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Isabel Miguel: "Sou alguém que vive com pensamentos às cores devido às línguas"

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Livros & Leituras - Quem é?

Resposta: Resposta dif√≠cil‚Ķ A quest√£o das l√≠nguas penso influencia bastante a minha identidade‚Ķ Nasci em Mainz na Alemanha. Aprendi a ler com o meu pai aos 5 anos a l√≠ngua alem√£, na escola fal√°vamos alem√£o e ingl√™s, o portugu√™s era falado em casa e com os vizinhos portugueses. O facto de ter vivido em v√°rios locais diferentes em Portugal tamb√©m ajudou √† dificuldade estabelecer as minhas ra√≠zes. Hoje aos 45 anos j√° n√£o dou import√Ęncia a essa oscila√ß√£o, sinto-me bem em qualquer local no mundo.

Isabel Miguel - Sou alguém que vive com pensamentos às cores devido às línguas que fazem parte do meu ser. Sou mulher escritora, sonhadora, professora. Luto pelo que considero justo e correto.

L&L - Como e quando começou a interessar-se por literatura?

Isabel Miguel - Sempre vivi rodeada de livros desde muito nova, os meus pais compravam livros e foram ‚Äúarmazenado‚ÄĚ os mesmos para mim e n√£o imagino uma casa sem livros espalhados. Li ‚ÄúOs Maias‚ÄĚ aos 13 anos para aprender as palavras, uma tentativa exasperada para conhecer a l√≠ngua portuguesa. Este momento tornou-se um dos mais bonitos da minha vida, devorei os livros de E√ßa, J√ļlio Dinis e Camilo Castelo Branco - descobri que as palavras n√£o eram sofrimento mas sim alegria, prazer, amor.

Eu poderia contar as diversas histórias da escola que quase destruíram a literatura para mim, mas a água não passa duas vezes no mesmo local e hoje tento que a nossa língua seja amada e estimada pelos nossos jovens.

L&L - Por que motivo resolveu escrever livros?

Isabel Miguel - Porqu√™? Porque felizmente existem pessoas muito especiais que acreditaram em mim quando eu j√° n√£o tinha capacidade e for√ßa para isso. Decidi ent√£o escrever como penso! A minha escrita vem de uma mente que pensa em tr√™s l√≠nguas, n√£o sei se algu√©m entende isso, mas as frases s√£o sempre uma mistura do ingl√™s, alem√£o e portugu√™s. N√£o consigo evitar e por vezes causa situa√ß√Ķes embara√ßosas. Os meus poemas s√£o em portugu√™s, ingl√™s, e alem√£o, e outras l√≠nguas que conhe√ßo.

L&L - Qual foi a obra que mais gostou de escrever e porquê?

Isabel Miguel - Participei em duas colet√Ęneas de autores ‚Äú16 autores‚ÄĚ e ‚ÄúUm lugar surpreendido pelo olhar‚ÄĚ e esta participa√ß√£o deu-me coragem para escrever o meu pr√≥prio livro. O apoio de Paulo Domingos do projeto Autor Publica foi fundamental, ele dizia sempre ‚Äútu consegues Vulc√£ozinho!‚ÄĚ.

O livro de Poesia Sic infit - Insuficiência acutilante surgiu num momento de renascimento em que reencontrei a beleza das palavras nas diversas línguas associado à necessidade de libertar os sentimentos que estavam escondidos nas profundezas de uma alma perdida. Sinto que é um novo começo, daí o titulo em latim Sic infit (e assim começa) e a felicidade de escrever de novo após anos de fugir das palavras que brotam constantemente.

Este livro é a consolidação do meu amor pelas palavras, um amor que abafei durante quase 20 anos. Uma noite não consegui para de escrever, penso que escrevi uns 10 poemas. Nesse dia senti que tinha voltado a respirar.

O respirar deste livro foi o reencontro do verdadeiro amor, um amor por mim, aceitar-me. Ser de novo. A simplicidade de alguns poemas √© enganadora! O Poema ‚ÄúSempre‚ÄĚ pode ser lido de cima para baixo, de baixo para cima e ainda alternadamente:

Sempre

Quero desistir.

Quero o pedaço que levaste.

Quero o que roubaste.

Sempre só.

Sempre sem.

Sempre com.

L&L - Em que é que se inspira para escrever um livro?

