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Helena Cidade Moura: A falta de cultura na sociedade portuguesa é gritante

ENTREVISTAS - Escritores

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Helena Tâmega Cidade Moura, responsável pela maior campanha de alfabetização organizada em Portugal no pós 25 de Abril de 1974, realizou e acompanhou mais de 400 cursos de alfabetização um pouco por todo o país, segundo a método de Paulo Freire, de quem era amiga. Foi deputada à Assembleia da República na I, II e III legislaturas. Publicou, entre outras obras, o “Manual de Alfabetização”, que abriu caminho ao interesse da sociedade civil para ações de alfabetização junto das populações. Anotadora das obras de Eça, tem 135 registos na Biblioteca Nacional.

L&L- Tem projetos em curso no sentido de diminuir a taxa de analfabetismo?

HCM- Sim, tenho. Com a ajuda da sociedade civil e, nomeadamente, com a ajuda de alunos da Universidade Aberta, que já têm em andamento um projeto que tem como objetivo final a diminuição da taxa de analfabetismo a nível nacional em 5 pontos percentuais, de cerca de 10%, número em que se encontra atualmente, para perto dos 5%, até ao final de 2011. Acabei a primeira ação de formação este mês, para habilitar três estudantes a formarem alfabetizadores. Eu, por mim, encontro-me à disposição de formar mais grupos e iniciaremos dia 8 de Maio a formação de um grupo de 15 indivíduos.

L&L- Como conheceu Paulo Freire?

HCM- Conheci o Paulo Freire através de um amigo meu, que era funcionário na TAP, no aeroporto de Lisboa e que, sabendo o meu interesse pelas questões da alfabetização de adultos, um dia ligou-me dizendo-me que o Paulo passava diversas vezes em trânsito pelo aeroporto e que não saía de lá porque era perseguido politicamente, e que seria bom eu ir até lá para nas horas em que ele esperava pelo voo de ligação para a Suíça, para falarmos. Depois da primeira abordagem, tornou-se um hábito a cada vez que ele por cá passava, até ao culminar numa grande amizade, até à sua morte. Conto-lhe uma coisa que me impressionou. Um dia, eu e um amigo meu organizámos um encontro no Colégio da Doroteias em Lisboa. O Paulo entrou na sala onde se encontrava gente ávida do ouvir e, antes de ficar quieto, foi inspeccionar todas as tomadas eléctricas que existiam na sala, os candeeiros e outros locais de possível ocultação de aparelhos de escuta, um homem cheio de medo perseguido pelo fascismo.

L&L- Qual o maior ensinamento de Paulo Freire para a sociedade da leitura?

HCM- A alegria e a persistência. Ele tinha uma alegria imensa de trabalhar e era persistente, persistente, ia contra tudo e contra todos, determinado pelos seus objectivos. Uma pessoa muito inteligente mas muito altruísta. Colocava sempre a sua inteligência ao serviço de qualquer coisa, não era um sábio, era a inteligência em ação, uma pessoa sensacional.

L&L - O que pode a sociedade fazer para pôr as crianças a ler?

HCM- Eu penso que o mais importante é que as crianças achem que a leitura é um caminho possível para chegar a outras coisas, não será ficarem estagnados a lerem uma banda desenhada ou um jornal mas, com isso, encontrarem caminhos para chegarem a outras coisas e isso aprende-se lendo e, à medida que incrementam o gosto pela leitura, eles criam uma relação diferente com o mundo. Depois de adultos, formam a sua própria personalidade enquanto leitores mas, em crianças, se seguirem o caminho da leitura, sentem-se mais acompanhados e seguros nesse caminhar.

L&L- Qual a sua relação com a escrita de Eça?

HCM- É muito boa. Eça de Queiroz ensinou-me muita coisa. Além disso, sou muito amiga da pouca família que lhe restava e fui sempre recebida em casa deles, no Douro, com a maior das simpatias e prometi-lhes que seria a primeira região onde, deslocando-me fisicamente, ensinaria a alfabetizar. Talvez para o ano que vem concretize essa promessa.

L&L- De que maneiras podem os autores clássicos entrar no quotidiano dos portugueses?

HCM- A falta de cultura na generalidade da sociedade portuguesa é uma coisa gritante. Este trabalho que estamos a desenvolver no âmbito da alfabetização de adultos tem como tema “sem cultura não há desenvolvimento”, para as pessoas perceberem que é precioso cultivarem-se para terem necessidade do desenvolvimento. Neste momento, nos estamos paralisados de intenções sociais. Cada um trata da sua vida o melhor que pode e acaba por aí a sua intervenção na sociedade e isto é uma maneira de ser muito difícil de remediar. Por isso, tenho a convicção que projetos como este desempenharão um papel importante no gosto pela leitura também dos clássicos.

L&L -   Qual o conselho que tem para dar aos políticos deste país para elevar o nível de literacia dos portugueses?

HCM - Que trabalhassem muito, muito, com muita confiança e com muita ligação à realidade. Os discursos, já ninguém os ouve, mas quanto às ações, as pessoas percebem-nas e, nesse campo do agir, há muita coisa a fazer e eu gostava de ver os políticos mais empenhados na transformação do país, assumindo as próprias culpas. Também existem pessoas a trabalhar, mas sem grande convição, falta-lhes a tal alegria e persistência que tinha Paulo Freire. É preciso acreditar que se possa ter um objectivo.

Helena Cidade Moura morreu hoje, 23 de julho de 2012, aos 88 anos.

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