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A caminho de Belém

OPINIÃO - Colaboradores

Sempre senti um enorme fascínio pelos romances tradicionais ou "rimances", como são igualmente designados por serem em versos rimados. E embora vários e consagrados autores nacionais, como Garrett, Teófilo Braga, Carolina Michäelis de Vasconcelos, Lindley Cintra e David Pinto Correia, tenham, ao longo dos tempos, procurado uma definição para estas composições literárias tão variadas, inclusive no que concerne à sua temática (a guerra, o mar, o amor, o sentimento religioso, a luta da virtude com o vício, o maravilhoso lendário, etc...), nenhum deles logrou alcançar uma definição perdurável.

Neste contexto e embora convictos de que a nossa investida não passará também de uma mera tentativa, ousamos definir os rimances como «breves poemas septissilábicos, de carácter lírico e ou épico, transmitidos e reelaborados por tradição oral através do canto e da voz de jograis ou trovadores, normalmente acompanhados à harpa ou à viola».

Como a maior parte dos rimances, das xácaras (forma dialogada) e dos solaus (de pendor triste) chegaram até nós por tradição oral, ao longo de muitas gerações, não raro se encontram diferentes versões de norte a sul de Portugal Continental, bem como nos Açores e na Madeira.

Teófilo Braga (a quem o Romanceiro Português, depois de Almeida Garrett, muito ficou a dever) considerou como veículo de difusão dos romances da Idade Média «os jograis, que andavam de terra em terra, os cruzados, os peregrinos, os romeiros e os Gallo-Frankos que se estabeleceram em território português ao sul».

Mesmo aqueles rimances que pelos seus temas ou aspectos linguísticos denotam ser de origem estrangeira, castelhanos, normandos ou provençais, (nem sempre fácil de distinguir na época do bilinguismo nas manifestações literárias portuguesas), foram perfilhados pelo povo português que lhes imprimiu um cunho próprio: forma particular de sentir e dizer as mesmas coisas. Às vezes, as transformações eram substanciais.

Cantores enamorados não hesitavam em acrescentar algo da sua própria vivência. Outros, de fraca memória, esqueciam-se de alguns versos, outros ainda omitiam voluntariamente certas palavras que lhes desagradava pronunciar.

Cedo experimentei a invocada atracção por essa literatura primitiva de carácter popular, porquanto brotou do engenho anónimo do povo desde a Idade Média até ao Séc. XVIII. Daí que tenha, até hoje, retido na memória três rimances que avidamente li nos manuais escolares: "A Nau Catrineta", "A Donzela que vai à Guerra" e "O Lavrador da Arada".

Em decorrência, resolvi transmitir um rimance que é muito pouco conhecido, porém faz parte integrante da Quadra Natalícia:

A Caminho de Belém

Pela noite de Natal,

noite de tanta alegria,

caminhando vai José

caminhando vai Maria.

Ambos os dois p'ra Belém,

mais de noite que de dia

e chegaram a Belém,

já toda a gente dormia.

- Porteiro, abri a porta,

porteiro, da portaria.

A porta não quis abrir

a gente que não conhecia.

- Dilatem-se aí, senhores,

até que rompa o dia,

comam dessa erva verde,

bebam nessa água fria.

S. José foi pelo lume,

que ele temor lhe fazia.

Quando José veio co'o lume,

já a Virgem 'stava parida.

Tal era a sua pobreza

que de pano se temia!

Deitou as mãos à cabeça,

tirou um véu que trazia.

E em três pedaços o fez

e Jesus Cristo envolvia.

Jesus Cristo vai andando,

sua mãe chorando vai.

- Porque choras, minha mãe,

porque choras, madre mia?

Se choras pelos meus panos,

para mim panos havia.

Aqui tens este corpo santo,

que na cruz o pregarIa.

E veio um anjo do Céu,

rezando uma Avé-maria.

Perguntou o Padre Eterno:

como fica lá a parida?

- A parida ficou boa,

numa serja recolhida.

- Uma serja não é nada

para o que ela merecia.

Lá mandaram fazer um mosteiro

todo de pedra ladrilha.

S. João a arreguingá-la,

S. Pedra a retorná-la.

Antre almenda e almenda,

três mil anjos aí estavam.

Como aludimos, encontram-se várias versões do mesmo romance. Esta é uma versão do Minho e das mais completas.

 

 

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