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Rute Reimão: Gostava de ilustrar um livro a Sérgio Godinho"

ENTREVISTAS - Ilustradores

 

 

 

 

 

 

 

Rute Reimão nasceu em Luanda, em 1972, mas cresceu no Estoril. Em 1993, licenciou-se em Design de Comunicação pelo IADE. Frequentou, ainda, o Curso de Desenho da Sociedade Nacional de Belas Artes. Foi como designer gráfica, que se iniciou na agência de publicidade “MKT”. Em 1995, entrou para o jornal “Semanário” e começou a ilustrar textos de comentário político dos jornalistas Torcato Sepúlveda e João Mesquita. Na sequência dessas ilustrações, foi convidada pelo arquitecto Jorge Burnay para fazer 13 painéis de grandes dimensões, sobre a actividade dos Paparazzi, para o espaço com o mesmo nome, situado nas Docas, em Lisboa (hoje “Doca Peixe”). A par disso, fez também as ilustrações para a capa da revista “Economia Pura”. Em 1999, foi convidada para sub-editora do jornal “A Capital”. Em 2001, fundou a “Alémtudo, design e publicidade”, onde, em parceria com Aníbal Fernandes, faz diariamente o cartoon do “Jornal de Notícias”, “Elias, o sem abrigo”. Tem ilustrado diversos livros infantis, participado em várias exposições individuais e orientado workshops para crianças. Alimenta o blog www.reimao.blogspot.com.

 

 

 

Livros & Leituras ─ A Rute já ilustrou textos de vários géneros, incluindo os de comentário político e em revistas de economia. Como conseguiu conciliar esse tipo de trabalhos com a sua vertente artística e criativa?

 

Rute Reimão ─ Por vezes, não é fácil, sobretudo, quando, no mesmo dia, tenho de fazer ilustrações com fins totalmente distintos. Há, sem dúvida, uma necessidade de interiorizar cada assunto, mas, o que mais me fascina, e sem saber explicar muito bem porquê , é que parece que as mãos ganham vida própria, permitindo que as ilustrações tenham linguagens distintas, mais afectivas, mais sérias ou mesmo mais sarcásticas, se o fim assim o justificar.

 

L&L ─ Em parceria com Aníbal Fernandes faz, diariamente, o cartoon do Jornal de Notícias: “Elias, o sem abrigo”. Fale-nos dessa experiência.

 

RR ─ Essa experiência começou, mais ou menos em 2000, quando fomos contactados por um jornal, com o intuito de desenvolver um cartoon, em que uma personagem comentasse a actualidade económica. Os primeiros esboços do Elias surgiram nas intermináveis filas da A5 entre Cascais e Lisboa, onde trabalhávamos como editores do jornal A Capital. O projecto não foi para a frente, devido à demissão, na altura, da direcção do jornal e acabou por ir parar, de uma forma mais ou menos clandestina, a um blog onde viveu e comentou diariamente os assuntos do dia. Desde 2004 que “Elias, o sem abrigo”, tem como casa o Jornal de Notícias.

 

L&L ─ “Gosto Deles Porque Sim”, de Lara Xavier, foi o primeiro livro para crianças que ilustrou ou já tinha desenvolvido algum projecto nesta área?

 

RR ─ Os primeiros livros infantis que ilustrei foram para uma colecção que o nosso atelier (Alémtudo) criou e tinham como base as lendas que justificassem o nome das terras. Pretendemos ajudar as crianças a conhecerem um pouco mais os sítios onde moram. Não era unicamente a lenda pela lenda. É um projecto que conta com quatro livros publicados, mas, a que gostaríamos de dar continuidade.

 

L&L ─ O livro “Gosto Deles Porque Sim” já vendeu mais de 5.000 exemplares. O que acha que contribuiu para isso?

