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O amor é, como a natureza, grande principalmente nas coisas pequeninas. (Júlio C. Machado)

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ENTREVISTAS - Escritores

Lurdes Breda nasceu no dia 5 de Maio de 1970, no concelho de Montemor-o-Velho. Frequenta o curso de Línguas e Literaturas Modernas – Variante Estudos Portugueses, da Universidade Aberta. Foi premiada em diversos certames literários nacionais e internacionais e, entre a edição e a co-edição, possui editadas as seguintes obras: “O misterioso falcão de jalne”, “Asas de vento e sal”, “Zuleida, a princesa moura”, “Contos com Vinho Madeira – Cultura Madeirense na Forma Líquida”, “Na face do luar”, “Folhas ao Vento”, “Casa lembrada, Casa Perdida”, “A Nuvenzinha Cor-de-Farinha”, “O Duende Barnabé e as Cores Mágicas”, “O Abade João”, “Rosa dos Ventos” e “O Piolho Zarolho e o Arco-Íris da Amizade”.

Livros & Leituras – Se tivesse de falar sobre si, que diria?

Lurdes Breda – Diria que sou extrovertida, optimista e divertida. Depois, não sei se foi a escrita que desenvolveu a minha sensibilidade, se foi a minha sensibilidade que se introduziu na escrita. Sou uma pessoa simples e acessível e gosto de ajudar os outros naquilo que me é possível. Sinto-me um ser humano priveligiado pela família, amigos e capacidades que tenho. A minha inspiração flui, sobretudo, dos campos do Mondego. Tenho uma ligação muito forte com o lugar onde vivo e com a Natureza.

L&L – Um sorriso é muito importante para si?

LB – Sem dúvida! Um sorriso pode ser uma viagem ao encontro do “outro”. Num sorriso esbatem-se as fronteiras, as diferenças e a indiferença. É como o estender de uma mão. Há calor, afectividade... No sorriso, a linguagem é universal.

L&L – A Lurdes considera-se teimosa, perfeccionista e distraída. Há remédio para isso?

LB – Espero que não... (gargalhada). Na medida certa, esses atributos podem ser qualidades e não defeitos. Se não fosse teimosa, desistia mais facilmente das coisas. Se não fosse perfeccionista, os meus textos teriam menos qualidade. Se não fosse distraída, interiorizava muito mais as coisas más da vida...

L&L – Qual o livro que gostou mais de escrever?

LB – Talvez aquele que ainda não escrevi...

L&L – Porquê?

LB – Porque sou exigente comigo mesma e tenho dentro de mim uma secreta insatisfação que me leva a procurar evoluir, não apenas no plano literário, mas também no plano pessoal. Existem sempre ideias inovadoras e projectos fantásticos, à espera que alguém os sonhe. O livro que mais gostaria de escrever será, com certeza, um desses sonhos...

L&L – E o que gostou menos, houve algum?

LB – Não, não houve. Todos os livros que escrevi são como pedaços de mim. Surgiram quando tinham de surgir. Cada qual teve o seu objectivo, serviu a sua causa, no seu tempo próprio. Todos eles são diferentes e especiais à sua maneira. Embora admita que alguns me saíram mais do coração, pelos objectivos com que foram concebidos e pelas pessoas que comigo trabalharam neles.

L&L – Prefere escrever contos, livros infantis, poesia ou crónicas?

LB – Nos útimos meses o meu trabalho incidiu, sobretudo, na área infantil e juvenil, embora, paralelamente, tenha continuado a desenvolver as outras áreas literárias. Escrever para crianças é, quanto a mim, mais difícil do que escrever para adultos. No entanto, acaba por ser muito mais gratificante. Não só pelo desafio que encerra (aliar, muitas vezes, o factor literário e lúdico ao factor pedagógico), mas também pelo contacto que se estabelece com as próprias crianças. Assumo, com bastante frequência o meu lado infantil nas histórias que invento. Divirto-me com os personagens e os lugares mágicos e inverosímeis, que preenchem as páginas dos meus livros. Dou asas ao meu próprio imaginário... E que prazer me dá ver, depois, as letras a ganharem vida através das ilustrações (imprescindíveis em qualquer livro infantil). Sinto-me relativamente à vontade quer na prosa quer na poesia. Apesar dos aspectos teóricos e técnicos que necessito de ter para escrever, o acto da escrita é, igualmente, um estado de espírito, porque reflecte muitos dos meus próprios sentimentos e sensações perante a vida e perante os outros. A crónica é onde me sinto menos à vontade.

L&L – Porquê?

LB – Não obstante o meu lado prático, sou muito sonhadora e idealista. Isso, desde sempre, se reflectiu na minha escrita. Gosto de fantasiar, divagar... Jogar com as palavras... Ficcionar. Usar figuras de estilo para poetizar os meus textos. Não sou uma escritora da realidade, daí que prefira outras formas de escrita, e não a crónica. O que não quer dizer que, através da ficção e de vários subterfúgios literários e poéticos, eu não fale da realidade que me rodeia.

L&L – Eça de Queirós, Júlio Dinis, Trindade Coelho e Almeida Garrett influenciaram a forma como escreve?

