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ENTREVISTAS - Escritores

 

Daniel Sampaio nasceu em 1946 em Lisboa. Psiquiatra conceituado e Terapeuta Familiar, conjuga diversas actividades em simultâneo, porém, todas elas repletas de perícia e grande profissionalismo. Com uma grande diversidade de livros editados, todos com grande sucesso de vendas, tem-se dedicado ao estudo dos problemas dos jovens e das suas famílias através de trabalhos de investigação na área da psiquiatria e da adolescência.

 

Livros & Leituras – Médico, professor e escritor são profissões muito exigentes e desgastantes do ponto de vista emocional. Como consegue encadear todas estas vertentes com um equilíbrio tão racional?

Daniel Sampaio – Procuro organizar-me, definindo bem os espaços e tempos para cada actividade. De manhã, dedico-me ao ensino da Psiquiatria e Saúde Mental na Faculdade de Medicina de Lisboa e faço consultas no Hospital de Santa Maria; à tarde escrevo ou tenho consultas privadas (só duas vezes por semana) e no fim de semana volto a escrever e estou com a família e amigos. 

L&L – Escreve, essencialmente, sobre adolescentes, família e escola. Em 1978 escreveu “Drogas, Pais e Filhos” e, desde então, a sociedade tem mudado de forma vertiginosa. Quais as alterações mais significativas que encontra na maneira de estar, de ser e de agir dos jovens?

DS – Os jovens de hoje são mais criativos, socializam-se pela internet e divertem-se de outra maneira. Diria que a sua criatividade aumentou, mas a possibilidade de participação não.

L&L – O livro “Voltei à Escola” pode ser entendido e observado como uma necessidade constante de adaptação, por parte do ser humano, às mutações da sociedade?

DS – Não pretende ir tão longe. É apenas o relato de uma ida à escola e uma reflexão sobre o espaço escolar. 

L&L – “Inventam-se Novos Pais”, publicado em 1994, deixa presente a necessidade dos progenitores ouvirem os filhos adolescentes. Considera que há uma barreira substancial entre as atitudes dos pais e a forma de estar dos mais novos?

DS – Sou a favor do fosso intergeracional, pais e filhos não são iguais. Mas esse livro, apesar do êxito que teve (80.000exemplares), está desactualizado. Pais e filhos de hoje estão mais próximos, mas precisam perceber que a adolescência saudável implica que as duas gerações concordem na necessidade de autonomia e controlo dos jovens.

L&L – Uma questão que, quase com toda a certeza, os nossos leitores gostariam de ler nesta entrevista prende-se com o facto de se dizer muitas vezes que os pais são responsáveis pela conduta dos seus filhos. Como encara este assunto?

DS – Não concordo. No meu livro “Lavrar o Mar” defendo a responsabilização dos mais novos pelo seu comportamento, é a única forma de progredirmos todos.  

L&L – No seu último livro, “Porque Sim”, refere que “os pais com maturidade sabem que os filhos não lhes pertencem”. Considera que os progenitores exageram na forma como protegem os seus filhos – por exemplo no andar sozinhos na rua?

DS – Sem dúvida. Tenho pena que tantas crianças não possam brincar na rua, mas compreendo os medos dos pais. Recomendo que os jovens andem em grupo e que não se fechem em casa.

L&L – “Vivemos Livres numa Prisão”, uma das suas obras publicada em 1998, é um título muito profundo e, simultaneamente, objectivo do ponto de vista psicológico. Qual a principal mensagem daqui a retirar?

DS – É um título metafórico, queria falar das prisões interiores, muito evidentes nas pessoas com anorexia nervosa (tema da obra). 

L&L – O livro “Vagabundo de Nós” foi adaptado ao teatro e foi visto por cerca de 6000 pessoas. Considera que o tema em causa – a homossexualidade – esteve intimamente relacionado com este sucesso?

DS – Houve muitas razões para esse sucesso: sem dúvida a coragem de debater o tema, há seis anos não era fácil, mas também a qualidade dos actores -Márcia Breia e Nuno Lopes, de quem fiquei amigo - e a intimidade da narrativa.

L&L – O bullying tem estado na “ordem do dia” nos mais diversos contextos. Não lhe parece que se está a cair no exagero e, consequentemente, a banalizar um assunto tão importante?

DS – Sim, sobretudo porque não se apontam medidas. O bullying pode ser minorado com trabalho cooperativo na escola, envolvendo alunos, professores, pais e auxiliares de acção educativa. 

L&L – Referiu publicamente que “A pessoa nunca se suicida só porque é vítima de bullying”. Parece-lhe, então, que todo o restante contexto social pode ter um peso muito maior neste tipo de decisões?

DS – O que eu quis dizer - mais uma vez, porque afirmo o mesmo em vários textos - é que o suicídio é multideterminado, isto é, tem múltiplas causas. Não pode, por isso, ser atribuído só ao bullying, decorre de um conjunto grande de dificuldades pessoais. Isto não quer dizer que se deva menosprezar os comportamentos violentos na escola.

L&L – Sei que a sua avó o influenciou de uma forma muito positiva. Foi também nesta perspectiva que surgiu o livro “A Razão dos Avós”, num olhar de continuidade da noção de família?

DS – Sim, esse livro pretende falar da importância das gerações familiares ao longo dos tempos. Surpreendeu-me o interesse dos leitores!

 

 

 

 

 

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