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Tomás Lima Coelho: "Para se escrever um livro de qualidade aceitável tem de se ler pelos menos cem"

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ENTREVISTAS - Escritores

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Tomás Lima Coelho nasceu em Angola, em 1952, e é o mais velho de cinco irmãos. Percorreu grande parte do território angolano porque o pai, natural do Lobito e funcionário das Finanças estava, por esse motivo, sujeito a deslocações periódicas com a família sempre a acompanhá-lo: Lândana, Caconda, Caála, Camacupa, Bié e, finalmente, Malanje. Em consequência da guerra civil, que em 1974/5 assolou Angola, veio para Portugal, onde reside desde então. É casado com Ilda Coelho, tem dois filhos e uma neta. Há mais de uma década que se dedica ao estudo da História e das Literaturas de Angola. É autor do romance histórico “Chão de Kanâmbua” (Chiado Editora, 2010), coautor e organizador de “Malanje. O Tempo e a Memória” (Edição de Autor, 2013) e “Malanje. Suas Gentes” (Edição de Autor, 2015). É também autor da obra “Autores e Escritores de Angola (1642-2015)”. Participação nas seguintes coletâneas e antologias: “Entre o Sono e o Sonho” – Antologia de poesia contemporânea – Tomos II e III (Chiado Editora, 2011 e 2012), “Ocultos Buracos” – Coletânea de contos (Pastelaria Studios Editora, 2012), “Alhos Vedros da Minha Alma” – Antologia de contos (Academia 8 de Janeiro de Alhos Vedros, 2013) e “Taras de Luanda II” – Antologia de crónicas e contos (Chá de Caxinde, 2016).

 

Livros & LeiturasQue significado tem para si o ato de escrever e a partir de que altura este se tornou “profissional”? 

Tomás Lima Coelho – “Profissional” entre aspas, isso mesmo. Escrever é, para mim, uma forma de partilha. Ninguém escreve só para si, na minha opinião. No meu caso, curioso e apaixonado que sou pela História da África e de Angola em particular, é através da escrita que procuro partilhar com os leitores essa paixão e os conhecimentos que vou adquirindo. Desde muito cedo que a escrita tem sido natural em mim e sempre incentivada desde muito jovem pelos meus pais e professores.

 

L&L – É preciso ser um bom leitor para se ser um bom escritor?

TLC – Claro que sim. Digo sempre aos aspirantes a escritor que para escreverem um livro de qualidade aceitável têm de ler pelos menos cem. E essa leitura tem que ser a mais abrangente possível em termos de autores e géneros literários, desde os clássicos à literatura de cordel, passando também pela banda desenhada e pelos jornais. Ler, ler, ler tudo o que passe em frente dos nossos olhos.

 

L&L – O seu trabalho é versátil ou, pelo contrário, tem um estilo muito próprio e facilmente identificável pelos leitores?

TLC – Se tivesse que me definir a mim próprio diria que sou um contista-novelista. Como traço de identidade da minha escrita talvez me reconheçam porque tenho sempre Angola como pano de fundo naquilo que vou produzindo.

 

L&L – Áreas como, por exemplo, a ilustração e a música têm vindo a afirmar-se na sua relação com a Literatura. Como encara esse facto?

TLC – É um percurso antigo e uma relação natural. As Artes, que sempre procuram exprimir o belo, tendem cada vez mais a aproximar-se e a unir-se, sem esforço, sem imposições e sem dogmas. Veja-se a atribuição do Prémio Nobel da Literatura no ano de 2016, por exemplo.

L&L – A tradição oral representa, nalguns países da lusofonia, uma importante marca de identidade cultural. A globalização e a dificuldade em editar podem ser uma ameaça à perda desse património?

TLC – Pelo contrário, penso que a oralidade só terá a ganhar com a globalização e com a dificuldade em editar. Nos meios mais pobres das nossas sociedades, e também nos meios rurais, o contador de histórias terá sempre um lugar de destaque. Veja-se em África o exemplo dos griot, contadores de histórias que se deslocam de povoado em povoado transmitindo oralmente as sabedorias ancestrais e que são muitíssimo respeitados. Mesmo que um dia toda a gente saiba ler e escrever, a tradição de contar e ouvir histórias oralmente não desaparecerá. Estou plenamente convencido disso. A voz tem ritmos e nuances que a escrita nunca poderá transmitir.

