A FRASE

Entre a sociedade de hoje e os intelectuais medeia um entendimento tácito. «Conto contigo - dizem os leitores - para que me forneças os meios para esquecer, disfarçar, negar, em suma, a morte. Se não cumprires este encargo, expulso - te, ou seja, não te lerei». (Louis Vincent Thomas, antropólogo francês)

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Pedro Gil: Escrever é a única forma de continuar a existir

ENTREVISTAS - Escritores

Livros & Leituras - Quem é?

Pedro Gil - Chamo-me Pedro Gil, tenho 23 anos e sou finalista do curso de Medicina na Universidade de Coimbra.

L&L - Como e quando começou a interessar-se por literatura? 

PG - O momento exacto em que comecei a interessar-me por literatura é difícil de identificar, mas creio que desde muito cedo os livros sempre me fascinaram muito para além da natural curiosidade e imaginação típicas da infância. Ainda criança consumia-me em livros pouco adequados para a minha idade e ocupava-me com pequenos sonetos e poesias em versos de folhas soltas. Aos 13 anos iniciei a escrita do meu primeiro romance, que serviu sobretudo como um dedicado processo de aprendizagem. Entre os 16 e os 17 anos escrevi este romance, “Um Homem Suspenso Sobre o Mundo”, que foi agora recentemente publicado.

L&L - Por que motivo resolveu escrever livros?

PG - Não foi na verdade uma decisão minha. Quando comecei a escrever não tinha de certeza a mínima noção do que fazia ou por que o fazia. E a verdade é que ainda hoje não tenho. Escrevo porque é a única maneira que tenho de ser na vida. Escrevo porque é a única forma que tenho de continuar a existir. Mas a verdade é que não necessito de escrever “livros”; na verdade, a grande maioria do que escrevo são fragmentos soltos de pensamentos ou devaneios e jogos de fingimento e sensibilidade com que me distraio. Apenas uma pequena parte chega a tomar uma forma suficientemente digna e condensada para ser incluída nos meus romances.  

L&L - Qual foi a obra que mais gostou de escrever e porquê?

PG - Não gostei de escrever nenhuma obra até hoje; a escrita não é uma actividade que associe a prazer. É na verdade um permanente desconforto físico e mental que se traduz em palavras e símbolos. Não escrevo com a intenção de isso me proporcionar prazer, dor ou alguma euforia momentânea. Aliás, a decisão de escrever nem sequer parte de mim, nem em última análise se concretiza em mim. Ainda assim, se a pergunta for qual dos meus livros mais gosto, a resposta terá de ser naturalmente o que estou actualmente a escrever, apenas por ser o último.   

L&L - Em que é que se inspira para escrever um livro?

PG - Acho que em nada em particular. Responder a vida seria demasiado simplista, pois de facto a literatura se encontra numa dimensão superior à nossa vida mundana, pelo que nunca lhe poderá servir como fonte de inspiração. Antes de iniciar a escrita de um romance começo apenas com uma pequena frase, um conceito ou uma imagem; tudo o resto de desenrola a partir daí num fruir involuntário de sensações que termina em mim mas não parte de mim. Por isso na verdade não preciso de grande inspiração nem tenho momentos de maior ou menor inspiração; a escrita é mais um esforço hesitante em busca do melhor caminho para prosseguir por entre a escuridão do que propriamente uma sequência de lampejos luminosos de inspiração criativa.  

L&L - Se não fosse escritor, o que gostava de ser? 

PG - Não consigo conceber a literatura como actividade exclusiva pois preciso de outras dimensões para a tornar mais vívida. Posso por isso facilmente conciliá-la com a medicina actualmente. No entanto, e tentando uma resposta mais ou menos aproximada, tenho pena da minha absoluta inaptidão para me exprimir artisticamente através da pintura. 

L&L - Quais são seus autores preferidos? 

PG - Não aprecio muito a enunciação bibliográfica de grandes escritores, até porque actualmente optei por ler muito pouca literatura. Ainda assim, se tivesse de citar importantes referências pessoais teria de incluir Proust, Joyce, Beckett, Pessoa, Goethe ou Schopenhauer.

L&L - Que conselho daria a alguém que deseje vir a ser escritor? 

PG - Não tenho experiência nem qualidade para poder aconselhar outros a encontrarem algo que nem eu próprio considero ter alcançado. Mas penso que antes de se escrever um romance é importante a noção de que interessa mais a relação que se tem com a própria literatura do que aquilo que se escreve. Trocava sem hesitar todos os livros do mundo pela simples compreensão do ímpeto que me leva a mim mesmo a escrever. Ou das relações que as palavras têm entre si ou das imagens que a literatura cria e consome e ilumina. Preocupo-me muito com a literatura num plano mais teórico. Acho que mais notável do que um escritor é um verdadeiro homem literário.  

L&L - Para quando um novo projecto editorial?

PG - Como referi anteriormente, apenas uma pequena parte do que escrevo acaba por ser incluída no texto que é publicado. A somar a isso, sempre que acabo um livro tenho de o deixar numa espécie de limbo por alguns anos, antes que o volte a ler e o considere digno para publicação. Mas penso que eventualmente isso voltará a acontecer; não tenho nenhuma meta definida. 

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