 

RR ─ Em primeiro lugar, acho que a Lara Xavier tem esse mérito, afinal, tem feito um trabalho exemplar. Agora, não deixa de ser um livro de afectos e sobre afectos, o que lhe confere, à partida, uma aceitação muito grande por parte das crianças. O meu filho Manuel entrou este ano para o primeiro ano e foi ele que, em determinada altura, foi buscar este livro, porque se apercebeu que dentro tinha meninos e meninas da idade dele, com os problemas, as dúvidas e as incertezas típicas, a quem se abriram novas portas, com um mundo novo a descobrir. Bem, por fim, acredito que as ilustrações reflectem exactamente o espírito do livro, conquistando-os ainda mais.

 

L&L ─ Ilustrou, em três meses, seis livros infantis de contos tradicionais, editados pela Texto Editores. Concebeu cerca de 500 ilustrações. Como conseguiu uma criatividade e produção tão grandes, em tão pouco tempo?

 

RR ─ Em primeiro lugar, pedi que me poupassem a reuniões extra em Lisboa (risos). Foi preciso muito planeamento, porque, na prática, eu contava apenas com as manhãs livres, já que o Manuel regressava da escolinha por volta das 15.00 H. O bom foi ver que a tarde servia, não só para esboçar algumas ilustrações, em muitos casos começá-las, mas, aos poucos, sentir que se tornavam numa espécie de aulas para ele, que me acompanhava no atelier, pela tarde dentro. Claro que o sol ajudou, os dias de Verão no Alentejo são assim, intermináveis, e sabe bem estar fechado ao fresco e mais tarde gozar a noite, na companhia dos amigos, em jantares que retemperam as forças e, muitas vezes, nos dão novas ideias.

 

L&L ─ Que materiais e técnicas costuma utilizar?

 

RR ─ Podia utilizar uma única palavra que era “antigos”. A verdade, é que nas minhas ilustrações utilizo uma série de materiais diferentes, como papéis, tecidos, rendas, botões, tintas... O fio condutor é o facto de serem peças que, na sua maioria, têm mais de 100 anos. Gosto de histórias. Gosto de objectos com histórias. Gosto quando as histórias dos outros se fundem com as histórias que vou criando ou recriando.

 

L&L ─ O facto de ser mulher e mãe influencia a sua ilustração e a forma como sente e interpreta aquilo que tem de ilustrar?

 

RR ─ Eu já ilustrava antes do Manuel nascer. Mas o meu modo de olhar e até o meu traço, segundo um querido amigo e jornalista, já falecido, Torcato Sepúlveda, era assim “…mas nunca ilustrou. Inventou sempre, em desenhos agrestes e desordenados, com palavras espalhadas como punhaladas num corpo barbaramente assassinado. A Rute transformava a realidade ─ ou melhor, a notícia ─ numa construção fantástica, gótica. Em traços violentos, quase sempre a preto e branco, raramente a cor surgia, Rute transformava a realidade em panfleto para chegar à poesia.” Hoje, e apesar de alguns temas nada terem de poéticos, existe uma doçura que, sem dúvida, me foi transmitida pela existência do Manuel.

 

L&L ─ Actualmente, pode dizer que tem uma imagem de marca que caracteriza a sua ilustração, ou ainda está em busca de um estilo que a defina?

 

RR ─ Identifico-me com aquilo que faço. Sei que já há muitas pessoas que identificam as ilustrações como sendo minhas. Sou uma pessoa muito crítica em relação ao meu trabalho e, por isso, é natural que haja evolução.

 

L&L ─ Tem participado em várias exposições. Se tivesse de fazer um balanço dessa sua participação, o que diria?

 

RR ─ Tem sido, sem dúvida, positiva, mas sinto a necessidade de dar o pulo: tanto ao nível da escala como na abordagem dos temas.

 

L&L ─ Costuma fazer, com alguma regularidade, workshops para crianças. Pode explicar-nos que actividades costuma desenvolver aí?

