
A notícia caiu que nem uma bomba. Só prova que a nossa pobre democracia é jovem e débil. Pior do que se passou com o recente caso da TVI, em que os jornalistas foram claramente silenciados – directa ou indirectamente pela máquina socialista, pouco importa – é a decisão do Tribunal Cível de Lisboa que proibiu a venda do livro "A Verdade da Mentira", escrito por Gonçalo Amaral sobre o desaparecimento de Madeleine McCann.
Se o ex-inspector da PJ, que investigou o caso durante meses a fio, dá a cara e o nome por aquilo que escreve, por que motivo censurar o livro? Se for caso disso, que seja julgado o autor, que prove o que escreveu e, se não provar, que seja condenado por calúnia! E, já agora, por que motivo não houve tratamento igual da justiça portuguesa face ao “Eu, Carolina”, o polémico livro de Carolina Salgado sobre a alegada corrupção que envolve Pinto da Costa e o Futebol Clube do Porto?
Imaginem se Deus Nosso Senhor, Jesus Cristo ou a Igreja Católica tivessem tanto poder quanto os McCann, já o nosso José Saramago teria, há muitos anos, desistido da escrita... Não teria sido Nobel, não haveria “Memorial do Convento”, Evangelho ou Caim...
Pior que a máquina poderosa dos McCann, apoiada pelo igualmente poderoso governo inglês sobre o pobre tuga, é o juiz português que delibera dessa forma. Não me lembro que algo tenha acontecido, desde o 25 de Abril, em Portugal. Senhor magistrado, de certeza que leu o livro?? O que lá consta é a investigação levada a cabo pela Polícia Judiciária. O livro limita-se a narrar os passos da PJ, os locais, as horas, as declarações de testemunhas e, obviamente, a opinião do autor que conhece o caso como ninguém. São dados de um processo que deixou de estar em segredo de justiça. Qualquer jornalista pode ter acesso. Leu o livro ou baseou-se apenas na cinzenta súplica duvidosa dos McCann?? Houve pressões para deliberar dessa forma ou somente o nome McCann é sinónimo de poder e de pressão?
No despacho que chegou à imprensa, através da LUSA, é ordenada a retirada das lojas de todos os exemplares do livro, e todos os que estiverem em armazém vão ser entregues a uma depositária. Se tiver sorte, e porque, por enquanto, ainda não há PIDE, o exemplar que tenho na minha biblioteca, que li com muita atenção não mo devem poder tirar!? Ou será que ainda me vêm a casa roubar a obra?
E, para ridicularizar ainda mais esta medida cautelar da justiça portuguesa, parece que tanto Gonçalo Amaral como a editora Guerra e Paz estão proibidos de falar sobre o livro e sobre o desaparecimento de Madeleine. É para rir!!
Ao Gonçalo Amaral, que não conheço mas gostaria de conhecer por ser um homem sem medos, um Davi contra uns quantos frouxos Golias mentirosos, resta o meu apoio e solidariedade. Caro Gonçalo, não se preocupe. Considero até que esta decisão do juiz acabou por imortalizar a sua obra. Já vendeu milhares de exemplares e quase todos conhecem a sua versão dos factos.
Infelizmente, a história da literatura mundial é rica em livros censurados. Hoje, depois da razão, são best-sellers: “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley; “A Idade da Razão” do meu adorado Sartre; “Cândido” de Voltaire; “Noite de Reis” de Shakespeare; “Os Três Mosqueteiros” de Alexandre Dumas (pai); “Trópico de Câncer” de Henri Miller ou “Na Toca dos Leões” de Fernando Morais, para lembrar apenas estes. Brevemente, juntar-se-á “A Verdade da Mentira”.
Enquanto Director-Adjunto da Revista Livros & Leituras prometo-vos que vou voltar a ler “A Verdade da Mentira”, e aqui será colocada uma proposta de leitura. Daquelas propostas que as grandes obras merecem! Depois, resta-me a esperança vã de não voltar a ser processado por uma justiça vesga de medo... Uma justiça de um país à beira mar estagnado! Força ao Gonçalo e à Editora Guerra e Paz!
| Domingo: 21h00 - Marcelo Rebelo de Sousa, TVI | 22h30 - Câmara Clara, RTP 2 |