Opinião dos Leitores

Newsletter

Tradutor

Livros & Leituras TV

Entrevistas

Acerca da poesia e dos poetas

OPINIÃO - Colaboradores

 

É comum dizer-se que somos um “País de Poetas” com o sentido de que parte considerável dos portugueses tem mais facilidade em versejar do que outros povos.

E é, outrossim, sintomático que sendo a nossa História tão rica de figuras célebres como Reis, Navegadores, Cavaleiros Militares, Presidentes da República, Cientistas, Pintores, Compositores, etc. etc. etc…, seja precisamente um Poeta – Luís de Camões – quem simboliza o “Dia de Portugal”.

Mas falar de poetas, pressupõe saber o que é poesia, tarefa bem mais árdua do que, à primeira vista, se possa imaginar. E a maior complexidade advém da poesia elitista e, muito particularmente, da poesia experimental ou concretista que colocam a todos nós, e sobremaneira aos críticos, a aludida e prévia questão: o que é poesia? E esta dúvida não se satisfaz com a significação dada por qualquer dicionário: «arte de fazer versos», precisamente porque, de imediato, somos assaltados por outra questão: a de saber o que são versos. E, de novo, nos quedamos num labirinto porque a poesia é suficientemente abrangente para aceitar toda a espécie de versos quer sejam simétricos, livres, rimados ou brancos.

Daí que sejamos forçados a regressar à pergunta inicial: o que é poesia? E têm surgido as mais díspares tentativas de a definir sem que nenhuma logre alcançar aceitação generalizada. Vejamos, no entanto, o contributo das mais significativas. Para Ruy Belo a poesia «é a preguiça da prosa» no sentido de que a poesia deve ser sucinta: dizer muito em poucas palavras. Sebastião da Gama, por seu turno, entende que a poesia é mensagem, é comunicação, o que, segundo Norbert Wiener, não tem cabimento na poesia experimental que se consubstancia «numa arte de espaço». Para Campoamor a poesia «é a divina música da alma», a realçar o ritmo e a beleza estética que a distingue da prosa. Para mim, a poesia, porque indefinível, é um mistério, é um dom, como alude José Régio - «Bem-fadou Deus a nossa Pátria com o dom da Poesia» - e eu próprio interiorizei no contacto com os poetas populares, os quais, apesar de na sua maioria serem analfabetos, revelaram-se possuidores de invejável capacidade de versejar. (vide “POETAS POPULARES”, quatro volumes)       

É que a poesia não se compra, não se aprende, nasce com o poeta, como diz António Aleixo nesta quadra lapidar:

A arte é força imanente,

não se ensina, não se aprende,

não se compra, não se vende,

nasce e morre com a gente.

Quer para aqueles que pugnam por uma poesia acessível ao grande público quer para os que defendem uma poesia erudita, elitista ou experimental, direi tão somente que os poetas populares são necessários, ainda que como pão de segunda, porque os poetas cultos (intelectuais ou herméticos) andam desfasados do povo, incapaz de captar a sua linguagem evoluída. Aliás, esse assincronismo vem de longe.

Parafraseando Mayer Garção, direi que a poesia é eterna porque, não sendo privilégio de nenhuma casta intelectual, é de todos. É também dos poetas populares!

Direi ainda que os poetas que não comungam com Sebastião da Gama quando afirma que «a poesia é mensagem não do poeta aos seus botões, mas do poeta aos outros homens», não podem lamentar-se que as suas obras de poesia remanescem nas prateleiras precisamente porque, ao escreverem, postergam que a generalidade dos portugueses – eventuais destinatários – exige, como o autor de “Serra Mãe” – que os vates-emissores transmitam algo que os receptores-leitores entendam. 

Comentar


Código de segurança
Atualizar

A FRASE

Perdi a comodidade da ignorância. (Michael Allred )

PUB

NOVIDADES

Originais

Opinião