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ENTREVISTAS - Escritores

 

 

“Nascido no capicuesco Bloomsday de 1961, em Lisboa, professor na FCSH-UNL, autor de uma porrada de livros.” http://ruizink.com/

  

Livros & Leituras – “Anibaleitor” é o título do seu livro mais recente. Disse, numa entrevista, que, nesta obra, o “grande trabalho foi misturar o melhor de dois mundos: o melhor da ficção clara e límpida com o melhor de uma aula bem dada”. Quais são os destinatários desta “aula”?

Rui Zink – Toda a gente que ainda não tenha medo de pegar num livro que não tenha sido passado pela compressora antes, espero. Os meus livros não são tanto destinados a um “público-alvo” como, às vezes, não aconselháveis a certos públicos. Este pode perfeitamente ser lido a partir dos 15 anos, sem medo. Como risquei os palavrões, pode ser também lido por professores e tias idosas.

L&L – Que castigo daria aos “cábulas”?

RZ – Sentava-os numa sala de estar dum consultório, durante um par de horas, sem mais nada com que se entreterem senão uma mão-cheia de livros sobre a mesinha. E ficava do outro lado do espelho a ver o que acontecia.

L&L – Em jeito sarcástico e divertido, o “Anibaleitor” conta uma aventura didática no mundo dos livros e da leitura. Levar as pessoas a lerem é uma “cruzada”?

RZ – Cruzes credo! Nem cruzada nem catequese, quando muito um convite para um cruzeiro. Ler torna-nos melhores, disso não tenho dúvida. O que não quer dizer que nos torne “bons”. Haverá sempre brutos, mas acho que um racista que leia, por exemplo, “A cor púrpura”, pode pensar duas vezes na sua tara. Ler implica empatia com as personagens, compreender os motivos dos outros, as suas paixões, as suas formas de estar na vida. Informa-nos, sem gritarias, que somos todos diferentes mas parte de um mesmo molde.

L&L – Diria que os livros são um território sagrado na era da Informação?

RZ – Bom, actualmente o templo está um bocado ocupado pelos vendilhões… Mas alguns livros (muitos, na verdade) ainda são um espaço de resistência à ditadura do esquecimento. Temos de viver o presente, mas viver só no presente é redutor, empobrecedor, estupidificante. A leitura, pela sua lentidão, recato, recusa do imediato, é um bom antídoto contra a voracidade do imediato. Ao contrário dos bois e das vaquinhas, nós vivemos em simultâneo no presente, passado e futuro, somos animais imaginativos. Mas andam a querer transformar-nos em ruminantes…

L&L – A irreverência, a ironia e o humor podem ser uma forma de arte, ou são apenas uma maneira de estar perante a vida e perante os outros?

RZ – Nem uma coisa nem outra, são instrumentos, parte do trabalho de escrever e da arte de viver. Sem elas tanto a literatura como a vida ficam mais pobres. Mas não são um fim em si, apenas componentes para melhor afinar o motor. Ajudam a ser-se livre, e aconselho a toda a gente o seu exercício moderado.

L&L – Trabalha e colabora com vários jornais e revistas. Em termos de isenção e independência, existe, hoje, maior ousadia por parte da comunicação social em geral, ou acha que, pelo contrário, os media estão mais interdependentes do poder económico e político?

RZ – Os principais media estão hoje mais dependentes do poder económico. Há duas semanas o empresário Pais do Amaral teve uma tirada de grande sinceridade: “É o accionista que decide a linha editorial.” Isto era sabido, mas ainda não tinha sido dito com esta candura, porque quanto mais invisível for o controlo das “linhas editoriais” mais eficaz ele é. Em contrapartida, a Internet tornou-se uma forma de resistência, um maravilhoso mundo selvagem onde cada um pode tornar público imediatamente o que pensa. Só que, obviamente, com menos poder.

L&L – O medo de, muitas vezes, dizer abertamente o que se pensa é uma consequência da vida em sociedade. Acha que há censura ou autocensura por parte de alguns escritores?

RZ – Acho que há autocensura provocada por vários factores. Indico alguns: o desejo de sucesso leva a perseguir o gosto dos leitores, o medo de ser censurado (isto é, o jornal não fazer a criticazinha) leva-nos a lamber as botas aos difusores, as mudanças no modelo editorial podem mesmo levar a mudar estilo e temáticas. Este assunto é extremamente interessante, mas duvido que haja muito interesse em discuti-lo. A verdade é que os escritores não são diferentes das restantes pessoas: uma boa fatia não prima pela coragem nem pela independência.

L&L – “O escritor que gosto de ser e os que gosto de ler são os que colocam o leitor desconfortável”. Pode explicar esta sua afirmação? 

