
O que de melhor e mais original Saramago criou foi a sua voz narrativa. Saramago inventou uma cultura verbal para um olhar escrutinador, radical, judicioso. Uma fala, ao mesmo tempo popular e modernista, que desconstrói e revela.
Parabólica como a voz dos deuses, é o ícone do seu deus interior, ou antes, da sua alma, esta fala reveladora do humano na sua miséria e no seu esplendor. Larga e densa, deixa que nela se enredem outras vozes como se a linearidade da frase fosse texto.
Seguro da aliança inquebrável entre pensamento e palavras, o seu olhar ultrapassa a fronteira do verosímil e ousa derramar criações tão prodigiosas como terá sido o mundo ao primeiro olhar de deus e tão irónicas como só o poderá ter sido ao seu segundo olhar.
Uma das suas criações verdadeiramente pasmosa e portentosamente irónica é a morte.
Em cima de uma infinidade de versões sobre o mistério da morte, Saramago planta despudoradamente a sua personagem que é, afinal, talvez o que de nós não queiramos ver, queiramos esquecer ou o que de nós tememos ser: verdadeiramente humanos. Inventa a morte como um conhece-te a ti próprio, como uma viagem a Delfos para nos deixarmos tentar pelas verdades com que nos enganamos.
Inventa-a e dá-lhe um papel, um guião minucioso que ela está disposta a cumprir violentamente. Todavia, depois de um longo arrasto e arresto das mil e uma escaramuças que a suspensão da morte desencadeia com toda a espécie de necessidades encobridoras das linhas puras e duras da vida, eis que as palavras se lembram de inventar um violoncelista.
«Com as palavras todo o cuidado é pouco, mudam de opinião como as pessoas».
E é então que a violência da morte se dissolve.
Só no Violoncelista se dissolve a violência da morte.
Saramago nunca nos revela a razão da incapacidade ontológica do Violoncelista para aceitar a carta violeta. Mas suponho que sabemos. Supõe que sabemos.
A morte não tem antónimo, porque a vida é o seu caminho, mas tem contraponto.
Um caminho é só um caminho e, sobre o que nele poderá ir, há uma infinidade de escolhas.
Algumas sobrarão da morte.
Como uma rasteira à violência da vida, um ponto de fuga, uma história paralela, a Música, a Arte, o amor da Arte, o amor do artista, obrigam a morte a enfrentar o desconhecido.
Perante uma violência radicalmente diferente da sua, a morte suspende-se.
O testemunho da Arte é uma violência para a cegueira do algoz.