Isabel Miguel - Sentimentos! Fundamentalmente sentimentos. Palavras que oiço por aí. Tudo pode originar um poema e quando o poema aparecer tenho de escrever.

L&L - Se n√£o fosse escritor, o que gostava de ser?

Isabel Miguel - Muito provavelmente algo relacionado com animais. A falta de compaix√£o para com seres indefesos ainda me surpreende. Apoio algumas associa√ß√Ķes tais como a ‚ÄúAssocia√ß√£o Vira-latas‚ÄĚ em Marinhais e ‚ÄúRef√ļgio Animal Angels‚ÄĚ do Cartaxo.

Algo que poucas pessoas sabem é o meu gosto pela costura e criar roupa, talvez tivesse futuro, nunca se sabe.

L&L - Quais s√£o seus autores preferidos?

Isabel Miguel - Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro, Almada Negreiros, Edgar Allen Poe, William Blake, Goethe, Almada Negreiros, Viginia Wolf, Emily Bronté, Florbela Espanca, Emily Dickinson, Zadie Smith, Stieg Larsson, Mia Couto, Herman Hesse, e tantos, tantos, tantos.

L&L - Que conselho daria a alguém que deseje vir a ser escritor?

Isabel Miguel - Ler, ler,ler,ler!

L&L - Para quando um novo projeto editorial?

Isabel Miguel - Estou a escrever o segundo livro de poemas que neste momento tem o título provisório de “Memórias líquidas “, e tenho o sonho de escrever um livro para crianças.

L&L - Agora que j√° conhece a revista Livros & Leituras, que opini√£o tem deste projeto editorial sem fins lucrativos?

Isabel Miguel - A promo√ß√£o da leitura √© sempre majestoso e este projeto apresenta autores, livros, acontecimentos ‚Äúlivrescos‚ÄĚ, not√≠cias e afins. O facto de ser sem fins lucrativos dignifica ainda mais o trabalho dos seus autores, porqu√™? Porque apresentam a literatura e tudo o que rodeia a mesma sem objetivos comerciais, simplesmente pelo amor √† arte e isso √© maravilhoso.


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Marisa Galvão: "Arriscar é o que nos resta"

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Marisa Afonso Dantas Galvão nasceu em Lisboa em 1980 onde cresceu apesar da forte influência das suas origens do norte do país.
Desde cedo demonstrou gosto e aptidão para os idiomas e a escrita acabando por se licenciar em Tradução na variante de Inglês/Francês pela Universidade Autónoma de Lisboa no ano de 2006. Acabou por abraçar outros desafios profissionais mantendo a tradução apenas a título freelancer.
No √Ęmbito do est√°gio curricular efetuado para as Edi√ß√Ķes Sfori foi coautora de dois livros de uma colet√Ęnea intitulada ‚ÄúNo meu tempo‚ÄĚ editada em 2006 que se baseou numa recolha de conhecimento junto dos mais idosos.
Mas com uma alma rom√Ęntica, o gosto pela escrita nunca desapareceu, levando-a a passar para o papel algumas hist√≥rias por si ficcionadas.

Livros & Leituras - Quem é?

Marisa¬† Galv√£o - Marisa Afonso Dantas Galv√£o, tenho 36 anos, sou licenciada em Tradu√ß√£o e vivo no Concelho de Sintra, sou funcion√°ria p√ļblica na C√Ęmara Municipal da Amadora e tradutora freelancer mas tenho a escrita como hobby e paix√£o.

L&L - Como e quando começou a interessar-se por literatura? 

MG - Desde sempre que houve incentivo para ler com a banda desenhada da Disney e os contos infantis normais e sempre gostei mas depois passei aquela fase da adolescência em que apenas lia os livros que era obrigada. Os livros devem ser lidos por prazer, porque nos apetece ter uma companhia para nos distrair. Nunca devem ser uma obrigação. Depois claro que amadureci e aprendi novamente a procurar a companhia agradável de um livro para relaxar do quotidiano.

L&L - Por que motivo resolveu escrever livros?

