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Teresa Calçada: Hoje é ainda mais difícil ser letrado

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Teresa Calçada é licenciada em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi Técnica do Instituto Português do Livro entre 1982 e 2007, onde integrou o grupo de trabalho que definiu as bases da política nacional da leitura pública, com vista à criação da Rede de Bibliotecas Municipais. Foi vice-presidente do Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, até 1996. É comissária adjunta do Plano Nacional de Leitura e Coordenadora das Redes de Bibliotecas Escolares. Neste início de ano-lectivo, quisemos conhecer um pouco melhor Teresa Calçada relativamente aos livros, às leituras e aos leitores. 

Livros & Leituras - Como encarou, à partida, em 1996, o desafio da Rede de Bibliotecas Escolares?

Teresa Calçada - Encarei com muito gosto. Fui, durante muitos anos, funcionária do Instituto do Livro e, nessa qualidade, fiz parte de um grupo que criou uma série de bibliotecas públicas. Foi o meu grande desafio profissional e foi um gosto ter feito parte de um grupo de gente que criou um importante instrumento de democratização. Eu era muito defensora da relação entre as bibliotecas públicas e as escolares. Se nas escolas não houvesse esse movimento, o público que chegava às bibliotecas públicas era sempre menor e menos preparado para usar esse bem, para exercer o seu direito pelas artes, pela letras e pelas ciências, como costumo dizer. Por isso, numa altura em que há um convite para se fazer um relatório sobre a possibilidade executiva de uma rede de bibliotecas escolares, foram nomeadas duas pessoas da cultura e duas da educação e eu fiz parte. Depois fui convidada pelo professor Marçal Grilo para ser executiva desse gabinete. Foi com muito contentamento, porque francamente acreditei que éramos capazes de fazer isso e realmente aguento-me lá há 13 anos. Acabámos de festejar esses 13 anos de rede, fizémos um fórum e estamos contentes pelo que fizémos. São três ou quatro etapas que foram bem conseguidas e culminaram agora com a possibilidade de ter um professor em cada escola que se ocupa só da biblioteca. É uma imensa vitória entre nós poder, num país que tem poucos hábitos de leitura, ter isso, porque a biblioteca escolar é uma biblioteca com competências para ensinar os alunos a usar as bilbiotecas e os recursos. É mais um instrumento pedagógico, quer curricular, quer extracurricular e isso tem sido um gosto imenso.

L&L - Como é possível gerir as relações entre a biblioteca, o livro e, agora, a era da informática?

TC - É uma relação obrigatória. Portanto, temos de encontrar formas de fazer conviver as diferentes ferramentas que levam ao saber e ao conhecimento. E hoje é impensável que não se faça isso utilizando as tecnologias do conhecimento, na era em que nós vivemos, das quais faz parte, também, o livro. É uma história de contradições como foi entre a fotografia e a pintura ou entre o cinema e a televisão. As coisas têm em si próprias a sua contradição, e aqui também. As tecnologias têm bondades e maldades. É preciso que se ensine, de algum modo, a ler os media, a usar as ferramentas, como a internet, os blogs, o twitter, trinta mil coisas que, muitas vezes, criam a ilusão de saber. E é preciso levar os mais novos, em particular, a perceber que esse instrumento é funcional, é uma utilidade ao nosso serviço e que se pode ser pobre, remediado ou rico no uso de todas as tecnologias do saber, desde o livro às designadas novas tecnologias. Não deixa de haver contradição, são coisas que vão conviver, como sempre aconteceu ao longo dos tempos. Há alguns aspectos que se perdem porque nem tudo é progresso. Por exemplo, um aspecto interessante é a facilidade com que se confunde uma ligeireza da imagem, uma ligeireza de um texto que se copia e cola e se faz um remendo e perde a autoria. Tudo isso é o perigo de uma imensa incapacidade de saber ler de uma maneira que não seja hipertextual, fragmentada e, no entanto, nós vivemos hoje num tempo cuja complexidade literácica é ainda maior. Hoje é ainda mais difícil ser letrado porque temos de ser letrados em várias linguagens, em várias leituras. Por isso, é difícil, é um desafio muito grande, nas escolas em particular, os professores que se ocupam das bibliotecas têm perante si um imensíssimo desafio porque a facilidade associada, ilusoriamente, às tecnologias, leva a pensar que está tudo à distância de um clique, mas não. As pessoas têm destreza, mas não têm competência, não têm saber. Agora, não vale a pena pensar que se pode aprender hoje sem as tecnologias. Às vezes costumo dar um exemplo que é comezinho, até para os professores que têm um bocado de medo das tecnologias. Hoje, eu, que nem sequer sou uma pessoa muito letrada nas tecnologias, sou muito mais empática com os livros, se as minhas gatas adoecem eu vou logo à Internet ver e, no entanto, eu tenho uma prateleira cheia de livros sobre gatos. E depois até vou lá, mas é uma forma rápida e correcta. Temos de ter alguma bagagem para saber fazer isso. Então vou querer que os nossos filhos, netos, sobrinhos e alunos vão pegar numa enciclopédia, num livro sem interactividade? Não é possível, a interactividade está inscrita no código deles, dizem “eu acho que a tia não está a saber fazer isso” e eles vão lá instintivamente. É preciso ensinar-lhes que eles não podem ficar pobres. Tanto se pode ser info-excluído de uma maneira como de outra.

L&L - Considera que alguma vez o e-book (livro electrónico) vai substituir o livro de papel?

TC - Eu não sei qual é o futuro do livro. Costumo dizer que o meu produto é a leitura. Esta consciência de que, se a leitura não for consolidada, representa retrocesso na história da humanidade, disso eu tenho a certeza. Sou a favor de que se preservem as competências leitoras, que se seja um muito bom leitor. Só sendo muito bom leitor é que se preservam leitores em todos os spots, incluindo o livro. Deve preservar-se o livro, agora, se ele é electrónico ou não, possivelmente vai ser mais de acordo com as novas tecnologias, mais ergonómico, mais amigo do ambiente.

L&L - O que é que está a ler neste momento?

TC - Estou a ler um livro do Manguel, penso que se chama “Do Outro Lado do Espelho”, é sobre a Alice, porque o Manguel, que é um escritor que escreveu uma história da leitura. É muito fixado na Alice, mas este é mais sobre a “Alice do Outro Lado do Espelho”. Estou a reler “A Queda” de Camus e estou a ler um livro, também de um autor espanhol, exactamente sobre a leitura, que se chama “Tras Las Líneas”, e é sobre as leituras hoje. É só, mas deve haver por lá outros cruzados.

L&L - Consegue então estabelecer várias leituras ao mesmo tempo?

TC - Sim, também é a minha profissão.

L&L - Quais os seus projectos para o futuro?

TC - Continuo ainda a ter, na minha actividade profissional, muitas bibliotecas para fazer porque, no 1º ciclo, ainda há muitas bibliotecas para fazer e temos que as fazer e também queríamos alargar às escolas profissionais, que agora estão a ter uma força maior. Eu sou uma grande defensora do ensino profissional e, portanto, queria agora apostar em recursos nas bibliotecas que abranjam o público das Novas Oportunidades e das escolas profissionais. Queria ver se não deixava de ser voluntária nesta minha proto-missão que é fazer leitores, nomeadamente, na Biblioteca Popular da Vila da Marmeleira.

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