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Artur Dagge: Escrever um livro é insensato, publicá-lo uma imprudência, lê-lo um perigo.

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Livros & Leituras - Quem é?

Artur Dagge - O meu nome é Artur Dagge e nasci em Trás-os-Montes quando o ano de 1965 estava no seu ocaso. Sou admirador confesso de Jorge Luís Borges, que me terá levado, depois de concluído a licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a interessar-me pelas bibliotecas, tendo acumulado ao longo de mais de 20 anos as funções de coordenador da biblioteca escolar com as de professor de Português. Sou, desde então, assíduo frequentador das bibliotecas, levado pelo nobre propósito de escrever uma exaustiva biografia daquele autor argentino, mas que nunca terminei e que, na verdade, não cheguei a começar. Do mestrado em Ciências Documentais que concluí em 2004 na Universidade de Évora ficou-me o gosto pelo estudo da leitura, com o firme intento de escrever uma história da leitura que, à semelhança de todas as histórias da leitura, será na verdade uma história dos leitores, mas que nunca terminei e que, de facto, também ainda não cheguei a iniciar. Das conferências nacionais e internacionais em que participo regularmente, ficou-me o gosto por longos intervalos e a certeza de que a Educação e a Leitura são demasiado conspícuas para serem tratadas por especialistas. Na Escola atual preocupa-me a especializada competência das estruturas dirigentes que, competentemente, continuam a formar hordas de cidadãos incompetentes e acríticos. Quanto ao resto, considero-me essencialmente um releitor, vejo na escrita um aprisionamento da palavra e descreio convictamente dos heróis modernos.

L&L - Como e quando começou a interessar-se por literatura? 

AD - De alguma forma sempre senti que o meu destino seria literário. Da infância guardo a grata memória das lutas renhidas por ser o primeiro a ler o livro que a minha mãe trazia como presente sempre que tinha de ir à vila sede de concelho para tratar de algum assunto administrativo ou fiscal que o Estado insiste em impor aos seus cidadãos. Mais tarde, aquando da decisão de escolher o curso superior que iria cursar, a literatura impôs-se implacavelmente, o que terá evitado que viesse a ser um medíocre e obstinado administrador da justiça, economista, psicólogo, sociólogo ou alguém ainda pior.

L&L - Por que motivo resolveu escrever livros?

AD - Aquando da 1ª sessão de lançamento do livro, no momento em que estava a pensar num mote para o cartaz de divulgação da sessão, surgiram-me as seguintes frases: Escrever um livro é insensato; Publicá-lo uma imprudência; Lê-lo um perigo. Portanto, creio que o motivo que me levou a escrever este livro foi ter-me tornado insensato depois de 45 anos de sensatez.

L&L - Qual foi a obra que mais gostou de escrever e porquê?

AD - A obra que mais gostei de escrever foi obviamente esta, “A inverosímil história de um serial killer e outros contos” pelas simples razão que foi a única que escrevi até agora.

L&L - Em que é que se inspira para escrever um livro?

AD - Escrever um livro com o propósito de ser controverso pode não ser literariamente elevado mas é certamente um válido ensejo intelectual. Podemos daí concluir que a controvérsia é sempre uma fonte de inspiração para mim. Por outro lado, gosto de pensar que a realidade me inspira. Todos os contos incluídos neste livro são reais. Não no sentido em que aconteceram de facto, mas no sentido em que poderiam de facto ter acontecido. O insurrecto Pedro Pêra Boa é tão real como a gananciosa Balbina Pato-Vila ou o abandonado Joaquim Elias. A abnegada Princesa Stewart Ferguson não é menos credível que o malogrado Judas Escariote. E o ignóbil Pedro Alonzo não é menos plausível que o imbecil Juan Gonzalez ou o sonho da abnegada Júlia Escobar, que eu sonhei também. Atrevo-me a dizer que nesta dezena de contos está grande parte dos pecados da condição humana: a ganância, a injustiça, a imoralidade, o engano, a ingratidão, a vaidade, a luxúria, o conluio, a ignomínia, a infâmia. Haverá, porventura, quem veja nestes contos influências óbvias da literatura negra. Não creio, contudo, que assim seja. A influência, a haver, é da própria vida. Que consegue ser bastante mais negra do que estes negros contos.

L&L - Se não fosse escritor, o que gostava de ser? 

AD - À semelhança de Walt Whitman, para além de escritor, que não sou, gostava de ser tudo: jornalista, ator, pintor, estafeta, vendedor, balconista, mecânico, eletricista, canalizador, carpinteiro… Para no final poder dizer convicto “Fui tudo. Nada valeu a pena!”

L&L - Quais são seus autores preferidos?

AD - Nomear os meus autores preferidos será sempre injusto porque a lista vai deixar de fora nomes que não podem ser olvidados. Assim, opto por nomear dez. Poderiam ser nove ou onze ou mais ou menos? Não creio. Dez é o número do pitagórico tetratkys, o triângulo perfeito, a soma dos quatro primeiros números, a representação da totalidade e do regresso à unidade após o ciclo dos nove primeiros números. Valerá a pena dizer que é também o número dez que nomeia o Decálogo, o conjunto dos Dez Mandamentos, que afinal não são mais do que um, que manda em tantas vidas? A ancestral China reconhece o dez como múltiplo, o dobro de cinco, sublinhando assim a inefável díade: o yin e o yang, o céu e a terra, a luz e as trevas, a vida e a morte. Escusado será dizer que o dez é formado pelos dois números, o um e o zero, que comandam o código binário dos modernos computadores que comandam as nossas vidas. Tchekhov, Dostoievski, Cortazar, Borges, Marquez, Eça, Pessoa, Sepulveda, Proust, Kafka.

L&L - Que conselho daria a alguém que deseje vir a ser escritor? 

AD - O conselho a dar a alguém que pretende vir a ser escritor é óbvio: que pense duas vezes pois escrever é uma insensatez.

L&L - Para quando um novo projeto editorial?

AD - Decorridos 365 dias da publicação de “A inverosímil história de um serial killer” conto cometer nova imprudência e publicar um outro livro de 10 contos, que não podem ser nem mais nem menos.

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