MG - Sempre tive um lado virado para a escrita pois sempre me foi mais f√°cil transmitir emo√ß√Ķes por palavras escritas. Ao longo dos anos sempre fui escrevendo pequenos poemas e textos mas quando na faculdade um dos docentes nos desafiou para escrevermos um pequeno conto e o meu at√© obteve uma critica positiva pensei ‚Äúse calhar at√© tenho jeito para isto e vou experimentar escrever algo mais complexo‚ÄĚ e assim foi‚Ķ Um dia de praia foi o primeiro livro que escrevi em 2006 e esteve guardado na gaveta at√© hoje quando tive coragem de o editar em colabora√ß√£o com a Chiado Editora.

L&L - Qual foi a obra que mais gostou de escrever e porquê?

MG - Ainda só editei um romance por isso para já esta é a minha obra preferida quem sabe daqui a uns anos se tiver oportunidade de responder novamente a esta perguntar a resposta já seja outra diferente.

L&L - Em que é que se inspira para escrever um livro?

MG - Antes de come√ßar a escrever penso sempre se poder√° ser √ļtil na vida das pessoas e se pode ajud√°-las ou influenciar de alguma forma pois invariavelmente o ser humano est√° sempre √† procura de algo que lhe transmita felicidade e bem estar. Penso nas viv√™ncias di√°rias comuns. Depois crio uma ideia base, uma personagem principal e a partir da√≠ construo na minha imagina√ß√£o um mundo paralelo para essa personagem e, quando me sento a escrever vivo e respiro enquanto essa pessoa, e n√£o como a Marisa, para poder transmitir uma hist√≥ria o mais real poss√≠vel, apesar de imaginada.

L&L - Se não fosse escritor, o que gostava de ser? 

MG - De momento não sou escritora de profissão mas apenas enquanto hobby e, por isso, gosto daquilo que faço e que ainda me permite ter tempo para dedicar à escrita.

L&L - Quais são seus autores preferidos? 

MG - Costumo prender-me mais pelas histórias em si do que nos autores mas obviamente que tenho autores que gosto mais de ler como é o caso, por exemplo, de Nicholas Sparks, Margarida Rebelo Pinto, Nora Roberts e Tiago Rebelo.

L&L - Que conselho daria a alguém que deseje vir a ser escritor?

MG - Acreditar em si e valorizar-se. Este livro ‚ÄúUm dia de praia‚ÄĚ esteve na gaveta quase 10 anos tal como muitos de n√≥s pomos de lado sonhos e objetivos de vida apenas porque achamos que n√£o estamos √† altura ou porque as condicionantes da vida nos aprisionam e envolvem numa rotina absurda cujos objetivos passam a ser outros e quando damos por isso estamos a sobreviver em vez de viver‚Ķpois s√≥ vivemos realmente quando fazemos aquilo que gostamos e nos faz sentir livres. H√° momentos em que a vida ou algu√©m nos desafia e surge em n√≥s uma for√ßa interior que nos leva a mostrar quem realmente sonos e o nosso valor. Arriscar √© o que nos resta.

L&L - Para quando um novo projeto editorial?

MG - Para j√° estou ainda a promover e a viver o sonho da edi√ß√£o deste que √© o meu primeiro romance. Espero que ‚ÄúUm dia de praia‚ÄĚ tenha uma boa aceita√ß√£o do p√ļblico, pelo menos para j√° est√° a correr tudo muito bem, e que dessa forma me sinta mais motivada a avan√ßar com o lan√ßamento de um segundo livro, quem sabe para o final do ano.


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Sandra Meireles: "Escrever, para mim, é tornar imortal a minha voz"

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Sandra Meireles nasceu em 1981, em Serra Azul de Minas, uma pequena cidade no interior de Minas Gerais, Brasil. A√≠ passou toda a sua inf√Ęncia rodeada pelo afeto da fam√≠lia e dos amigos. Com eles aprendeu tudo aquilo que engrandece o ser humano: amor, dignidade, f√©, respeito e perseveran√ßa. Vive, atualmente, em Lisboa, onde frequenta o curso de Ci√™ncias da comunica√ß√£o na Universidade Aut√≥noma. Tem paix√£o pela escrita e pela leitura. O seu primeiro livro infantil intitula-se ‚ÄúO sonho da estrela guia‚ÄĚ, Chiado Editora.

Livros & Leituras ‚Äď Que significado tem para si o ato de escrever e a partir de que altura este se tornou ‚Äúprofissional‚ÄĚ?

