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A sabedoria consiste em saber que se sabe o que sabe e saber que não se sabe o que não se sabe. (Provérbio chinês)

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ENTREVISTAS - Escritores

 

 

Zilda Cardoso nasceu e estudou no Porto. É bacharel em Contabilidade e licenciada em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Tem publicações em diversos jornais diários e foi coordenadora de uma página n’ O Comércio do Porto sobre problemas femininos. Apaixonada pela arte, pela natureza e pela simplicidade dos momentos, é autora de livros como “Ana Augusta” e “Cerejas de Celulóide”, entre outros.

 

Livros & Leituras - Como é que áreas tão divergentes como a contabilidade, a filosofia e as letras se conjugam harmoniosamente numa só pessoa?

Zilda Cardoso - Talvez não sejam muito divergentes. Todas elas fazem parte da minha formação. A contabilidade serve para moderar enlevos românticos e fantasias da literatura, mas não os inviabiliza. Abranda-os. Leva a pensar de forma moderadamente racional. Por exemplo, um dos meus sonhos de sempre, os que recorrem constantemente desde que me conheço é o da felicidade de me sentir a caminhar com os pés a uma certa distância do chão, um palmo. Quando acordo, sinto imensa pena de verificar que na realidade não o consigo. Mas o sonho era tão real que me deu uma felicidade enorme e isso me basta. É um sonho moderado. Não sonho muito com voar, se bem que também sonhe voar. Quanto à filosofia… é indispensável conhecer o pensamento dos que se habituaram a pensar e a usar a inteligência para o bem, ou a bem usar a inteligência. Como sabe, não descobrimos muitos caminhos interessantes desde os Gregos senão no campo da tecnologia.

Olhe, quando fui para a 1ª escola, tinha 7 anos. Não sabia nada de escrita nem de leitura, mas fiquei muito interessada, logo no 1.º dia. E depois das férias de Natal, nesse 1.º ano, passei para a 2ª classe. Também fiz os exames da 3ª e da 4ª no mesmo ano, aos 9 anos. Era a melhor aluna da escola, excelente a Português, menos excelente a Matemática, mas logo a seguir… Não, não vejo como podem divergir estas disciplinas: matemática, contabilidade, economia, filosofia, letras e artes, experiência de vida…

L&L - O livro que publicou em 2001, “A Rua do Paraíso”, retrata uma das mais emblemáticas artérias da cidade do Porto. Pode considerar-se esta obra como um elogio à bonita cidade que a viu nascer?

ZC - A Rua do Paraíso era um lugar quase medieval nessa época. Por isso, vista à distância e como recordação de infância, era romântica e bela. Na realidade, nunca foi: na época era suja e confusa e barulhenta. Era também movimentada: desde manhã cedo, aconteciam coisas, passavam vendedores ambulantes que apregoavam os mais variados produtos quase todos malcheirosos, havia circo e teatro de fantoches, concertos de ceguinhos, sessões de vendedores da banha da cobra e fotógrafos à la minute… como num filme de Kusturica. Os públicos faziam gestos de significado misterioso, discutiam, envolviam-se em pancadaria, mas conheciam-se. Havia entre as pessoas, uma relação intensa e apaixonada, eram solidárias e… eu tenho delas as mais divertidas recordações. E, como diz Agustina, as lembranças da infância dão as melhores histórias. Depois da publicação do livro, muitos foram visitar a rua: devem ter ficado profundamente desiludidos. Mas eu gosto da minha cidade, quis e quero dá-la a conhecer no que tem de bom e no que tem de menos bom.

L&L - Como surgiu a colaboração com a pintora Elvira Leite e a respectiva fundação da galeria de arte naif?

ZC - Depois da minha continuada colaboração em jornais diários, e sobretudo em O Comércio do Porto, apeteceu-me fazer outra coisa. Em conversa com a Elvira Leite que é pintora e metodóloga de grande valor, a quem estimo e admiro, surgiu a ideia de abrir uma galeria de arte que fosse diferente das outras. Por que não “naif”? Ambas gostamos desse tipo de arte e ela tinha os conhecimentos necessários, os contactos possíveis. Deu-nos imenso gozo esse trabalho em conjunto. E depois voltei-me para o “design” contemporâneo.

L&L - Acredita que é, deste modo, a multiplicidade de interesses que tem que faz com que tenha um olhar tão direccionado para o mundo que a rodeia?

