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Jovem Cícero a Ler [fresco de Vincenzo Foppa-1464]

Ler! Ora aí está. Ora aqui está outra coisa que não vos é fácil. Como vos é difícil aprender a honorabilidade de ler! A honra de ser leitor. Quem vos dera, meus queridos alunos, que ler fosse um modo de trazer coisas recortadas que basta colar para que sejam lindas. Pois assim não é. Pois não tem a banalidade fácil de um copy-paste, esse artesanato ilusivo do saber. Tendes sonhos vãos, meus alunos. O sonho de que ler fosse olhar para a bela capa de um livro, como quando olháveis para as ilustrações dos livros da infância, e, in promptu, ficar ele recortado e colado na vossa alma. Fresquinho, recente, memorado, para que dele pudésseis falar sem medo, sem defesa, sem resistência, como se fôsseis apenas um medium. Mas não.

Vejo-vos, agora vejo-vos, sentados às vossas mesas, cada um com seu livro nas mãos, ansiosos. A vossa ansiedade é sobretudo medo de dar o primeiro passo: — Se passo da capa, se o abro, se descerro a primeira página, comprometo-me, comprometo-me àquilo de que duvido ser capaz: a leitura deste livro que movediçamente escolhi ler.

Não poderíeis senão ter feito escolhas impensadas, algumas mesmo impróprias e, agora aí à minha frente, de livro à vossa frente, pousado e ainda fechado, levantais para mim os olhos toldados de alguma angústia, à espera do empurrão para o voo: — Perdoe-me, porque eu não sei o que fiz. E não sabíeis mesmo, não poderíeis saber, ó virgens ou quase-virgens da leitura, postos perante um programa de literatura que, entre o voluntária e o arbitrariamente, colocastes na linha do vosso destino. E, então, cá estou eu, lá vou eu. Lá me vejo eu a ir, a iniciar o creditado passeio mesa a mesa, como quem vos acende um a um, a pegar-vos na mão da leitura como as antigas professoras primárias pegavam na mão da escrita. Sabendo, à maneira dos experientes domadores, que o livro não morde, lá vou fazendo o que pareceis temer: pegar no livro com à-vontade, com familiaridade; folhear aleatoriamente; ler uma palavra aqui, uma frase ali; resmungar de um grafismo de edição; lembrar-me de uma historieta; no fundo, ensinar-vos como se liga a ‘máquina’, como se põe a ‘máquina’ a trabalhar. O programa é ler. O programa é ler um livro, dois livros… O programa é ler e arranjar modo de partilhar a leitura. Expô-la. Expor-vos. Expormo-nos. Tendes de o fazer. E os mais de vós não sabem como. Lestes, é evidente que já lestes umas coisinhas. Mas livros destes?! Com tantas páginas?! Com tantas ‘coisas’ interligadas lá dentro?! — Como é que isso se faz? — Vós, ó criados a teclas e botões! Onde está o comando, a palavra-passe, como é que se entra no programa, se faz o download?

E eu paro aqui, paro ali, e ponho-me a falar para todos. Virais-vos, deixais o olhar ansioso ao livro e virais-vos a ouvir-me falar de um pormenor, de uma figura, de um autor, de um incidente. Ponho-me a intrigar, a bisbilhotar, a coscuvilhar sobre histórias de livros e autores: — Ah, não sabias? Pois foi. O Eça foi ao Egipto, à inauguração do Canal de Suez, porque foi com o Conde de Resende no navio Fayoum… Portugal não esteve oficialmente representado, já que a corveta Estephânia desarvorou, quando ia a caminho, e teve de regressar a Lisboa … Ah, não sabias? O pai de Agustina Bessa Luís era jogador… e até dizem que gostava muito de apostar… e que…

E, nas vossas caras, a angústia do aluno, no momento de abrir o livro e iniciar a leitura, começa a ceder à tentação, à predisposição para o que virá lá dentro se o abrirdes, para a hipótese de que, afinal, não sejam só palavras negras e difíceis, montanhas desanimadoras de letras negras, mas coisas que podereis contar.

Para a escolha que fizestes (nos limites do cardápio que vos forneci), para a escolha que vos deixei fazer um tanto cega, contaram sobretudo coisas como as capas que vos atraíram, os nomes que vos despertaram a atenção, sem saberdes bem para quê. Premeditadamente o fiz para evitar escolhas com carta de recomendação, para que vos fosse dado fazer descobertas. É preferível a desilusão ao mero encontro com o já sabido. Um livro que nos desilude fica a fazer parte da nossa carreira de leitores. O livro que é o que já sabíamos, que é o que nos disseram que era, fica só igual ao que já sabíamos ou nos tinham dito. Não me interessa facilitar-vos o preenchimento do vosso currículo escolar; interessa-me a difícil construção do vosso currículo de leitores. E, depois, nisto, nestas vossas naturais angústias, não ficais sozinhos, não estais sozinhos. Lá estou eu sempre por perto, a dar-vos uma ou outra chave, até ao momento em que, regressada ao meu lugar, vos olho e vos vou vendo a ensaiar os movimentos tímidos da leitura ou a permanecer na imobilidade frente a um muro que ainda não sabeis como transpor. E, um ou outro, chamais-me. Alguns para dizer que talvez vos tenhais enganado, que não encontrais o caminho, que tudo vos é opaco, que parece não haver ali nada para vós, se podereis mudar. E eu que sim, que podereis mudar… que deixar um livro que se começou é natural… mas… mudar de quê, se nem chegastes a saber o que tínheis nas vossas mãos? Mudar de quê? E, de repente, já falo alto, já leio para todos, em alta voz, o ‘tesouro’ que lá ‘vivia’ escondido naquela ‘árida’ paisagem de letras negras. — Como? Mas isso estava aí? Ah, se eu tivesse sabido… E todos já a folhear, os que estoicamente tinham fingido não querer desistir, todos à procura do ‘oásis’, da palavra que talvez prometa visão de maravilhas. E, um ou outro, já: — Posso? Claro que podes. E todos já a ouvir outro ‘tesouro’ perdido-encontrado, que um de vós, caminhando pelo livro, lá para o meio… lá para o fim… encontrou… e se veio a tornar a chave que lhe abriu a leitura.

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