
Jacinto Lucas Pires nasceu no Porto a 14 de Julho de 1974. Estudou Direito na Universidade Católica de Lisboa e Cinema na New York Film Academy. Foi cronista do diário A Capital. Publicou o seu primeiro livro em 1996 e trabalha como dramaturgo e cineasta. A sua obra encontra-se publicada em português, espanhol, croata e tailandês. Várias peças suas estão traduzidas em francês, espanhol, inglês e norueguês. Alguns dos seus contos foram incluídos em colectâneas na Alemanha, França, Itália, Bulgária, Brasil e Espanha. Tem contos em várias antologias portuguesas, também. Escreveu e realizou duas curtas-metragens: Cinemaamor (1999) ─ Prémio Cine-clube no Festival de Cinema Luso-Brasileiro de Santa Maria da Feira ─ e B.D. (2004). Desenvolveu, ainda, projectos na área da música, seja na composição de letras, seja como intérprete. Em Novembro de 2008, foi o vencedor do Prémio Europa – David Mourão-Ferreira, atribuído pela Universidade de Bari e pelo Instituto Camões. Tem editadas, as obras: “Para averiguar do seu grau de pureza” (contos), “Azul-turquesa” (ficção), “2 filmes e Algo de algodão”(contos), “Abre para cá” (contos), “Do Sol” (romance), “Escrever, falar” (teatro), “Arranha-céus” (teatro), “Universos e frigoríficos” (teatro), “Livro usado – numa viagem ao Japão” (viagens), “Figurantes e outras peças” (teatro), “Perfeitos milagres” (romance), “Silenciador” (teatro), “Assobiar em público” (contos) e “Sagrada família” (teatro).
Livros & Leituras ─ “Para averiguar do seu grau de pureza”, tem como subtítulo “Treze prosas com janelas”. Como é que o leitor pode interpretar estas “janelas”?
Jacinto Lucas Pires ─ Como vem na epígrafe, são cortes feitos nos diamantes “para averiguar do seu grau de pureza”.
L&L ─ É correcta a leitura de que na obra “Azul-turquesa” tenta definir e explicar o amor e a paixão através da observação do quotidiano e daquilo que o rodeia?
JLP ─ Não sei se tenta definir o amor e a paixão... Tenta contar uma história “de fora”, sem entrar na cabeça e no coração das personagens, apenas “vendo” o que fazem, “ouvindo” o que dizem. É um livro sobre aquelas pessoas de carne e osso numa cidade de cenário, e também uma brincadeira na fronteira entre a literatura e o cinema.
L&L ─ No romance “Do Sol” sobressaem uma certa actualidade e urbanidade portuguesas. Que lugar ocupa o real na sua escrita?
JLP ─ Um lugar cada vez mais forte. Quero histórias cheias do ruído deste tempo, esburacadas por passagens para o mundo à nossa volta. Acredito que a literatura não é escape, como alguns dizem, mas precisamente o oposto: um caminho interior para estarmos cada vez mais dentro do mundo, no coração do mundo.
L&L ─ “[…] gente que caminha nos passeios, no alcatrão, sobe escadas, desce escadas, fura edifícios enormes, gente que se move junta mas não combinada, carregando pastas, sacos, carteiras, malas […]”. Este excerto do seu romance expressa movimento e uma sensação muito visual daquilo que pretende contar. Esta característica prende-se com o facto de ser também realizador?
JLP ─ Não exactamente. Mas é verdade que não concebo uma escrita de hoje sem um mínimo de “cinema”, porque o “cinema”, isto é, um certo pensar-por-imagens, de “montar” o mundo à nossa volta, já faz parte das nossas vidas. Fazemos “cinema” todos os dias, sem nos darmos conta, já é quase uma segunda natureza. Quando sonhamos, quando contamos alguma coisa a alguém, quando viajamos de carro, já somos “cinema”.
L&L ─ Podemos entender cada um dos seus contos como uma curta-metragem?
JLP ─ Não. A escrita para cinema e a escrita literária (conto, romance) obedecem a diferentes princípios e regras. O argumento de um filme é, primeiro que tudo, um “dar a ver” silencioso, no qual a sequência de acções e a escala dos planos é que desenrolam a história e revelam as personagens. Ao passo que um conto é, antes de mais, voz, linguagem, a escolha de uma palavra e de outra e de outra.
