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O lugar do professor na ecologia escolar

L&L EDUCAÇÃO - Artigos Educação

Escolho olhar a escola como um lugar, um oikos, constituído por uma rede de habitantes, de ocupações e de relações, cuja figura de necessidade é a educação/ensino. A selectividade implicada neste olhar colhe uma das dimensões da identidade escolar: um mundo que, por ser configurado por uma necessidade especificamente definida, a de educar/ensinar, se separa conceptualmente de tudo o mais que, à sua volta, é mundo e tem, assim, a sua própria lógica enquanto lugar habitado, a sua própria ecologia.

A configuração do mundo escolar não é imune ao processo de transformação identitária da escola, vivido na tensão constante entre formalismo/natureza, abertura/fechamento, herança/mudança, na tendência para a abertura e a naturalidade, a tendência de desescolarização da escola na procura da harmonização com o mundo. Um dos momentos com importância significativa nesta tendência de abertura foi o da proclamação da «mudança» como um bem em si, aquando da chamada reforma Roberto Carneiro. A edição da ideia de mudança como palavra de ordem foi a proposta feita à escola de uma categoria vazia como ideal para o seu comportamento. Esta ideia veio submeter um sistema de vontades ao preceito de estarem disponíveis para diferenças, cujo conteúdo, por definição, só poderiam estar em condições de receber, e não de para ele contribuir. Assim, este episódio, à época designado como educar para a mudança, um dos slogans condutores desta reforma, revestiu o modo de sinal-guia para os professores, abrindo a sua identidade consolidada a prescrições, legais ou paralegais, determinadas em operar a experiência da mudança como um bem em si. Instituiu a experiência da mudança em acto educativo, depreciando a herança, a influência do construído no tempo. Esta depreciação retirou ao acto educativo escolar alguns dos seus parâmetros de validade e possibilitou-lhe uma abrangência pouco normalizada.

Congruente com esta abrangência, novo episódio, o da defesa e da prática da chamada «educação participada», assente no conceito de comunidade educativa vem integrar este processo de mudança identitária da escola. Este conceito de comunidade educativa fundamenta a dissolução do professor numa comunidade de interessados na acção educativa, fazendo-o perder o lugar qualitativamente forte do saber, para lhe atribuir o lugar de estar com e estar entre. O professor torna-se, assim, um recurso entre recursos, agente educativo entre outros agentes educativos. Estas novas investiduras em competências de educação escolar acontecem em simultâneo com uma espécie de hiper-responsabilização daqueles que, sobretudo por proximidade, local ou relacional, interagem com o mundo escolar e, por isso, ganham estatuto de pertença à comunidade educativa. Assim se desarticulou a aliança nuclear professor/aluno, como lugar singular da educação escolar. Destitui-se a relação: «esse imprevisível da relação pelo qual algo não é idêntico, mas eterno […] isso que define uma relação, o não estar determinada de fora, mas valer como tal, na sua complexidade». [LOPES, Silvina Rodrigues, Literatura, Defesa do Atrito, Edições Vendaval, s. l., 2003, pág. 19.] Subtrai-se da relação humana professor/aluno a potencialidade do seu carácter imprevisível e o seu horizonte de transcendência, dando-lhe um carácter finito de prestação social, cujos parâmetros passam a ser os de um serviço e cuja utopia é a da representação positiva daqueles a quem serve: a educação escolar procura a satisfação dos seus clientes. 

O foco identitário da escola: move-se do encontro/aliança entre alguém que quer aprender e alguém que sabe ensinar — posição de forte centralidade e singularidade — acabando por se dispersar em diversidades que se equivalem. A vontade de saber e a vontade de dar a saber, núcleo da identidade escolar personalizado na relação entre um professor e um aluno, deixa de ser o ponto de apoio fundamental sobre que se ergue a construção do mundo escolar. A escola já não se estrutura numa lógica de expansão consequente dessa centralidade, passando a desenhar-se como organograma. Diversa, plural, geográfica em vez de hierárquica, a escola desdobra-se numa multiplicidade de recursos equivalentes e agentes comutáveis, por onde se transita. Nesta ecologia, a criança, o jovem, não são educandos interpelados pela determinação de um educador, mas habitantes transitórios de um mundo que lhes permite uma grande variedade de experimentações, apaziguadoras do pathos do confronto com uma personalidade singular, imbuída de um forte sentido educativo: o professor. A educação participada pelos diversos constituintes da comunidade educativa, desejosa de agradar, requer uma escola prestadora de serviços. A prossecução prioritária deste tipo de finalidades conduz à redução da importância do que a possa retardar: a aprendizagem torna-se mais sensitiva do que intelectiva; a materialidade eficaz e evidente dos recursos alcança maior poder didáctico, ganhando relevo sobre o demorado esforço analítico para construir uma inteligibilidade. Este modo de agir pela via dos sentidos facilita a inserção da criança e do jovem na escola, nivelando a medida escolar pelas suas mais aparentes necessidades imediatas e dispensando-os do esforço da superação. Trata-se de uma escola que prefere não produzir atrito nem estranheza e reivindica a realização cabal e feliz da criança. Ao fazê-lo, concebe-se como se ela própria fosse o fim para o qual trabalha, como coisa que se cumpre no imediato e, por isso, logo gera satisfação, subtraindo à educação o desconforto de se fazer como um processo de satisfação diferida. A deslocação do professor, nesta nova ecologia escolar, faz parte de outro episódio o da facilitação, ou como frequentemente insistem em dizer o do «facilitismo». A dinâmica de facilitação, instaurada nas práticas escolares, é condição de possibilidade da deslocação do professor do lugar do mestre para o do professor/agente educativo entre outros agentes educativos; não deriva de princípios pedagógicos cientificamente sustentados e a sua natureza pragmática contribui para o reforço da sua consolidação.

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