 

RR ─ Prendem-se, essencialmente, com a ilustração, tendo como base textos literários. Não imagino o mundo sem essas duas artes. Gosto de recriar a natureza com eles e muitos dos workshops acabam por ser uma espécie de floresta encantada, cheia de pequenos e ruidosos habitantes.

 

L&L ─ Que diria das crianças que, normalmente, frequentam os seus workshops?

 

RR ─ Eu tenho trabalhado com uma empresa em Lisboa, que tem a seu cargo a gestão de alguns dos bairros mais carenciados. O que me fascina ainda mais, porque trabalhar com essas crianças é mais do que ensinar. É, essencialmente, aprender. Por muito que os ateliers saiam de casa planeados, estruturados, existe sempre um factor de surpresa, que é o lado de lá. As histórias são, muitas vezes, reinventadas ao sabor da leitura, quando me apercebo de que há uma criança desatenta, chorosa ou que, simplesmente, mostra que não quer estar ali. O bom é que, no fim, essa criança se agarra a mim, num abraço interminável. Talvez pela afectividade que ganhei pelo Alentejo, quando decidi deixar a cidade, acabei por desenvolver também aqui alguns ateliers, nomeadamente em Avis, que foi a terra que escolhemos para viver.

 

L&L ─ Considera importante este género de actividade para a motivação das crianças e jovens para a leitura e a escrita, enquanto actividades ligadas à ilustração?

 

RR ─ Claro que sim, embora exista tanta coisa, que, por vezes, o que se torna difícil é a escolha. Ensinar uma criança a gostar de ler, a ir buscar um livro, a deliciar-se com as ilustrações, a imaginar que ela poderia estar a redesenhar aquela história, é um trabalho que requer um esforço diário.

 

L&L ─ Um dos seus trabalhos mais recentes foi a ilustração do livro “Histórias do Barco da Velha”, de Pedro Teixeira Neves, editado pela Trinta Por Uma Linha. Desvende-nos um pouco deste livro.

 

RR ─ Em primeiro lugar, gostei de ter podido trabalhar, novamente, com o Pedro e noutras circunstâncias. É um livro cheio de ironia, em que a história tem apenas, como elos de ligação, um barco e uma velha, depois, é um surgir de personagens novas, cada uma mais diferente da outra, mas todas carregadas de humor. Existem duas personagens pelas quais me apaixonei, uma delas é um rapaz muito tonto, mas, que ao mesmo tempo é uma delícia, a outra é um velho marinheiro, que não pode ver uma rapariga bonita a bordo.

 

L&L ─ Há algum autor que admire em especial e com quem gostasse de trabalhar?

 

RR ─ Essa talvez seja a pergunta mais difícil e não se prende com o facto de querer ferir susceptibilidades, mas sendo uma leitora “furiosa” tenho muitos autores que admiro. Para ser franca, há uma pessoa a quem eu gostava de ilustrar um livro, que é o Sérgio Godinho, pelo imaginário rico em jogos de palavras.

 

L&L ─ Fale-nos dos seus projectos para o futuro próximo.

 

RR ─ Vou dividindo o meu tempo com o que gostava de ser a tempo inteiro, que é ser ilustradora, com o trabalho de designer gráfica. Tenho um livro numa editora à espera que gostem dele tanto como eu gosto e na calha mais dois ainda para este ano. Além disso, tenho alguns ateliers e exposições marcadas, que a seu tempo vou divulgando.

Comentários   

 
0 #1 Fernando Cardoso 23-06-2011 10:31
Parabéns prezada Rute Reimão pela sua excelente e elucidativa entrevista. É óbvio que não feriu a minha sensibilidade de autor de livros para crianças, mas é certo que ficava assaz honrado se tivesse dito que gostava de ilustrar um livro de minha autoria.
Um abraço de amizade e admiração.
Fernando Cardoso
http://fcardoso.blogs.sapo.pt
 

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