Sandra Meireles ‚Äď Escrever, para mim, √© tornar concretas as minhas ideias. √Č tornar imortal a minha voz. Pois acredito que as palavras expressadas oralmente perdem o seu valor, ou seja, deixam de existir com o tempo, enquanto as palavras escritas s√£o eternas. A minha escrita tornou-se profissional, a partir do momento que acreditei que a mesma seria √ļtil e que algu√©m se identificaria com ela.

L&L ‚Äď √Č preciso ser um bom leitor para se ser um bom escritor?

SM ‚Äď H√° quem diga que n√£o. Eu direi que sim, porque ‚Äúescrever‚ÄĚ √© a cara-metade do ‚Äúler‚ÄĚ. Se eu n√£o tenho um bom h√°bito de ler, obviamente n√£o terei um bom desenvolvimento na escrita. At√© mesmo porque ningu√©m aprende algo sozinho, √© preciso conhecer o trabalho do pr√≥ximo para planear o nosso.

L&L ‚Äď O seu trabalho √© vers√°til ou, pelo contr√°rio, tem um estilo muito pr√≥prio e facilmente identific√°vel pelos leitores?

SM ‚Äď O meu trabalho est√° constru√≠do no meu estilo pr√≥prio, de f√°cil compreens√£o e de forma muito identific√°vel pelos meus leitores

L&L ‚Äď √Āreas como, por exemplo, a ilustra√ß√£o e a m√ļsica t√™m vindo a afirmar-se na sua rela√ß√£o com a Literatura. Como encara esse facto?

SM ‚Äď Para mim, √© um facto verdadeiramente positivo e construtivo. Acho que faz todo o sentido a rela√ß√£o entre a ilustra√ß√£o, a m√ļsica e a literatura. S√£o tr√™s ‚Äúferramentas‚ÄĚ poderos√≠ssimas para a moldagem de uma ‚Äúmente‚ÄĚ aberta.

L&L ‚Äď A tradi√ß√£o oral representa, nalguns pa√≠ses da lusofonia, uma importante marca de identidade cultural. A globaliza√ß√£o e a dificuldade em editar podem ser uma amea√ßa √† perda desse patrim√≥nio?

SM ‚Äď Eu n√£o vejo o processo da globaliza√ß√£o como uma amea√ßa para a perda deste patrim√≥nio, mas sim como uma oportunidade de expans√£o desta cultura. At√© mesmo porque √© cada vez mais f√°cil editar, portanto, vejo a globaliza√ß√£o como um contributo.

L&L ‚Äď A L√≠ngua Portuguesa √© uma mais-valia no panorama liter√°rio mundial?

SM ‚Äď N√£o h√° sombra para d√ļvidas que sim. Temos brilhant√≠ssimos autores, com mensagens √ļnicas, e a nossa l√≠ngua √© rom√Ęntica, √ļnica, sendo a quinta l√≠ngua mais falada no mundo, √© sempre uma mais-valia.

L&L ‚Äď Quais os seus escritores lus√≥fonos favoritos e porqu√™?

SM ‚Äď Poderia citar uma lista intermin√°vel deles: brasileiros, angolanos, portugueses. Mas para j√° fico com a Clarice Lispector, Monteiro Lobato e Cec√≠lia Meireles. S√£o uns g√©nios na escrita, de refer√™ncias inigual√°veis, com um poder m√°gico de elaborar palavras, hist√≥rias e livros, que sempre me cativou.

L&L ‚Äď Ao n√≠vel da Literatura, que medidas poder√£o ser implementadas para que o universo lus√≥fono seja uma realidade mais coesa entre escritores de diferentes nacionalidades?

SM ‚Äď Poder√£o implementar por exemplo, encontros liter√°rios internacionais, n√£o s√≥ com escritores lus√≥fonos, mas tamb√©m com outros de outras nacionalidades. Pois o universo liter√°rio √© t√£o amplo, com riqu√≠ssimas obras por explorar, de grandes intelectuais que por vezes nos passam despercebidos.

L&L ‚Äď A Internet e os recentes suportes inform√°ticos contribuem para o refor√ßo e promo√ß√£o do seu trabalho?

SM ‚Äď A Internet √© meio caminho andado, neste s√©culo dominado pelas tecnologias. Cada vez mais une as pessoas ‚Äúvirtualmente‚ÄĚ, e esta ferramenta, sem d√ļvida, que √© um meio contribuinte para a promo√ß√£o e divulga√ß√£o dos nossos trabalhos.

