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Carta de uma professora aos seus alunos (I)

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Olho-vos e o meu olhar torna-se geográfico, fixa-se no panorama que esta sala em que estamos me dá a ver. Na sala de aula, como num cenário, embora tenham ido ficando — talvez por esquecimento — algumas marcas da sua antiga aparência, muita coisa mudou. Esta sala, que atentamente fixo, é a face visível de uma outra mudança maior: a dos actores e cenas que aí se representam. Na Escola, a degradação da mobília não é mera degradação da mobília: enquanto sossegadamente escreveis, estou aqui sentada a uma mesa, pobre móvel, um tampo e quatro pernas, esquálido, sem qualquer personalidade, sem identidade, prestável para tudo, que em nada diferente seria, se fosse, por exemplo, uma vulgar mesa de comer.

Estou aqui, na vossa frente, sentada a uma mesa esvaziada de qualquer alma docente. É verdade, meus alunos, que vos venho ensinando que os objectos têm alma e, no entanto, vedes que dificilmente podereis encontrar a alma dos objectos escolares que usais e de que estais rodeados. Mas que interessa que vos fale disto? Porque vos falo eu disto? Apenas por uma razão: porque se perdeu uma alma velha e não se encontrou uma alma nova e, neste desencontro de almas, se perdeu a alma da Escola, a alma que, na Escola, tudo haveria de habitar, mesmo pobres coisas como mesas e cadeiras. Vós sabeis disto, de almas… Também vós sentis que sentar um professor a uma mesa destas é a materialidade metafórica de uma outra mentira mais vasta. E mesmo vós! Olho-vos daqui e… Ora tentai ver-vos a vós mesmos. Olhai e vede onde e como estais acomodados. Olhai-vos a vós mesmos e à vossa volta… Eu sei que podereis, até, sorrir, porque sois capazes de achar alguma graça adolescente ao arrastar das vossas mochilas por este chão surrado e feio, ao varrer deste chão mascarrado e poeirento com os vossos casacos. Esse poder fácil, com que o vosso corpo desalinha as frágeis mesas a que estais sentados, quando vos pondes de pé ou vos sentais desajeitadamente, poderá, até, agradar-vos. Poderá, até, parecer-vos, isso, uma oportunidade para alguma pobre rebeldia.

Daqui, vejo o à-vontade com que espalhais os vossos livros e cadernos até ao limite abismal do tampo da mesa, desafiando ou forçando mesmo quedas iminentes, porque o espaço é insuficiente, absurdamente insuficiente para o trabalho de dois de vós. Puseram-vos a repartir esse espaço, como se vos quisessem habituar, desde esta coisa banal da mesa de trabalho, à aceitação da irracionalidade. Algum ‘sábio’, de alguma ‘ciência’ que vos implica, pensou (e temeu) que, mesmo respirando o ar da mesma sala (pequena) que outros mais de vinte como vós respiram, haveríeis de vos sentir sós, isolados, se vos fosse concedido o domínio e o uso exclusivo de uma mesa inteira. Ponderou e, com esta sua ponderação, fez triunfar a salvaguarda dos ‘afectos’ alimentados pela proximidade de um colega, depreciando a adequação do espaço à efectivação confortável do trabalho. Sabeis… pois claro que sabeis que evitam dizer-vos a palavra trabalho, perante a qual sois exímios a construir esgares de náusea que os assustam. Talvez tenha sido alguém mais ecónomo que pedagogo que, num lampejo, viu a possibilidade de dividir por dois a despesa com o mobiliário escolar. É verdade que a divisão do tampo por dois nenhuma poupança traria, mas sempre eram mais quatro pernas, mais umas tabuinhas para uma prateleirinha por baixo! Nada, não! Que ideias tão felizes que eles têm, meus alunos! E cheias de razão! Tão aparentemente cheias de razão! Pois não é verdade que genericamente preferis a companhia ao isolamento? Com algumas excepções, é certo.

Por causa destas felicíssimas ideias, estou eu, agora, a ver-vos aí, à minha frente, contrafeitos, acanhados, tortos a escrever, com dossiês e cadernos e livros empilhados, tirando e pondo, abrindo e fechando, sobrepondo, até ao ponto desesperado de decidirdes pousar alguns deles no chão. No chão! Neste mascarrado e poeirento chão. Mas felizes! Felizes com o calor e o aroma do colega tão próximo; e o sussurro das vozes tão próximas; e a facilidade das coisas trocadas. E, assim, triunfa a felicidade que é coisa superior ao trabalho! Quando vos digo que os lugares onde se aprende devem ser limpos, dignos e, até, belos, olhais-me perplexos como se estivesse perdendo palavras com coisas sem importância. É que, para vós, meus alunos, o que se tornou verdadeiramente importante, o que vos fazem sentir como verdadeiramente importante e vos agrada, é tão-só a nota que tirais: em sala limpa ou sala suja; em mesa espaçosa ou acanhada; com lugar para as vossas coisas ou com as vossas coisas no chão, a outra coisa, a nota, “é que é linda”. Não tendes olhos senão para ela, cegos que estais para estes ‘pormenores’ de que vos falo, surpreendidos pelas minhas observações que, por um breve momento apenas, talvez vos pareçam justas. Estais adaptados. Ou, então, seriamente convencidos de que: — A Escola é isto. —, aceitando-a como coisa de muito pouco valor. Para vós, a Escola é isto. Escola é este caravançarai desarrumado e pouco limpo de que, a outro propósito, falava Garrett num livro que a Escola já vos não dá a ler.

Outros, tidos também como ‘sábios’, tidos como pedagogicamente competentes, decretaram-vos incapazes de ler alguns livros importantes. Prescreveram-vos uma dieta de leitura miserável. Prepararam-vos ementas aguadas onde bóiam dizeres massificados que não vos abrem nem vos refinam o apetite. Ah, meus alunos, quase vos peço desculpa (embora culpa não tenha) por ficardes sem provar iguarias literárias que outros meus alunos, em eras anteriores, saborearam, primeiro com estranheza e resistência e depois com gosto e alguns até com gula. Quando, às vezes, arrisco infringir a prescrição programática e vos leio ou refiro algum desses preciosos livros, pareceis ter pena da vossa ignorância e eu penso que mesmo só isso, só essa pena, talvez vos deixe uma lembrança para desejos futuros. Olho-vos e penso com amargura que, graças a esta evolução tão pouco natural da vossa espécie, essa bela espécie de ser-aluno, havereis de chegar à incapacidade de ir além da medida de um slogan. No estado de penúria literária a que vos fizeram chegar, certo que uma dose da grandeza de umas Viagens na Minha Terra vos seria mortal! Senão para vós, que pareceis arranjar sempre maneira de tudo contornar com vossos truques de plantas vivazes, pelo menos para o belíssimo livro de Garrett.

Olho-vos e aperta-se-me o coração de pensar como vos foram retirando a capacidade de ler o difícil e o complexo.


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