LB – Com certeza que sim, pois foram os principais autores da minha infância e juventude. Ficava fascinada por descobrir neles, uma época de personagens e costumes tão diversos. Além disso, a nível literário, admirava a forma como escreviam. Foram autores que, do ponto de vista histórico, deixaram um testemunho importante sobre a realidade social, económica e política vivida nos séculos XVIII e XIX, no posso país. No fundo, ler estes autores foi conhecer melhor, e sob um outro prisma, uma nova História de Portugal.

L&L – Qual o seu sonho como escritora?

LB – Poder editar conforme for escrevendo e encontrar pessoas receptivas às minhas ideias e aos meus projectos. E que os leitores gostem, claro! Acima de tudo, espero sentir sempre a mesma paixão pela escrita e pelas palavras.

L&L – E como mulher?

LB – Manter a minha simplicidade face à vida e face aos outros. Continuar a dar importância às pequenas coisas e descobrir beleza onde, aparentemente, há fealdade. Sei que não posso mudar o mundo, mas espero poder fazer alguma diferença com a minha escrita e com o meu sorriso...

L&L– A escritora Lurdes Breda tem um sítio na Internet (http://lurdesbreda.wordpress.com). Nos dias que correm, considera isso fundamental para a vida de um escritor?

LB – sim, claro! Hoje em dia, é fundamental para qualquer profissional o uso da Internet e das suas várias potencialidades. É uma forma de contactar com pessoas de todo o mundo e de divulgar o nosso trabalho. Os blogues, as páginas pessoais e as redes sociais são “sítios” inprescindíveis para isso mesmo!

L&L – Concorda com os livros electrónicos?

LB – Penso que em todas as áreas tem de haver inovação e originalidade. As novas tecnologias da informação e da comunicação vieram contribuir para que as coisas mais tradicionais assumissem formatos originais. Concordo com todos os meios válidos que sirvam para promover o livro e a leitutura. Os livros electrónicos servem essa estratégia com a mais-valia de que estão prontamente acessíveis, em qualquer parte do mundo. Infelizmente, e pelos mais diverso motivos, ainda há lugares onde os livros são um bem raro e inacessível a muita gente. No entanto, não há nada como tocar num livro físico. Gosto de sentir a textura do papel e o cheiro das páginas...

L&L – E com o Acordo Ortográfico?

LB – Embora até possa entender as razões evocadas para o Acordo Ortográfico, eu não concordo! Primeiro, porque a nível prático e logístico não existem estruturas e ferramentas que apoiem a rápida implementação no terreno das regras e das mudanças ditadas pelo Acordo. É o caso dos dicionários, manuais e livros escolares, por exemplo. E o que fazer a milhares de livros editados? Tornar-se-ão obsoletos? Segundo, não faz sentido Portugal adaptar a sua língua à de outros países de expressão portuguesa, uma vez que o Português desses países derivou justamente do nosso Português. A riqueza linguística de qualquer país reside na diversidade de idiomas e dialectos. Essa diversidade enriquece os povos e contribui para reforçar a sua identidade cultural. A língua também faz parte da etnografia. Reduzir e simplificar essa multiplicidade linguística parece-me um pouco sem sentido. Se por um lado caminhamos para uma, cada vez maior, globalização, também é verdade que o culto da interculturalidade serve justamente para saber conviver, respeitar e apreciar as diferenças. Confesso que a mudança de algumas palavras me choca um pouco, não pareço estar a escrever verdadeiramente o Português...

L&L – Para si quem foi o escritor português de 2009?

LB – Não há um único autor em particular. Pela qualidade, talento e labor literários, existem alguns autores portugueses, que eu admiro. A Alice Vieira e o José Fanha, a nível de literatura para os mais novos. Na ficção, o Valter Hugo Mãe, José Luís Peixoto e o José Rodrigues dos Santos.

L&L – Porquê?

LB – A Alice Vieira e o José Fanha são dois Senhores do panorama literário português. Fabulosos contadores de histórias, que de forma muito humana trasmitem afectividade e importantes lições de vida, não apenas aos mais jovens, mas aos adultos também. Quanto ao Valter Hugo Mãe, ao José Luís Peixoto e ao José Rodrigues dos Santos, marcam uma geração de novos autores que, pela sua qualidade e desenvoltura literárias conseguiram conquistar os leitores e “competir” com os grandes Cânones da literatura, não só portuguesa, mas mundial. É um grande feito, o facto de terem conseguido imporem-se no panorama literário nacional e internacional.

L&L – Pode falar no seu próximo livro?

LB – Com todo o prazer. O próximo livro tem por título "O Piolho Zarolho e o Arco-Íris da Amizade", vai ser lançado dia 27 de Fevereiro, pelas 16.00 H, na Livraria Almedina Estádio Cidade de Coimbra e é direccionado para crianças com necessidades educativas especiais. É, por isso, um projecto que me diz muito. Depois, e ainda sem data para ser lançado, está programada a edição de um novo livro, também para crianças, intitulado “Letras com Riso, Histórias sem Siso”. Será ilustrado pelo André Caetano e editado pela Editora Gatafunho. Ainda na área infantil, há mais uns quantos projectos, que prefiro não desvendar, por enquanto. Também tenho dois romances escritos que gostaria de ver editados, pois, ainda não tenho nada nessa área.

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