L&L ‚Äď Qual o maior desafio que j√° enfrentou ou que gostaria de enfrentar em termos profissionais?

SM ‚Äď O maior desafio que gostaria de enfrentar: abrir um biblioteca e dedicar os meus dias ao servi√ßo dos livros.

*Entrevista realizada no √Ęmbito do ‚ÄúMunda Lus√≥fono ‚Äď 3¬ļ Encontro Liter√°rio de Montemor-o-Velho‚ÄĚ


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Jo√£o Nuno Azambuja: "Gosto de explorar, talvez seja por isso que escrevo"

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Livros & Leituras - Quem é?

João Nuno Azambuja nasceu em Braga em 1974, o ano da revolução. Licenciou-se em História e Ciências Sociais e dedicou-se à arqueologia como voluntário. Foi também como voluntário que prestou serviço nas tropas paraquedistas. Regressado à terra construiu um bar de inspiração celta, onde se realizaram concertos memoráveis de bandas folk ibéricas. "Era uma vez um homem", livro premiado pela União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa, foi o seu primeiro livro.

L&L - Como e quando começou a interessar-se por literatura?

JNA - Julgo que come√ßou com a banda desenhada. Eu tinha uns sete ou oito anos¬†quando li o primeiro livro do Asterix. Fiquei t√£o fascinado que n√£o desisti enquanto n√£o os li todos. Os meus colegas da escola admiravam-se comigo porque achavam que eu demorava muito a l√™-los (√© que eu lia-os realmente, enquanto eles s√≥ viam os desenhos, era o que me diziam). A partir da√≠ achei que tamb√©m podia atrever-me a escrever aventuras, e escrevi algumas que desapareceram com os anos de experi√™ncias de inf√Ęncia e juventude. Quando vi que era altura de escrever a s√©rio, fui guardando os rascunhos.

L&L - Por que motivo resolveu escrever livros?

JNA - Na resposta anterior já me refiro a um desses motivos, porque há outros. O principal deles é ter alguma coisa importante para dizer, para partilhar. Escrever não é só dizermos o que pensamos, também é pormo-nos na cabeça dos outros e escarafunchar o que se passa lá por dentro, somos uns bisbilhoteiros de consciências. Gosto de explorar, talvez seja por isso que escrevo. Explorando descubro-me a mim e revolvo mistérios que me exaltam a curiosidade.

L&L - Qual foi a obra que mais gostou de escrever e porquê?

JNA - Tenho somente um livro publicado, uma novela chamada "Era uma vez um homem", que venceu o primeiro concurso literário da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (concurso de toda a lusofonia), mas isso não quer dizer que só tenha escrito esse, nem foi sequer o primeiro, porque na minha oficina já trabalho há muito tempo. As outras obras estão inéditas, mas a prepararem-se para a publicação. Refiro o nome de uma delas, é um romance intenso de aventuras chamado "O rasto da Fénix", que pode ser descrito como uma viagem pela condição humana. Foi talvez este que mais gostei de escrever, encheu-me de desafios, apresentou-me obstáculos que à partida pareciam impossíveis de superar. Consegui superá-los e fiquei feliz por isso, cheguei ao fim tão cansado como realizado. Vai valer a pena ler. O "Era uma vez um homem" é mais violento, é chocante, uma crítica mordaz ao mundo atual, e obriga o leitor a inserir-se na mente do homem (a personagem principal) e a pensar como ele. Cativa a atenção (o escritor Miguel Real chegou a dizer que as palavras deste livro sentem-se na carne).

L&L - Em que é que se inspira para escrever um livro?

JNA - Inspiro-me em tudo o que existe √† minha volta, na realidade, na sociedade, em tudo o que √© belo e em tudo o que √© feio, em tudo o que √© bom e em tudo o que √© mau, no nexo e na incongru√™ncia, na verdade e na mentira, na nudez do mundo e na apar√™ncia de que se veste. As sensa√ß√Ķes que tudo isto me provoca obrigam-me a escrever.

L&L - Se não fosse escritor, o que gostava de ser? 

