
Augusto Carlos é um exemplo vivo de que a vida pode ser reaprendida aos 50 anos. Sentir e viver são verbos que expressam a descoberta que Augusto fez depois de ter passado um longo período dedicado à engenharia: a escrita. Nascido a 1995, em Gaza, Moçambique, é autores de diversos livros, fazendo também já o seu nome parte do Plano Nacional de Leitura. As suas obras são o reflexo de um trabalho interior que reflecte a sua personalidade e todo um trabalho que pretende conquistar leitores dos 8 aos 80. À Livros & Leituras cedeu uma entrevista repleta de boa disposição e sensibilidade.
Livros & Leituras – Foi aos 50 anos que realizou o seu grande sonho: escrever. Considera que foi a sua mente inquieta que o levou a procurar a sua verdadeira essência?
Augusto Carlos – A minha mente inquieta é consequência de uma infinita curiosidade, desde muito novo, em descodificar como a Natureza interage com o Homem (que dela é parte integrante) e com os outros seres. Por outras palavras, descobrir um sentido para a vida.
L&L – Alguma vez conseguiu algum ponto de equilíbrio entre a engenharia, a sua profissão inicial, e a escrita?
AC – A engenharia surgiu na minha vida como uma tábua de salvação. Compreendi, mais tarde, que ela poderia ser igualmente criativa, dependendo do modo como a encarasse. Nesse sentido, a engenharia (coadjuvada pela filosofia) foi para mim um autêntico laboratório de ensaio da vida. Ela permitiu-me fazer as experiências e colher os resultados que viriam, aos 50 anos, plasmar-se na essência daquilo que sou. Desse modo, a engenharia (aliada a outros componentes da vida) foi o aluvião que me permitiu lobrigar pepitas de ouro escondidas na areia.
L&L – Conte-nos como se processa o seu acto criativo. Escreve todos os dias? Directamente no computador? Em silêncio absoluto?
AC – Quando se fazem perguntas, as respostas chegam invariavelmente. Ao compreender algo de que andava à procura, sinto uma transformação no meu ser, sinto uma necessidade absoluta de compartilhar a descoberta. Esse é o motor que, aliado ao gosto pela escrita que nutro desde tenra idade, me impulsiona para a criação. Escrevo praticamente todos os dias, directamente no computador e em silêncio absoluto. Gosto de escrever entre as 4 e as 9 horas da manhã.
L&L – Moçambique, o reflexo das suas raízes, é, em vários dos seus livros, uma fonte de inspiração. Explique-nos o motivo.
AC – A infância marca. Moçambique foi o país da minha infância. Foi em Moçambique que despertei enquanto homem, que compreendi que, independentemente da cor de cada um, todo o ser humano deseja ser feliz. Nasci, vivi até aos 25 anos e visito sempre que posso Moçambique. A cultura do Sul de Moçambique corre-me nas veias. O respeito pelos mais velhos, viver o momento, o sorriso (mesmo quando o coração chora com fome de quase tudo), não poderiam deixar de marcar um ser que tenta compreender o mundo.
L&L – Tem marcado presença em diversas sessões de divulgação em escolas. Sente que os jovens estão motivados para a leitura e que o sistema de ensino português trabalha eficazmente nesse sentido?
AC – Sinto uma grande percentagem de jovens motivados para a leitura e, sem dúvida, as bibliotecas escolares têm contribuído para isso. Penso, no entanto, que os hábitos de leitura se cimentam igualmente no seio da família. Pais que desenvolveram o hábito de ler transmitem-no aos filhos de forma natural.
L&L – O Plano Nacional de Leitura permite que as obras e os autores portugueses tenham um destaque significativo na vida de muitas crianças. Como encara toda a acção do PNL?
AC – Sem dúvida que o PNL tem contribuído, a meu ver, para divulgar obras e autores portugueses. Contudo, mais uma vez, na minha humilde opinião e desconhecendo a razão, ficam de fora do PNL obras muito interessantes.
L&L – A Nova Vaga Editora, que edita os seus livros, estabeleceu um protocolo com a Associação Sol. Na compra de algumas das suas obras os leitores estão a contribuir com 0,50€ para causas maiores. Sente que este é também o papel de um escritor?
AC – Sem dúvida. Na minha óptica, o escritor não poderá alhear-se dos problemas da sociedade onde se insere. Ele deverá contribuir para um incremento da consciência geral e não para o «adormecimento».
L&L – Nunca sentiu necessidade de, tal como muitos escritores, ter um blogue pessoal e actualizá-lo frequentemente com textos seus?
AC – Essa é uma questão pertinente que também já ponderei. No entanto, continuo a sentir uma certa resistência em comprometer-me com actualizações que me consumiriam tempo e paciência. Aprecio a liberdade de criar sem constrangimentos de tempo aos outros.
L&L – De todos os seus livros, qual o mais introspectivo e aquele que, a seu ver, mais pode “tocar” o leitor?
AC – Cada um dos meus livros possui um núcleo introspectivo, para usar as suas palavras, em torno do qual gira a estória. Nesse sentido, cada um dos livros aborda questões muito concretas. Contudo, tendo de escolher um, talvez escolhesse "O Cântico dos Melros".
L&L – “O Caroço da Manga” debruça-se sobre o amor. Um tema de todos os tempos. É-lhe simples exprimir este sentimento no papel?
AC – O Amor, como sentimento universal, é para mim algo de transcendente. É a razão de ser da humanidade. É algo que a humanidade precisa urgentemente de descobrir em todas as suas vertentes, para que seja possível viver-se na Terra. Enquanto sentimento mais nobre, é com prazer que o exprimo na vida quotidiana e no papel.
L&L – “Vovô Tsongonhana” é, a meu ver, uma das obras mais doces que escreveu. Nunca pensou reescreve-la para crianças, ou seja, editá-la num livro de literatura para a infância?
AC – Trata-se, sem dúvida, de uma proposta interessante. Talvez um dia, quando serenar a minha busca de respostas, possa voltar aos livros que escrevi.
L&L – Fale-nos dos seus novos projectos. Das iniciativas que o absorvem neste momento.
AC – Tenho dois livros concluídos para propor à Nova Vaga: um, composto por três estórias, que se chamará "A Dança das Línguas de Fogo". A estória que dá título ao livro é passada no sul do Quénia, mais concretamente no Parque Nacional Amboseli, onde os animais lutam com falta de água, à medida que as neves ditas perpétuas do Quelimanjaro se resumem a dois quilómetros quadrados de um universo anterior de doze! O outro livro é um romance histórico passado nos finais do século XIX, quando se definiam as fronteiras de Moçambique. Actualmente, encontro-me a escrever "O Fórum das Cegonhas", estória passada na Comporta, próximo de Tróia…
L&L – Proponho-lhe um desafio! Escolha dois escritores portugueses que reúnam as seguintes características: criatividade, expressividade, realidade, audácia, sentimentalismo e ambivalência.
AC – Trata-se, sem dúvida, de um desafio difícil. Podendo apenas escolher dois escritores dum naipe que me acena, a minha escolha recai em Rui Zink e Miguel Torga, isto para escolher um do mundo dos vivos e outro do mundo dos que nunca morrerão.
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