L&L ─ Ser escritor é interpretar, como no cinema ou no teatro, vários personagens diferentes sem deixar de ser a mesma pessoa?
JLP ─ De alguma forma, sim. Para sermos verdadeiros ao escrever, temos de “ser” aquelas pessoas cujas vidas vamos descobrindo na página. Porque, se não queremos escrever bonecos chapa três, todos iguais uns aos outros, temos de respeitar a voz de cada um, e o ponto de vista original de cada personagem no universo de um conto, de um romance, de uma peça de teatro. A escrita para teatro é, aliás, uma boa escola para isso, ao passar pelo teste de ser levantada “em vida” pelos actores.
L&L ─ Transmite sempre as características da sua personalidade aos personagens dos seus textos (quer sejam literários ou dramáticos) ou sente que, por vezes, são eles que lhes transmitem algumas a si?
JLP ─ Tento sempre partir de longe, de um “outro” que quero conhecer, mas fatalmente esses “outros” acabam por se aproximar de quem os vê. Como se a página fosse uma janela de comboio, que ora é janela, ora espelho.
L&L ─ “Cada personagem é um heterónimo”. Isto é válido apenas na escrita ou também na representação, na medida em que o actor pode, com elementos cénicos e corporais, completar a personagem do papel?
JLP ─ Sim, talvez se aplique também ao trabalho de actor. Gosto muito dos raros actores que conseguem fazer isso: serem, em palco, eles mesmos e as suas personagens, sem nunca caírem demais para um lado ou para o outro.
L&L ─ Declarou, ainda, que não gosta de livros que passem mensagens do tipo sermão. Que tipo de mensagem gosta de encontrar num livro?
JLP ─ Não quero mensagens num livro de ficção. Num ensaio, sim – mensagens no sentido de teses, de ideias fortes. Numa ficção quero interrogações, provocações, um foco ao mesmo tempo original e honesto que aumente a clareza do mundo.
L&L ─ Explique o que quer dizer com “A página não é o templo da literatura”.
JLP ─ ... Referia-me apenas ao perigo que pode ser para um escritor presumir uma grande solenidade em cada palavrinha que usa, rendendo-se assim à célebre intimidação de que a página em branco é capaz. Claro que a escolha de cada vírgula é uma escolha muito séria, e isso é que faz a “literatura” (que é uma palavra “grande” feita de várias “pequenas” escolhas, umas atrás das outras). Mas a página também tem de estar aberta aos fantasmas que desconhecíamos, ao espanto do que vamos vendo ao escrever, aberta à rua e às texturas do tempo à nossa volta.
L&L ─ “Universos e frigoríficos” remete para a contemporaneidade urbana, com as personagens a tentarem despojar-se da memória, desejando-se livres. Porquê a necessidade dessa liberdade?
JLP ─ Curiosa, essa leitura. Mas, no caso do protagonista, é até o inverso que se passa: alguém que, por não ter memória, tem de construir do zero a liberdade. De qualquer modo, e em geral, talvez seja verdade que algumas personagens das minhas histórias tendem a viver “contra” um portuguesíssimo peso da memória. Como se viver neste país fosse uma permanente “revolução” contra a carga paralisante do passado, de um vago passado que, muitas vezes, é mais “desculpa” que “pretexto”.
L&L ─ Na obra “Sagrada família” evidenciam-se as questões da religião e da política. Tenta analisar as ligações entre o poder e os afectos. Este texto pode ser visto como uma crítica implícita à sociedade em que vivemos?
JLP ─ Cada um olhará para ela como quiser. Mas, sim, vejo-a como uma interpelação, uma provocação. Como quem pergunta: o quê, ainda se pode falar de “religião” ou “política” sem a sala se desmanchar a rir? E, se não, isso não será uma tragédia, uma tragédia real, individual e colectiva, que nos devia fazer chorar?
L&L ─ Em que sentido, a nova geração de escritores constitui um novo paradigma?
JLP ─ Em nenhum sentido!
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