JNA - Não sei se sou escritor, mas é o que mais quero ser. Se me perguntasse: o que quer ser quando for grande, talvez não respondesse que queria ser escritor, talvez respondesse: quando for escritor quero ser grande. Só serei escritor se os meus livros forem bons, senão não vale a pena.

L&L - Quais são seus autores preferidos? 

JNA - Marguerite Youcenar fascina-me. Não percebo como é que não foi distinguida com o prémio Nobel da literatura. Outros escritores que ganharam o Nobel são inferiores a ela. Fernão Mendes Pinto foi outro autor que me marcou profundamente. Em geral gosto dos clássicos, não consigo estar muito tempo longe deles, atraem-me. Petrónio, Séneca, Homero, Vergílio, Horácio, Ovídio, e outros, são indispensáveis na minha biblioteca.

L&L - Que conselho daria a alguém que deseje vir a ser escritor? 

JNA - Que escreva o que sente, que não procure escrever para mostrar que sabe escrever mas para partilhar o seu pensamento. Deve também ler, mas que leia aquilo que goste. Ser obrigado a ler só para acrescentar um livro ou um autor à sua bagagem é algo próximo da tortura. Schopenhauer dizia que era bom que quando comprássemos livros comprássemos também tempo para os ler. Se isso não é possível, para quê desperdiçar tempo?

L&L Para quando um novo projeto editorial?

JNA - Pelos meus desejos será o mais brevemente possível, mas as editoras têm os seus calendários muito próprios. Em 2017 conto ter mais livros nas livrarias, além do premiado "Era uma vez um homem" (que está na FNAC).

Agora que j√° conhece a revista Livros & Leituras, que opini√£o tem deste projeto editorial sem fins lucrativos?

Quem se dedica a um projeto sem fim lucrativos é porque gosta do que faz, e isso significa que o resultado é genuíno

Jo√£o Nuno Azambuja. Braga, 24 de Outubro de 2016.


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Tom√°s Lima Coelho: "Para se escrever um livro de qualidade aceit√°vel tem de se ler pelos menos cem"

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Tom√°s Lima Coelho nasceu em Angola, em 1952, e √© o mais velho de cinco irm√£os. Percorreu grande parte do territ√≥rio angolano porque o pai, natural do Lobito e funcion√°rio das Finan√ßas estava, por esse motivo, sujeito a desloca√ß√Ķes peri√≥dicas com a fam√≠lia sempre a acompanh√°-lo: L√Ęndana, Caconda, Ca√°la, Camacupa, Bi√© e, finalmente, Malanje. Em consequ√™ncia da guerra civil, que em 1974/5 assolou Angola, veio para Portugal, onde reside desde ent√£o. √Č casado com Ilda Coelho, tem dois filhos e uma neta. H√° mais de uma d√©cada que se dedica ao estudo da Hist√≥ria e das Literaturas de Angola. √Č autor do romance hist√≥rico ‚ÄúCh√£o de Kan√Ęmbua‚ÄĚ (Chiado Editora, 2010), coautor e organizador de ‚ÄúMalanje. O Tempo e a Mem√≥ria‚ÄĚ (Edi√ß√£o de Autor, 2013) e ‚ÄúMalanje. Suas Gentes‚ÄĚ (Edi√ß√£o de Autor, 2015). √Č tamb√©m autor da obra ‚ÄúAutores e Escritores de Angola (1642-2015)‚ÄĚ. Participa√ß√£o nas seguintes colet√Ęneas e antologias: ‚ÄúEntre o Sono e o Sonho‚ÄĚ ‚Äď Antologia de poesia contempor√Ęnea ‚Äď Tomos II e III (Chiado Editora, 2011 e 2012), ‚ÄúOcultos Buracos‚ÄĚ ‚Äď Colet√Ęnea de contos (Pastelaria Studios Editora, 2012), ‚ÄúAlhos Vedros da Minha Alma‚ÄĚ ‚Äď Antologia de contos (Academia 8 de Janeiro de Alhos Vedros, 2013) e ‚ÄúTaras de Luanda II‚ÄĚ ‚Äď Antologia de cr√≥nicas e contos (Ch√° de Caxinde, 2016).

