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Marta Jacinto: Prefiro a arte sem rede à ilustração digital

ENTREVISTAS - Ilustradores

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Marta Jacinto nasceu em 1979, no Algarve. Em 2004, licenciou-se em Arquitetura. Desde muito cedo que o gosto pelas artes plásticas tomou conta de si. O desenho tem sido sempre a sua forma de expressão favorita, tendo frequentado, durante o ensino secundário, o curso da dominante de artes. Foi durante esse período que descobriu e experimentou novas técnicas que viriam a influenciar o seu percurso artístico. Começou, então, a fazer as suas primeiras exposições, que atualmente se estendem um pouco por todo o país. Em 2008, iniciou-se na ilustração infantil, na Martolita Ilustra. Atualmente, e em paralelo com a sua atividade de arquiteta, desenvolve trabalho na área das artes plásticas, com destaque para a ilustração, sobretudo, em livros infantis. As novidades acerca do trabalho da Marta Jacinto podem ser acompanhadas em artmartolita.blogspot.com ou Martolita Ilustra-Marta Jacinto/Facebook.

Livros & Leituras ─ A Marta consegue contagiar quem a rodeia com a paixão que revela pelo desenho. Lembra-se de como começou esse interesse?

Marta Jacinto ─ Desde criança que o meu entusiasmo, por tudo aquilo que estivesse relacionado com desenho e pintura, era enorme. Fazia arte com tudo, desde pedras, madeira, barro… Desenhava por todo o lado. Sempre soube que tinha a essência de um artista, só não sabia bem qual a arte que iria seguir. Com o passar dos anos, sem nunca parar de desenhar e de fazer coisas novas, a vontade de desenhar foi crescendo cada vez mais, até se tornar numa necessidade. Então, um dia, ao mostrar os desenhos de uma coleção, que estava a desenvolver, à Suzana Ferreira, ela teve a ideia de pegar num dos personagens que eu desenhei e de começar a pensar numa história. Foi assim que surgiu o nosso primeiro álbum ilustrado: “O Doutor Tiradores”, editado pela Livros Horizonte.

L&L ─ Considera que para se saber ilustrar tem de haver um talento inato ou isso é insuficiente?

MJ ─ A meu ver, ser ilustrador não depende só da vontade ou do talento, depende também da dedicação, da persistência, de intenso estudo, da necessidade de desenhar, de ler e ver muitas coisas sobre arte. Um bom ilustrador tem de ser uma pessoa atualizada, com uma “grande bagagem” em diversas áreas, com uma boa cultura geral e não apenas alguém que gosta de desenhar.

L&L ─ Regra geral é o ilustrador quem se inspira no texto do escritor para criar. Com a Marta, frequentemente, passa-se o inverso. Como acontece esse processo e em que moldes se desenvolve o trabalho entre si e o escritor?

MJ – Felizmente, em todos os trabalhos realizados e em curso, tem existido uma parceria com o escritor. Dou muito valor a esta ligação, o trabalho acaba não só por fluir melhor, como também, por trabalharmos com mais gosto, conseguimos um resultado superior. Mais do que ler e analisar um texto, é fundamental partilhar ideias e visões. Importa o escritor conhecer bem as capacidades e o trabalho do ilustrador, para saber até onde pode ir e qual a melhor maneira de tirar partido dos seus pontos fortes e de os realçar com a sua escrita. O resultado final acaba por espelhar muito melhor a mensagem do escritor. Conhecendo e entendendo bem o texto e as intenções do autor, consigo criar um afeto entre mim e o texto, demonstrado isso através dos meus desenhos. 

L&L ─ Curiosamente, ou talvez não, a Marta exerce arquitetura. É, portanto, uma pessoa criativa a vários níveis. Em que medida este facto influencia ou não a sua faceta de ilustradora?

