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Lemos Djata: "Ilustrar é uma transição do estado sonoro para o estado visual"

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ENTREVISTAS - Ilustradores

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Lemos Djata nasceu em Março de 1981, em Bafatá, República da Guiné-Bissau. É licenciado em Línguas Estrangeiras Aplicadas pela Universidade de Évora. Começou, muito jovem, a sua atividade artística juntamente com os irmãos (Ismael e Issa) criando, em 2000, o grupo “Irmãos Unidos”. Em 2005, juntamente com os dois irmãos, recebeu um diploma de melhor artista do ano, na Guiné-Bissau. Foi o vencedor do passatempo “Telas/Esculturas” que decorreu na Universidade de Évora, no espaço “Trainin? Will do Trainin? Trip da CP” em 2008. Entre individuais e coletivas, já realizou exposições em vários países: Guiné-Bissau (CCF, CCP), Senegal, Cabo verde (Palácio da Cultura de Praia), França (Galerie Lafayette em Paris, Brouxier) e Portugal (Igreja de São Vicente e Mercado Municipal em Évora, Teatro da trindade, Faculdade de Direito em Lisboa, no espaço Turismo em Guimarães), entre outros. É membro da Associação dos Pintores da Guiné-Bissau, Associação da Amizade e das Artes Galego Portuguesa – AAAGP e Movimento Artístico de Coimbra MAC e é representado pela Galeria Ana Paula Cabral, sendo reconhecido, a nível internacional, como um dos grandes pintores e escultores autodidatas africanos. Busca na sua arte uma afirmação técnica Hiper-realista onde, se torna evidente, em especial, nas expressões com figuras humanas, no tratamento dos fundos alcançando de forma discreta, a abstração, ao mesmo tempo que afinidades cubistas acompanhados com paisagens, movimentos de dança com ritmo, expressão e um forte tratamento cromático. As suas obras encontram-se espalhadas pelos quatro cantos do mundo, quer em coleções individuais, quer em museus e outras instituições. Paralelamente às Artes, desempenha o cargo de professor freelancer na Guiné-Bissau, onde leciona crioulo e português para estrangeiros, inglês e francês para nacionais e também faz traduções.

 

Livros & LeiturasQue significado tem para si o ato de ilustrar e a partir de que altura este se tornou “profissional”? 

Lemos Djata – para mim, o ato de ilustrar é uma transição do estado sonoro de qualquer registo para o estado visual. Tornei-me profissional quando ilustrei, juntamente com o meu irmão, uma banda desenhada em 2003. 

 

L&L – O que é necessário para se ser um bom ilustrador?

LD – Um bom ilustrador precisa ter uma boa capacidade técnica, ser muito criativo e honesto com a mensagem a ilustrar.

 

L&L – O seu trabalho é versátil ou, pelo contrário, tem um estilo muito próprio e facilmente identificável por quem o vê?

LD – No que toca a versatilidade, para que um artista atinja esse nível de estilo próprio é preciso passar pelo versátil e, só depois é que, através da experiência, assume o estilo próprio, que é fácil de reconhecer. Por outras palavras, isso resume-se ao que eu entendo ser a arte, um mundo completamente contrário da realidade, ou seja o perfeito pelo imperfeito e vice-versa. Contudo, para que o meu trabalho seja de fácil reconhecimento, eu ainda vejo muito trabalho pela frente, tendo em consideração que sou um artista muito jovem.

 

L&L – A ilustração tem vindo a afirmar-se na sua relação com a Literatura. O que falta para que a ilustração assuma um papel ainda mais preponderante?

LD – Na ótica relação ilustração-literatura, o paralelismo existente entre a ilustração e a tradução escrita sempre foi e ainda continua a ser vista como uma produção referente à escrita. Talvez essa secundariedade funcional que estas duas desempenham lhes diminua tanta importância. Mas não é que seja esse o único problema da ilustração, também existe a sua reprodução em massa, o que o difere da pintura. Uma das possibilidades para a sua preponderância seria deixar de ser reproduzida, ser exposta nas galerias ou museus e ser promovida pelos agentes culturas e/ou os media. 

