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Leonor Xavier: A ficção tem sempre alguma coisa da vida do escritor

ENTREVISTAS - Escritores

 

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Entre 1975 e 1987, Leonor Xavier viveu no Brasil, para onde levou os conhecimentos adquiridos no curso de Filologia Românica da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Aí publicou o seu primeiro livro, “Atmosferas”, e trabalhou como jornalista. Escreveu para várias revistas e foi correspondente do Diário de Notícias, no Rio de Janeiro. Prefere o registo do tempo concreto à ficção, daí ter-se destacado com a publicação das biografias “Maria Barroso, Um Olhar Sobre a Vida” (1995) e “Raúl Solnado, A Vida Não Se Perdeu” (2003). Escreveu ainda “Portugal, Tempo de Paixão” (2000), um ensaio sobre o processo revolucionário de 1975. O seu último livro, “Botafogo”, foi recentemente editado em Portugal, depois de ter sido aclamado pela crítica brasileira. A revista Livros & Leituras encontrou-a na Feira do Livro da Vila da Marmeleira, um evento promovido por Teresa Calçada e Miguel Martins.

 Livros & Leituras - Como passou do jornalismo para a experiência da escrita?

Leonor Xavier - Foi primeiro a escrita e depois o jornalismo. O primeiro livro que publiquei foi em 1980, eu vivia no Rio de Janeiro e chama-se “Atmosferas”. Quando cheguei ao Brasil, em 1975, tinha muito medo de esquecer as impressões fortes do Brasil. E, por isso, comecei a escrever fragmentos de texto que depois deram o livro “Atmosferas”, que foi o meu primeiro livro, em 1980. Nos jornais, comecei logo a seguir. Entretanto eu vivi em São Paulo, e este livro já foi publicado no Rio. Comecei nos jornais logo a seguir, em 1981.

 

L&L - Quais as principais diferenças que encontrou entre viver e trabalhar no Brasil e viver e trabalhar em Portugal?

LX - Eu comecei a trabalhar lá. Aqui era mãe de filhos pequenos, tinha feito um curso de faculdade e achava que a vida ia ser assim para sempre. No Brasil, encontrei um espaço de liberdade enorme, um espaço de expressão. Depois de 1980, o Brasil estava numa fase económica muito boa, vivia o que se chamava de “milagre económico”. Cheguei à Manchete, uma revista muito consagrada e conhecida e disse “eu sou portuguesa, sou jornalista e quero escrever na Manchete”. Responderam-me “então, em 48 horas, você me dá uma entrevista com a Maria de Azevedo”. Era a mulher do Chico Buarque que, na época, estava com uma peça em cartaz. Era a centésima representação dessa peça e era um sucesso no Rio de Janeiro. Eu procurei a Maria e quando disse “eu tenho de ter o texto pronto em 48 horas, você me dá uma entrevista?, ela disse “Dou!”. Por isso, é uma coisa que pega, a grande diferença que eu acho é o espaço e o tempo, é tudo muito imediato, e a gente pega ou não pega. Por isso, é que eu sou muito depressa nas coisas, não podemos deixar a vida passar ao lado.

 

L&L - Em Portugal, consegue-se viver inteiramente da escrita ou tem de ter-se sempre uma actividade paralela?

LX - A maioria das pessoas tem de ter uma actividade paralela. É preciso ter sempre muito sucesso e trabalhar-se muito e exculsivamente na escrita para se poder viver só disso. Algo que ajuda muito é os autores pertencerem à Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), que defende os seus direitos autorais e também jurídicos, pois muitas vezes os ecritores vêem os seus trabalhos usurpados. Muitas vezes, os jornalistas são jornalistas e também escrevem livros, é uma coisa muito aparentada.

 

L&L - Em que género se sente mais à vontade, na ficção ou nas biografias?

LX - Gosto muito do registo do tempo concreto. Fiz alguma ficção, mas que nunca o foi puramente. Foram sempre histórias mais ou menos vividas. O escritor acaba por, de uma maneira ou de outra, intervir na própria ficção, com a sua própria vida, com a sua própria experiência.

 

L&L - Como surgiu o convite para fazer a biografia de Raul Solnado?

LX - Foi o próprio Raul que me perguntou se eu queria fazer a biografia dele. Ele entretanto tinha tido um convite de uma editora chamada Difusão Cultural para ter a biografia dele como a primeira de uma série de biografias de figuras vivas, e ele perguntou se eu a queria fazer. Pensei e fiz.

 

L&L - Das vivências que passou com o grande Raul Solnado, houve algo que transpusesse depois para as suas histórias?

LX - Não especialmente. Conversávamos muito, por isso, ele era das primeiras pessoas que lia o que escrevia e eu gostava. Quando tinha dúvidas, perguntava-lhe.

 

L&L - Como era Raul Solnado enquanto criador e autor?

LX - Muito aplicado, sempre com um lápis e um papel e a escrever numa letra miudinha, a imaginar coisas e a dizer coisas, a dizer “hoje, encontrei esta frase, vou aproveitá-la”. Muito trabalhador e aplicado, sempre.

 

L&L - Que livro recomendaria como sugestão de leitura para este Verão?

LX - Gosto muito dos livros de uma escritora que é a Hélia Correia. Por extraordionário que pareça, li ultimamente dois livros da Alice Vieira, livros para adolescentes, e diverti-me muito a lê-los. Depois há os romances, as coisas do Verão. Eu estou sempre a ler um livro. Agora estou a ler um livro da Doris Lessing, que se chama “Love Again”, “Amar Outra Vez”, mas que é uma edição inglesa, não há em Portugal.

 

 

 

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