ZC - Acredito. Na verdade, estou interessada em muitos temas que parecem de tal modo diferentes… O mundo é assim mesmo, vivemos nele, atrevo-me a dizer, é nosso. E é múltiplo. É claro que seria mais fácil de entender se fosse uno. Mas como o entenderemos se não formos nós próprios múltiplos? E experientes de experiências muito diversas?

L&L - Qual a diferença mais significativa que encontra entre os seus livros “Cerejas de Celulóide” e “Ana Augusta”?

ZC – “Ana Augusta”  é o que mais se assemelha a um romance, é a história romanceada da minha bisavó. Fiz investigação genealógica, andei anos nos arquivos distritais, na Torre do Tombo… Fiz um curso género pós-graduação na Universidade Moderna sobre História da Família. Divertiu-me muito o que descobri nos documentos e nas conversas com quem conviveu ou ouviu falar das pessoas de quem falo. Escrever um livro de genealogia rigorosamente científico não me interessava porque um livro desses só pode assemelhar-se a um dicionário e ser excelente referência. Por isso, imaginei o que não constava nos documentos e fiz um romance em que diligenciei interpretar que motivos levaram a certos comportamentos, que paixões, que desejos… E procurei entender.

L&L - Em “Cerejas de Celulóide” o leitor pode encontrar uma vertente saudosista muito grande. Concorda?

ZC – “Cerejas de Celulóide” é um livro de recordações como são quase todos. Mostro uma realidade problemática, talvez tenha aptidão para captar problemas. Por isso, este livro, como os outros que escrevi, pode ser uma fonte de informações sem deixar de ser literatura já que está construído entre o real e o simbólico. Talvez não tenha conseguido a objectividade que pretendia para as personagens, mas não deixam de ser personagens. E alguns dos acontecimentos que relato aconteceram na realidade; outros… apenas desejei que acontecessem para que justiça se fizesse. Disse o que sentia, o que observei, o que pensei acerca deles; disse de forma diferente, com palavras que me agradaram, desejando manter uma relação amorosa com o leitor. Provavelmente não consegui. Apreciaria que a sociedade em que vivo fosse diferente e poder contribuir para isso sem ter que inventar grandes personagens dramáticas e estafados e grandiloquentes lugares comuns. Apesar de tudo, acho que o meu discurso é moral. Vertente saudosista? Não sei, da infância ou antes do passado temos sempre saudades porque gostamos de o idealizar.

L&L - Se tivesse de, em poucas linhas, descrever a sua forma de escrita e aquilo que a inspira, como o faria?

ZC - O que pode despertar o meu desejo de escrever é, por exemplo, o remexer em fotografias antigas e em papéis, meus escritos mais ou menos velhos; ou um acontecimento inesperado e chocante e tocante; um pedido formal para escrever sobre isto ou aquilo; ou uma dor sofrida e ampliada. E acontece quando me sinto quase perdida de solidão, quando esse sentimento ultrapassa o desejado e fico farta da conversa comigo, já não posso ouvir-me ou não tenho mais nada para me dizer. Pode suceder que tente arranjar companhia na escrita. Tenho uma obsessão pela difícil verdade que será, como dizem, o estranho caminho do filósofo para quem cada ponto é uma encruzilhada. A crónica, o artigo de opinião de pessoas inteligentes e não hipotecadas a este ou àquele partido político; o ensaio de divulgação científica; a poesia. Todos eles activam a minha vontade de escrever e são o meu género de leitura e de escrita favorito. Na minha forma de escrita procuro (não quer dizer que encontre) a simplicidade, a correcção, a novidade, o equilíbrio. Tenho um fascínio pela beleza, pela consciência da poesia que está nas coisas simples e naturais e as ilumina.

L&L - Agustina Bessa-Luís apresentou publicamente uma das suas obras. O que se sente em momentos destes?

ZC - Agustina, Mário Cláudio, Miguel Veiga, Helder Pacheco, Elvira Leite, Faro Barros, Leonor Xavier foram encantadores e eu senti-me desvanecida, sabendo que nenhum deles estava a fazer crítica, mas a apresentar uma obra que supostamente lhes agradara. E a ajudar o público a entendê-la. Por isso, para além de me sentir bem, estive sempre com os pés assentes no chão.

L&L - Alguns dos últimos escritos da Zilda fazem referência à importância da meditação. Será este um dos temas abordados num próximo livro?

ZC - Não o creio.

L&L - Qual, na sua opinião, o escritor que em 2009 mais se conseguiu aproximar das reais necessidades do público actual?