 

Livros & Leituras ‚Äď Que significado tem para si o ato de escrever e a partir de que altura este se tornou ‚Äúprofissional‚ÄĚ?¬†

Tom√°s Lima Coelho ‚Äď ‚ÄúProfissional‚ÄĚ entre aspas, isso mesmo. Escrever √©, para mim, uma forma de partilha. Ningu√©m escreve s√≥ para si, na minha opini√£o. No meu caso, curioso e apaixonado que sou pela Hist√≥ria da √Āfrica e de Angola em particular, √© atrav√©s da escrita que procuro partilhar com os leitores essa paix√£o e os conhecimentos que vou adquirindo. Desde muito cedo que a escrita tem sido natural em mim e sempre incentivada desde muito jovem pelos meus pais e professores.

 

L&L ‚Äď √Č preciso ser um bom leitor para se ser um bom escritor?

TLC ‚Äď Claro que sim. Digo sempre aos aspirantes a escritor que para escreverem um livro de qualidade aceit√°vel t√™m de ler pelos menos cem. E essa leitura tem que ser a mais abrangente poss√≠vel em termos de autores e g√©neros liter√°rios, desde os cl√°ssicos √† literatura de cordel, passando tamb√©m pela banda desenhada e pelos jornais. Ler, ler, ler tudo o que passe em frente dos nossos olhos.

 

L&L ‚Äď O seu trabalho √© vers√°til ou, pelo contr√°rio, tem um estilo muito pr√≥prio e facilmente identific√°vel pelos leitores?

TLC ‚Äď Se tivesse que me definir a mim pr√≥prio diria que sou um contista-novelista. Como tra√ßo de identidade da minha escrita talvez me reconhe√ßam porque tenho sempre Angola como pano de fundo naquilo que vou produzindo.

 

L&L ‚Äď √Āreas como, por exemplo, a ilustra√ß√£o e a m√ļsica t√™m vindo a afirmar-se na sua rela√ß√£o com a Literatura. Como encara esse facto?

TLC ‚Äď √Č um percurso antigo e uma rela√ß√£o natural. As Artes, que sempre procuram exprimir o belo, tendem cada vez mais a aproximar-se e a unir-se, sem esfor√ßo, sem imposi√ß√Ķes e sem dogmas. Veja-se a atribui√ß√£o do Pr√©mio Nobel da Literatura no ano de 2016, por exemplo.

L&L ‚Äď A tradi√ß√£o oral representa, nalguns pa√≠ses da lusofonia, uma importante marca de identidade cultural. A globaliza√ß√£o e a dificuldade em editar podem ser uma amea√ßa √† perda desse patrim√≥nio?

TLC ‚Äď Pelo contr√°rio, penso que a oralidade s√≥ ter√° a ganhar com a globaliza√ß√£o e com a dificuldade em editar. Nos meios mais pobres das nossas sociedades, e tamb√©m nos meios rurais, o contador de hist√≥rias ter√° sempre um lugar de destaque. Veja-se em √Āfrica o exemplo dos griot, contadores de hist√≥rias que se deslocam de povoado em povoado transmitindo oralmente as sabedorias ancestrais e que s√£o muit√≠ssimo respeitados. Mesmo que um dia toda a gente saiba ler e escrever, a tradi√ß√£o de contar e ouvir hist√≥rias oralmente n√£o desaparecer√°. Estou plenamente convencido disso. A voz tem ritmos e nuances que a escrita nunca poder√° transmitir.

L&L ‚Äď A L√≠ngua Portuguesa √© uma mais-valia no panorama liter√°rio mundial?¬†

TLC ‚Äď Claro que √©, ou melhor, pode vir a ser. Digo isto porque as literaturas angl√≥fonas e franc√≥fonas ainda dominam os mercados liter√°rios. Mas se virmos o potencial de Portugal, Angola, Brasil, Cabo Verde, Mo√ßambique, S. Tom√©, Timor, Guin√© Bissau, Macau, Goa e mais alguns pequenos locais onde se as comunidades se entendem em portugu√™s, sabendo n√≥s da grande quantidade de autores a produzir literatura nestes pa√≠ses, n√£o h√° como n√£o crescer se houver uma estrat√©gia comum, a todos os t√≠tulos desej√°vel, a come√ßar pela tradu√ß√£o das obras de autores da l√≠ngua portuguesa para outras l√≠nguas. Os autores traduzidos s√£o ainda muito poucos.

L&L ‚Äď Quais os seus escritores lus√≥fonos favoritos e porqu√™?