RZ – Para dizer o que nós pensamos e dizemos já existem as telenovelas, formato conformista por excelência, mesmo quando os seus argumentistas são excelentes profissionais (e até capazes de, em livro, fazerem diferente). Um livro, como não depende da publicidade nem de rios de dinheiro, pode ir noutra direcção: a de levar o leitor “por mares nunca dantes navegados”. E é claro que à primeira uma pessoa estranha. É mais confortável ir ao meu café de bairro, onde vou todos os dias e já sei que sou bem tratado e comento o futebol com o sr. Abreu. Mas às vezes vale a pena ir até uma cidade desconhecida, onde temos dificuldade em perceber o que dizem, não reconhecemos as ruas, não conhecemos os costumes. Essa cidade tanto pode ser Paris como o Rio, Tóquio, Veneza, Bombaim ou Nova Marte. O que é melhor? Nunca sair do café do bairro ou ir de quando em quando visitar outras cidades, outros mundos, outros modos de dizer as coisas?

L&L – Para além de literatura académica e ensaística, já publicou livros de diversos géneros literários ─ infantil, novela, romance, conto ─, texto dramático e banda desenhada. Há algum destes géneros que lhe dê mais prazer escrever, ou o prazer está, simplesmente, na escrita?

RZ – Todos me dão trabalho, logo prazer (não distingo lá muito bem, defeito meu). O texto dramático é o que mais me frustra, porque nem sempre o objecto chega ao palco.

L&L – Quando escreve banda desenhada tem uma atenção diferente para com o texto, uma vez que irá ser trabalhado por um ilustrador?

RZ – Sim. Já trabalhei com o António Jorge Gonçalves, o Luís Louro, o André Carrilho, o Manuel João Ramos… Com cada um negoceio de forma diferente. Colaboração é dança a dois. Há que saber escutar!

L&L – Que importância tem a banda desenhada na sensiblização para a leitura?

RZ – É o “cinema do pobre”, sendo que o movimento acontece na cabeça do leitor. Não sou grande simpatizante de usar o Astérix para aprender latim. Eu diria mais que é uma variante do livro, e como tal faz parte do variado menu à nossa disposição.

L&L – Actualmente, existe uma banalização de livros e de escritores, por parte das editoras e do mercado livreiro? É correcto falar-se em excesso de (para)literatura?

RZ – Não só é correcto como é inegável. E não vale apontar o dedo para o ar. A partir do momento em que o único objectivo mensurável passa a ser o lucro, a qualidade geral degrada-se, seja em que área for. Autores e livros tornaram-se produtos descartáveis. Felizmente, alguns de nós não nos vamos abaixo com tanta facilidade, mas conheço escritores e editores de talento que já desistiram.

L&L – Obteve vários prémios e distinções importantes. Tem, também, algumas das suas obras traduzidas em várias línguas. O que sentem o homem e o escritor?

RZ – É sempre bom quando alguém nos dá uma palmadinha nas costas pelo trabalho bem feito. As traduções servem para isso. Mas é preciso não esquecer que não andamos cá para receber palmadinhas nas costas. O trabalho bem feito, seja em que área for, deve continuar a ser a sua principal recompensa. Quando sinto que um texto vale a pena, mesmo que mais ninguém goste dele bebo um copo, satisfeito por ainda não ter perdido a mão. E daí a uns dias volto a duvidar “se voltarei a ser capaz” de fazer uma coisa decente.

L&L – Enquanto professor, como vê as notícias que dão conta, nas escolas, de actos de indisciplina e violência? O “bullying” é uma moda ou uma consequência do estado da educação?

RZ – A palavra inglesa é de certeza uma moda, e bem ridícula. Agora rufiões e rufiagem sempre houve nas escolas. Mais uma vez, repito, não é difícil apontar responsabilidades: o colocar a palavra do professor ao mesmo nível que a do aluno e do pai, o desarmar unilateral (o professor não pode pôr fora, mas o aluno pode filmar com o telemóvel?), a mensagem passada de que “os professores não prestam”. Com o poder vem a responsabilidade, disse o Homem-Aranha. Mas isso significa que, com a responsabilidade, vem também o poder. Como podem os profes ser responsáveis se não têm poder? Obviamente que, depois, há que tirar teimas e ver se o professor errou, porque em todas as profissões (todas: advogados, juízes, médicos, políticos, padres, militares, carpinteiros, etc.) pode haver loucos e criminosos. Mas tem de se partir do princípio de que o profissional sabe o que faz. E alguém devia explicar aos pais que essa de “o meu filho nunca mente” só prova ignorância. Falo por experiência própria: até ficaria preocupado se os meus filhos não me mentissem às vezes. Faz parte do crescimento.

L&L – Quais os seus próximos projectos literários?

RZ – Vou esperar para ver. O Anibaleitor está a sair agora e não convém eu pôr já cá fora outro ovo, a competir com ele pelos favores dos leitores. Obviamente estou a escrever, mas não tenciono publicar nada mais este ano. Para deixar respirar o livro. Respirar é preciso. Tempo é preciso. Contra a ditadura do “vai ser tão bom, não foi?”.

Comentários   

 
0 #2 Guest 18-04-2010 00:37
Olá Lurdes, adorei a entrevista, muito objetiva e muito interessante!ag uardo as próximas. Fico a aguardar as próximas! Bjs
 
 
0 #1 Guest 15-04-2010 19:55
Entrevista muito interessante a um escritor que faz parte das "minhas leituras",
Parabéns!
 

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