ZC - Realmente não sei. Penso e gosto de ler António Lobo Antunes porque é suficientemente louco (mesmo não sendo jovem) para se aproximar do actual público e das suas necessidades neste mundo louco. E essa loucura é palpável em todas as artes actualmente: no cinema, na pintura (que quase não há), na escultura, na fotografia, nos modelos de vestuário (que não são para vestir)…

L&L - Passeando pelo seu blogue (http://zildacardoso.blogs.sapo.pt), o leitor encontra retalhos de momentos repletos de sentimento e ternura. Como surgiu esta iniciativa e como consegue estar por inteiro neste campo, uma vez que não nasceu na era da internet?

ZC - Tenho permanentemente um desejo de escrever e depois de tantos anos seguindo outros caminhos talvez não me apeteça muito escrever livros, embora tenha e esteja a trabalhar noutros projectos de escrita. É simples escrever no computador (raramente escrevo directamente no computador) e muito fácil corrigir. Em geral,  escrevo primeiramente num pequeno papel à mão, para aproveitar o momento, e depois passo para o computador que realmente simplifica o arranjo final. Não me perturba nada o instrumento. Tenho pena não tirar dele um bom proveito, mas para ter lições formais para trabalhar como deve ser, acho que já não tenho paciência. Aproveito as vantagens.

L&L - Afirmou no Twitter “O Inverno é a minha descrença”. Não é esta estação do ano uma boa fonte de inspiração para a escrita?

ZC - Não gosto do Inverno nem do nevoeiro nem dos ventos agressivos nem de chuvas torrenciais nem das grandes ondas que devoram. Tudo isso são agressões e violência que não aprecio. Gosto da chuva que cai devagarinho e que saboreio apanhar e deixar escorrer por mim, deleito-me com a brisa que acaricia, com o sol nascente e o azul e o calor que conforta. E com o verde tranquilo dos jardins primaveris, com os seus coloridos suaves, os perfumes. E gosto do silêncio, adoro o silêncio das manhãs junto do mar ou na montanha com muito espaço e onde os pequenos ruídos são música suave.

L&L - Tratando-se a Livros & Leituras de uma revista digital, como encara esta “nova forma” de leitura através do computador?

ZC - Uma revista digital para mim ainda é um objecto um pouco estranho. Calculo que a maior parte do público aprecia folhear uma revista que viu nas bancas dos quiosques, das livrarias, dos supermercados; que em geral são coloridas e sólidas e lhe permitem passear ao mesmo tempo que as tocam; ou sentar-se num banco de jardim; ou fazer outra coisa qualquer. Para já, terão poucos leitores ou estou enganada? No futuro será diferente com toda a certeza, vamo-nos habituando ao virtual, mas não será tempo demasiado na frente do computador? Ou arranjaremos outra forma de ler, outra luz, outro tipo de ecrã ou outra posição…?

L&L - Acredito que já tenha tido oportunidade de “passear” pela revista Livros & Leituras. O que gostaria de ver abordado nesta publicação digital?

ZC - Gostaria de ver abordados os mesmos assuntos que me dá prazer ver numa qualquer revista cultural. Ou seja, para além de crítica de livros conscienciosa, e de notícias de acontecimentos culturais, apreciaria artigos de intervenção, sem chavões, sem maledicência e sem lamentos, mas de estímulo para que todos se sintam na alegre obrigação de contribuir para um mundo onde todos gostem de viver. Seria planear o mundo e ajudar a construí-lo tal qual. A intenção será que quem lê seja estimulado para que desperte a sua imaginação criadora e vá por aí fora regozijando-se com o que está a ver, a pensar e eventualmente a criar. Para o bem de todos. (Não seria bonito? Um sonho bonito?)

Comments  

 
0 #5 2010-03-20 14:23
Uma Mulher, atenta, actual, preocupada em fazer, melhor, diferente, inteligentement e e com uma capacidade de reflexão sobre o(s) outro(s) e sobre si própria como poucas.
 
 
0 #4 2010-03-13 23:30
Aprecio a postura positiva, reflexo da cultura filosófica...tenho para mim que se todos em algum momento das suas vidas "encontrassem" a filosofia este mundo seria mais belo!
 
 
0 #3 2010-03-13 09:28
Agrada-me a atitude positiva perante o que é novo, o imprevisto, as contrariedades...ao contrário do que é mais comum..as lamentações!
Também tenho para mim que se todos em algum momento "encontrassem" a filosofia, este mundo seria concertezaas belo!
 
 
+1 #2 2010-03-10 09:50
Uma lição de encantar!
 
 
0 #1 2010-03-09 14:01
votos de sucesso!!!
 

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