MJ ─ Considero-me uma pessoa bastante criativa em diversas áreas. Interesso-me por quase tudo o que esteja relacionado com arte, sou muito experimentalista e versátil. O facto de exercer arquitetura, faz com que grande parte do tempo esteja ocupado com esta atividade, no entanto, são duas profissões completamente distintas, que se complementam de formas diferentes e que apresentam desafios criativos diferentes. O facto de ter estas duas atividades paralelas permite-me manter a cabeça fresca e um olhar mais distanciado e mais crítico em cada atividade.

L&L ─ Como se desenrola o seu processo criativo?

MJ ─ Quando tenho de trabalhar a partir de um texto, começo por lê-lo, faço alguma pesquisa e durante um certo tempo vou fermentando as ideias. Depois, penso na divisão do texto. Delineio o espaço onde vou desenhar sobre a página, o formato que pretendo e começo a rabiscar naturalmente até conseguir um resultado que me satisfaça. Com o esboço definitivo, assim em traços muito gerais, e que geralmente só eu percebo, faço um boneco colorido, já a imaginar técnicas e materiais a utilizar e passo então para as pranchas finais.

L&L ─ Quais as técnicas que costuma utilizar?

MJ ─ Devo dizer que não sou muito apologista da arte digital, prefiro os procedimentos tradicionais e, por isso, gosto de desenhar à mão. Adoro o cheiro das tintas, dos papéis, de mexer nos lápis, nas canetas, nos pincéis… Principalmente, gosto de brincar com os materiais e de os misturar. Dá-me um grande prazer misturar várias técnicas e deixar que os materiais contem também a sua história.

L&L ─ Afirmou não ser apologista da arte digital. O que pensa, então, sobre este tipo de arte?

MJ ─ Hoje em dia, temos à nossa disposição uma variedade imensa de ferramentas com que se pode fazer arte. Qualquer um pode utilizar o computador, mas isso não demonstra o seu talento nem pelo desenho, nem pela pintura. Eu prefiro arte sem rede. O que tem vindo a acontecer é que o uso excessivo destes meios veio dar outra dimensão à arte. Cada vez mais se está a perder o gosto por desenhar à mão. A facilidade e a variedade de programas vieram permitir que cada vez mais pessoas se expressem, muitas vezes sem terem talento. É óbvio que existem exceções à regra, pessoas realmente muito boas naquilo que fazem. Eu própria tenho uma série de ilustradores e artistas que admiro e que só fazem ilustração digital. 

L&L ─ Em que se costuma inspirar quando ilustra?

MJ ─ Tudo me influencia, desde filmes, livros, pessoas e animais. Para além das coisas mais banais do dia-a-dia, faço muita pesquisa na Internet. Adoro andar a vaguear em sites e blogues de ilustração. Tenho uma série de artistas prediletos, não só ilustradores, como também pintores, artistas plásticos, que eu admiro muito e que me fazem ir atrás de coisas novas, de forma a melhorar cada vez mais.

L&L ─ Ilustra, principalmente, livros para crianças. Na sua ótica, quais as características que um bom livro infantil deve ter?

MJ ─ Um bom livro infantil deve de, em primeiro lugar, ter uma boa ideia, uma boa composição, algo que o torne único e original, algo que suscite ao leitor vontade de entrar para dentro do livro por aquilo que vê e por aquilo que lê. A ilustração tem de estar muito bem vinculada ao texto de forma a acrescentar algo e a ampliar ao máximo o universo significativo desse mesmo texto. Não deve dizer o mesmo que o texto já está a dizer, deve de ir mais além, falar da “alma” do texto, daquilo que não se vê, do que não é tão óbvio. Para um bom resultado é preciso haver toda uma relação, uma parceria entre a história e a imagem.

L&L ─ Qual a sensação de ilustrar para o público infantil?

MJ ─ É uma sensação muito boa! Sinto-me como se, de alguma maneira, voltasse a ser outra vez criança e pudesse representar o imaginário aos olhos das outras crianças, tal como eu própria o vejo. O álbum ilustrado, do meu ponto de vista, é uma obra viva, onde as personagens ganham vida e são reais.