TLC ‚Äď Esta √© uma pergunta dif√≠cil para um leitor compulsivo como eu, porque gosto de muitos e √© complicado escolher um, dois, tr√™s ou vinte. Por isso vou apenas deixar sugest√Ķes do meu gosto pessoal, uma por cada pa√≠s falante em portugu√™s: E√ßa de Queir√≥s (Portugal), Jorge Amado (Brasil), Mia Couto (Mo√ßambique), Jos√© Luandino Vieira (Angola), Francisco Jos√© Tenreiro (S. Tom√©), Lu√≠s Cardoso de Noronha (Timor), Filinto de Barros (Guin√©-Bissau), Germano Almeida (Cabo Verde), Orlando Costa (Goa). Mas h√° tantos, tantos outros, que quase sinto que estou a tra√≠-los... E se j√° √© dif√≠cil escolh√™-los, mais dif√≠cil me √© dizer porque gosto deles. Nem arrisco, porque n√£o quero meter-me na pele de um cr√≠tico liter√°rio.

 

L&L ‚Äď Ao n√≠vel da Literatura, que medidas poder√£o ser implementadas para que o universo lus√≥fono seja uma realidade mais coesa entre escritores de diferentes nacionalidades?

TLC ‚Äď Esse √© um problema que estamos com ele, utilizando o jarg√£o angolano. N√£o h√° uma eficaz circula√ß√£o de obras e de autores entre os pa√≠ses falantes da l√≠ngua portuguesa. Essa circula√ß√£o, reduzid√≠ssima, apenas se faz pelo esfor√ßo pessoal de alguns escritores ou pela for√ßa de algumas editoras mais poderosas. Curiosamente at√© dispomos de uma institui√ß√£o que poderia, ou melhor dizendo, deveria trabalhar mais nesse sentido, o da divulga√ß√£o e circula√ß√£o de obras e autores, implementando protocolos com as editoras, as transportadoras e as gr√°ficas dos pa√≠ses lus√≥fonos: estou a referir-me √† CPLP ‚Äď Comunidade dos Pa√≠ses de L√≠ngua Portuguesa, cuja sede se encontra em Lisboa. Mas, infelizmente, esta institui√ß√£o trata da Cultura como todas as outras institui√ß√Ķes, ou seja, a Cultura √© sempre quem tem o or√ßamento mais baixo e √© sempre na Cultura que se corta primeiro quando h√° que reduzir custos. Tenhamos esperan√ßa que os dirigentes daquela institui√ß√£o venham a reconhecer um dia a import√Ęncia da divulga√ß√£o da L√≠ngua Portuguesa no Mundo.

L&L ‚Äď A Internet e os recentes suportes inform√°ticos contribuem para o refor√ßo e promo√ß√£o do seu trabalho?

TLC ‚Äď Claro que sim. N√£o s√≥ na pesquisa mas tamb√©m na divulga√ß√£o atrav√©s das redes sociais. A Internet e a inform√°tica s√£o util√≠ssimas! At√© custa a acreditar que, com as ferramentas de que dispomos hoje, ainda se consiga escrever com erros...

L&L ‚Äď Qual o maior desafio que j√° enfrentou ou que gostaria de enfrentar em termos profissionais?

TLC ‚Äď No meu caso n√£o posso dizer ‚Äúprofissional‚ÄĚ, porque o n√£o sou, mas o maior desafio que j√° enfrentei foi precisamente a constru√ß√£o do meu √ļltimo trabalho ‚ÄúAutores e Escritores de Angola (1642-2015)‚ÄĚ. Foram dez anos de pesquisas, sendo os √ļltimos cinco de um trabalho muito intenso e absorvente no que respeita √†s horas di√°rias que despendi com ele. Durante todo este tempo fui apenas um copista, um acumulador de dados, e descurei a parte da gin√°stica mental que √© necess√°ria manter para escrever coisas pr√≥prias. Vou agora ter que retomar esse exerc√≠cio, o de ir escrevendo at√© que a escrita flua novamente com naturalidade. Portanto, este √© agora o meu pr√≥ximo desafio: reaprender a escrever coisas da minha lavra.

 

*Entrevista realizada no √Ęmbito do ‚ÄúMunda Lus√≥fono ‚Äď 3¬ļ Encontro Liter√°rio de Montemor-o-Velho‚ÄĚ


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