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Fátima Marinho: Quem gosta de ler, tem um coração devasso e largo, onde cabem todos os bons autores

ENTREVISTAS - Escritores

Quem é?

Para responder com franqueza e verdade, não sei bem que sou. Vejo-me como caminheira a meio de tudo; as vezes forte, às vezes fraca, ousada, assustada, rija e gelatinosa. Com o tempo aprendi a tolerar, e até a amar, essas partes dissonantes de que a vida quotidiana, individual e colectiva, é feita. Bem sei que pretendia uma resposta mais do tipo; nasci ali e cresci acolá. Mas, para o bem e para o mal, essa identidade territorial escapa-me. Sou mais das pessoas do que dos lugares. Se, de facto, quiser saber quem sou terá que perguntar aos que me amam e aos que me odeiam, para não correr o risco de lhe dizerem que sou justa, quando em mim também a iniquidade mete o dente.

Como e quando começou a interessar-se por literatura? 

Julgo ter sido ao colo, com as cantigas de ninar, os fados, as lengalengas e as orações que a minha mãe me ensinava. Depois os culpados foram o Eça de Queirós, o Vergílio Ferreira, o Camões, o Bocage, a Florbela Espanca, o Camilo Castelo Branco, o Victor Hugo, o Ítalo Calvino, o Fernando Pessoa, o Sebastião da Gama, o José Mauro de Vasconcelos, o Pablo Neruda, a Natália Correia e tantos outros!!!

Por que motivo resolveu escrever livros?

Os livros são, como gosto de dizer, um quarto de despir. Escrevo porque me deleita retirar véus e olhar todos os rostos que um rosto tem.

Qual foi a obra que mais gostou de escrever e porquê?

Estou a meio de um romance cujo título diz do grande prazer que a escrita provoca ao iludir a realidade e desocultar o mito. Chama-se “A Sombra do Lacrau” e passa para a ficção a mais nua e cruel realidade. É um livro que sabe mais de mim e do mundo do que eu, e é esse o seu maior encantamento.

Em que é que se inspira para escrever um livro?

Às vezes no vazio. Sento-me no cais das colunas e procuro um ponto de fuga. É assim que os meus livros, mesmo quando retratam a verdade histórica, como o “À Procura de Um Lugar” e “O Mistério das Coisas Erradas”, estão cheios de circuitos alternativos à impressão que a vida nos provoca.

Se não fosse escritor, o que gostava de ser? 

Em primeiro lugar, importa dizer que não sou uma escritora, ainda que gostasse muito de o ser; tal como gostava de ser aprendiz de feiticeira, controladora de tráfego aéreo, cozinheira e psicanalista.

Quais são seus autores preferidos? 

Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner, Agustina Bessa-Luís, Pedro Foyos, João Tordo, Jorge Luís Borges, Albert Cohen, António Lobo Antunes, Allan Poe, Isabel Allende, Khalin Gibran, Patrick Suskind, Jostein Gaarder, os que já referi na questão n.º 2 e muitos mais. Quem gosta de ler, tem um coração devasso e largo, onde cabem todos os bons autores do mundo. 

Que conselho daria a alguém que deseje vir a ser escritor? 

Que viva intensamente, fale pouco e escute muito.

Para quando um novo projecto editorial?

Para breve. Isso se o pouco tempo que me sobra, do ofício que me ajuda a pagar as contas, for generoso e fecundo para com a literatura.


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