectos pretende desenvolver no futuro?
AB – Continuar a expandir os livros da série SAGAL com o seu ritmo próprio e, em paralelo, escrever outros livros que já tenho projectados, com outro fôlego, com outra densidade, com outra profundidade.
L&L – Pretende dedicar-se à escrita a tempo inteiro ou conjuga-a com outras actividades?
AB – Desde há alguns anos que organizei a minha vida para me poder dedicar a tempo inteiro a escrever livros. Durante muitos anos tive outras actividades, mas a partir do lançamento de OLHOS DE CAÇADOR, decidi, finalmente, realizar o sonho daquele rapazito de treze anos que viu um programa de televisão sobre a vida de Ernest Hemingway, ficando fascinado pela literatura e pelas histórias que ela revela.
L&L – Se pudesse dar um concelho a novos autores, ou jovens talentos a despontar, o que diria?
AB – Primeiro, nunca desistir, por maior que seja a adversidade, por maior que seja o tempo para concretizar o sonho. Segundo, ler muito, devorar tudo o que apareça à frente: bons livros, maus livros, clássicos, modernos, banda desenhada, anúncios de jornais, bulas de medicamentos, etc. – todos, independentemente dos diferentes modos de estruturar os textos, contam uma história, transmitem uma ideia, tentam convencer-nos de alguma coisa. Para jovens, e menos jovens, autores que queiram escrever e publicar, são excelentes meios de aprendizagem. Terceiro, ter humildade para aprender com quem sabe mais do que nós, estudar com os que nos podem ensinar alguma coisa, e ter ousadia para arriscar na diferença; não ser seguidista de um autor consagrado ou de um estilo em moda. Ser diferente pode conduzir-nos a um beco sem saída (e aí há que recomeçar), ou pode atirar-nos para o alto, para o reconhecimento público. E isso vale a pena tentar.
António Brito tem quatro obras publicadas:
Olhos de Caçador (2010), publicado pela Sextante Editora
O Céu Não Pode Esperar (2010), publicado pela Sextante Editora
Sagal – Um Herói Feito em África (2012), publicado pela Porto Editora
Sagal – O Profeta do Fim (2012), publicado pela Porto Editora
A sua primeira obra, OLHOS DE CAÇADOR, foi elogiada como uma das mais detalhadas e realistas obras escritas em língua portuguesa sobre a Guerra Colonial.
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