L&L – A Língua Portuguesa é uma mais-valia no panorama literário mundial? 

TLC – Claro que é, ou melhor, pode vir a ser. Digo isto porque as literaturas anglófonas e francófonas ainda dominam os mercados literários. Mas se virmos o potencial de Portugal, Angola, Brasil, Cabo Verde, Moçambique, S. Tomé, Timor, Guiné Bissau, Macau, Goa e mais alguns pequenos locais onde se as comunidades se entendem em português, sabendo nós da grande quantidade de autores a produzir literatura nestes países, não há como não crescer se houver uma estratégia comum, a todos os títulos desejável, a começar pela tradução das obras de autores da língua portuguesa para outras línguas. Os autores traduzidos são ainda muito poucos.

L&L – Quais os seus escritores lusófonos favoritos e porquê?

TLC – Esta é uma pergunta difícil para um leitor compulsivo como eu, porque gosto de muitos e é complicado escolher um, dois, três ou vinte. Por isso vou apenas deixar sugestões do meu gosto pessoal, uma por cada país falante em português: Eça de Queirós (Portugal), Jorge Amado (Brasil), Mia Couto (Moçambique), José Luandino Vieira (Angola), Francisco José Tenreiro (S. Tomé), Luís Cardoso de Noronha (Timor), Filinto de Barros (Guiné-Bissau), Germano Almeida (Cabo Verde), Orlando Costa (Goa). Mas há tantos, tantos outros, que quase sinto que estou a traí-los... E se já é difícil escolhê-los, mais difícil me é dizer porque gosto deles. Nem arrisco, porque não quero meter-me na pele de um crítico literário.

 

L&L – Ao nível da Literatura, que medidas poderão ser implementadas para que o universo lusófono seja uma realidade mais coesa entre escritores de diferentes nacionalidades?

TLC – Esse é um problema que estamos com ele, utilizando o jargão angolano. Não há uma eficaz circulação de obras e de autores entre os países falantes da língua portuguesa. Essa circulação, reduzidíssima, apenas se faz pelo esforço pessoal de alguns escritores ou pela força de algumas editoras mais poderosas. Curiosamente até dispomos de uma instituição que poderia, ou melhor dizendo, deveria trabalhar mais nesse sentido, o da divulgação e circulação de obras e autores, implementando protocolos com as editoras, as transportadoras e as gráficas dos países lusófonos: estou a referir-me à CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, cuja sede se encontra em Lisboa. Mas, infelizmente, esta instituição trata da Cultura como todas as outras instituições, ou seja, a Cultura é sempre quem tem o orçamento mais baixo e é sempre na Cultura que se corta primeiro quando há que reduzir custos. Tenhamos esperança que os dirigentes daquela instituição venham a reconhecer um dia a importância da divulgação da Língua Portuguesa no Mundo.

L&L – A Internet e os recentes suportes informáticos contribuem para o reforço e promoção do seu trabalho?

TLC – Claro que sim. Não só na pesquisa mas também na divulgação através das redes sociais. A Internet e a informática são utilíssimas! Até custa a acreditar que, com as ferramentas de que dispomos hoje, ainda se consiga escrever com erros...

L&L – Qual o maior desafio que já enfrentou ou que gostaria de enfrentar em termos profissionais?

TLC – No meu caso não posso dizer “profissional”, porque o não sou, mas o maior desafio que já enfrentei foi precisamente a construção do meu último trabalho “Autores e Escritores de Angola (1642-2015)”. Foram dez anos de pesquisas, sendo os últimos cinco de um trabalho muito intenso e absorvente no que respeita às horas diárias que despendi com ele. Durante todo este tempo fui apenas um copista, um acumulador de dados, e descurei a parte da ginástica mental que é necessária manter para escrever coisas próprias. Vou agora ter que retomar esse exercício, o de ir escrevendo até que a escrita flua novamente com naturalidade. Portanto, este é agora o meu próximo desafio: reaprender a escrever coisas da minha lavra.

 

*Entrevista realizada no âmbito do “Munda Lusófono – 3º Encontro Literário de Montemor-o-Velho”

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