L&L ─ Para além da ilustração, a Marta faz modelação em 3 Dimensões. Em que é que esta forma de arte, ainda que indiretamente, pode contribuir para o universo do livro infantil?

MJ ─ Ainda muito antes de me iniciar na ilustração, já trabalhava com modelação tridimensional, dava vida às personagens e aos cenários que idealizava através do barro e das massas de modelar. Sempre senti uma necessidade muito grande de materializar as personagens que inundavam o meu imaginário, de ver como elas seriam na realidade. Penso que as personagens modeladas tridimensionalmente acabam por ser uma mais-valia e um complemento às minhas ilustrações e álbuns ilustrados. As personagens ganham dimensão, deliciam as crianças de uma forma mais real.

L&L ─ Que projetos tem neste momento entre mãos?

MJ – Neste momento, tenho em mãos vários projetos, uns em fase de edição, da autoria de Suzana Ferreira, e outros em fase de conceção. Destaco a coleção “Bichofonias”, em que cada livro conta uma história distinta, onde são trabalhados vários grafemas com o intuito de colocar em destaque determinados fonemas, a maioria abordados nos “Casos da leitura”. Podem ser usados por pais, educadores, professores e terapeutas da fala, pois permitem o treino ao nível da consciência fonológica e são uma ótima componente de apoio à escrita e à leitura. O primeiro título destas “Bichofonias” intitula-se “O Sapo Saltitão e a Sapa do Seu Coração” e desafia à aprendizagem, mas também à brincadeira e à descoberta e será editado muito em breve pela editora Gatafunho. Destaco ainda outra coleção, da autoria da Raquel Patriarca que será composta por dez livros, designada “Livro com Bicho”. Será, também ela, uma coleção repleta de bicharada com muito humor e será editada pela editora Quidnovi. Gostaria ainda de referir “A menina dos Pés Verdes”, da autoria de Graça Magalhães. Trata-se de um livro muito especial, para os que acreditam no poder da verdadeira amizade. Fala da história de uma menina que transforma a rejeição em alegria. Uma história que servirá de inspiração para todos os que buscam o encantamento de um verdadeiro sentimento. Encontra-se em fase de conceção e ainda não tem editora.

L&L ─ Qual o maior desafio, em termos de ilustração, com que já se deparou?

MJ ─ O maior desafio com que me deparei, foi, sem dúvida, a criação do meu primeiro álbum ilustrado, pois, apesar de ter alguma sensibilidade para o assunto, de ter a base das artes plásticas e de desenhar desde sempre, nunca tive formação específica nesta área. O início foi um pouco complicado e atribulado, porque tive de aprender quase tudo sozinha, através de muita pesquisa, de ver, ler e analisar muitos livros infantis e artigos relacionados com o tema. E, acima de tudo, nunca tive medo de arriscar, de errar, sempre testei os meus limites ao máximo. A paixão pelo universo infantil, a dedicação e persistência sempre foram fundamentais no meu trabalho.

L&L ─ Costuma ser convidada para a dinamização de sessões em bibliotecas e escolas, que oscilam entre o contar de histórias e o desvendar da ilustração. Que impressões retira destas experiências com crianças e adultos?

MJ ─ São, inequivocamente, momentos com um sabor especial para todos. Pois, geralmente as crianças nunca tiveram contacto com um ilustrador, nem fazem ideia de como e por quem são feitos os livros infantis que tanto estão habituados a ler. Sinto que pelo facto de eu estar a contar a história e de mostrar as ilustrações, de explicar como se efetua todo este processo, as crianças, e até os adultos, passam a ter outra visão e a valorizar muito mais o livro e o papel do ilustrador e do escritor. É um momento muito gratificante para mim, pois durante o tempo em que estou a fazer a atividade/sessão, não existe mais nada, apenas eu, os leitores e as personagens do livro, ficamos envolvidos num mundo completamente à parte.

Comments  

 
0 #1 frederic rosa 2012-10-22 18:48
olla prima ^^
bejignos a todos ^^
 

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