L&L – A tradição oral representa, nalguns países da lusofonia, uma importante marca de identidade cultural. A sua reprodução figurativa pode ser uma forma de preservar e divulgar essa tradição?

LD – É um conhecimento partilhado que cada individuo pertencente a um povo, com língua e cultura própria, situado num determinado país. As diferenças pairam exatamente na divergência linguística e social. Cada sociedade tem os seus princípios normativos, os quais lhe estabelecem os limites de convivência dentro dela. Muitas das vezes só são aceites indivíduos com as mesmas caraterísticas dentro duma sociedade e os que não apresentam as mesmas caraterísticas não se identificam com aquela sociedade. No entanto, por mais que tentarmos, não temos como fugir ou desligar por completo da nossa identidade cultural. Por exemplo, a minha cultura é uma cultura repleta de emoções, o que me faz ser um artista emotivo e tento sempre procurar emoção em tudo. É a tal tradição oral passada de geração em geração e que tende perpetuar a uniformização cultural é que, duma certa forma, vai influenciando na minha produção figurativa.      

L&L – A Língua Portuguesa é uma mais-valia no panorama literário e artístico mundial? 

LD – Diria eu que sim, que é uma mais-valia no panorama literário e artístico uma vez que a Língua Portuguesa é falada em todo o mundo e constitui uma língua de trabalho da União Europeia. Cada vez há mais indivíduos a interessarem-se pela língua e arte lusófona.

L&L – Quais os seus ilustradores lusófonos favoritos e porquê?

LD – Eu gosto muito de Augusto Trigo, porque ele deixou um legado de artistas na Guiné-Bissau. Graças a ele a arte guineense tem um caráter artístico muito evolutivo. Gosto também dos irmãos gêmeos Fernando Júlio e Manuel Júlio, que emocionaram o povo da Guiné-Bissau com as suas bandas desenhadas em que surge sempre como personagem principal o “N’tori”. Esta questão torna evidente a minha resposta à questão de tradução oral, notando-se que os ilustradores mencionados são todos da Guiné-Bissau, e eis a razão da minha escolha: foram das primeiras bandas desenhadas com quais tive contato e marcaram muito a minha infância. 

 

L&L – Ao nível da Literatura e das Artes, que medidas poderão ser implementadas para que o universo lusófono seja uma realidade mais coesa entre ilustradores de diferentes nacionalidades?

LD – Que a disciplina arte seja lecionada em universidades dos países desfavorecidos ou a criação de escolas profissionais de arte; que sejam dinamizadas ateliês de intercâmbio cultural e linguístico; que seja promovida uma conferência mundial da Língua Portuguesa e que seja facilitado o acesso à edição de artigos literários e artísticos.   

L&L – A Internet e os recentes suportes informáticos contribuem para o reforço e promoção do seu trabalho?

LD – A internet é a melhor promotora da minha arte até agora. Hoje em dia é mais fácil fazer chegar as obras de arte ao público em geral através das redes sociais. Digo ao público em geral porque também sou da opinião que a arte deve ser tornada pública.

L&L – Qual o maior desafio que já enfrentou ou que gostaria de enfrentar em termos profissionais?

LD – O maior desafio que já enfrentei até agora é a tamanha surpresa de ver a minha arte a ser bem acolhida no mundo inteiro através de galerias, museus, centros culturais, universidades, casas de arte, colecionadores, rádios, jornais, televisões, etc. Isso foi um sonho que tive antes de vir para a Europa e que me proporcionava muitas dúvidas se dava certo ou não. Para contrastar, realço os seguintes pontos marcantes: em Paris, fui mostrar uma obra minha a um arte dealer que me disse o seguinte: a arte africana não presta; uma exposição coletiva no Teatro da Trindade em Lisboa em que os meus quadros foram banidos num sítio junto a porta de casa de banho e sem iluminação; uma exposição no Centro Cultural Malaposta em que um senhor tirou da parede um quadro meu que retratava o casamento gay com intenções de destruí-lo. Foram essas e tantas outras descriminações artísticas que tive de enfrentar e, apesar disso nunca me pensei em desistir.    

 *Entrevista realizada no âmbito do “Munda Lusófono – 3º Encontro Literário de Montemor-o-Velho”

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