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Rui Sousa Basto: Identidade é aquilo que somos. Imagem é a maneira como os outros nos vêem

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Livros & Leituras - Quem é?

Rui Sousa Basto - A definição da identidade depende dos atributos que escolhemos para a qualificar. Há atributos que se podem considerar “objectivos” e esses, em princípio, são mensuráveis, como sucede no caso da idade, altura, volume da barriga, cor da pele, olhos e cabelo (ou a ausência dele), nacionalidade, género, entre tantos outros; mas os atributos “subjectivos” não são passíveis de quantificação porque resultam de um olhar parcial sobre nós próprios, como acontece com a apreciação que fazemos da capacidade intelectual, bom senso, honestidade, humor ou qualquer outra característica que julgamos inscrita, em maior ou menor grau, nos nossos genes e comportamento. E tudo se torna mais complicado se admitirmos que a escolha dos atributos “subjectivos” também depende do momento em que a fazemos, na medida em que está sempre subordinada às emoções das circunstâncias. Mantendo o “complicómetro” ligado, podemos ainda afirmar que “aquilo que parecemos é mas às vezes não é”, e assim introduzimos a noção de imagem, que se trata, afinal, de um espelho da identidade (ou das identidades), mas com a superfície reflectora virada para os outros e cujo reflexo raramente vemos. Assim, podemos afirmar que a identidade é aquilo que nós somos e a imagem é a maneira como os outros nos vêem. Lewis Carrol escreveu que “… eu sei quem eu era, quando me levantei hoje de manhã, mas acho que já me transformei várias vezes desde então.” Comigo também sucede o mesmo e até me convenço, neste momento particular em que o relógio acusa as seis da tarde e me encontro a escrever estas linhas, que me transformei num grande chato a precisar de um banho e de uma cerveja fresca. Respondi à pergunta?

L&L - Como e quando começou a interessar-se por literatura? 

RSB - Interesso-me por literatura desde que aprendi a ler e a escrever porque, quando era menino, o ambiente familiar que me rodeava, repleto de leitores compulsivos (pai, mãe e irmãos), estimulou-me o prazer da leitura. Nestas coisas (como em muitas outras, aliás), o exemplo faz toda a diferença.

L&L - Por que motivo resolveu escrever livros?

RSB - Comecei a escrever somente por gozo, pelo prazer de contar histórias e incluo, nesse gozo, a tarefa aparentemente ingrata de rever, corrigir e aprimorar o texto. Aconteceu por acaso, numa noite em que me encontrava diante do desafio de uma folha em branco do Word e me lembrei de escrever um texto de ficção que acabei por mostrar, nos dias seguintes, a alguns amigos e familiares chegados. Como veladamente desejava, todos me incentivaram para continuar a escrever, ou não fossem amigos e familiares chegados. Mais tarde, depois de ter redigido outros textos, submeti-os ao teste do algodão branco (que nunca falha) de editoras e personalidades do universo da literatura (que não me conheciam nem tampouco sabiam que eu existia) e o resultado não poderia ter sido melhor, principalmente porque nunca havia tido nenhuma relação com qualquer espécie de algodão branco.

L&L - Qual foi a obra que mais gostou de escrever e porquê?

RSB - O livro “Contos do Efémero” (Opera Omnia, 2011) foi a obra que mais gostei de escrever, não apenas por ter sido a última mas porque é composta por uma série de contos sobre a condição humana (fotografada pelo meu olhar), que me permitiu abordar de uma forma satírica, bem-humorada e irónica (e às vezes cínica, quiçá) as contradições milenares do Homo Sapiens Sapiens, a espécie que se autointitula duplamente sábia mas que todos os dias faz questão de exibir precisamente o oposto.

L&L - Em que é que se inspira para escrever um livro?

RSB - O relacionamento humano é um tema que despertou sempre o meu interesse, principalmente nas situações que suscitam alguma perplexidade. Estou convencido de que as minhas histórias se fundamentam, em larga medida, na observação das perturbações relacionais entre os homens, nas emoções que conduzem o comportamento, nas dúvidas, contradições e hesitações que fazem parte da espécie humana, que repetidas vezes trata tão mal as capacidades singulares que a distingue dos restantes seres vivos, como o raciocínio abstrato, a linguagem, a introspecção e a resolução de problemas. Também estou convencido que teria sido uma pessoa diferente da que sou hoje (e que teria escrito sobre outros assuntos e de outra maneira) se tivesse lido livros diversos daqueles que li desde a infância. As influências sobre os temas que escolho para escrever terão sido muitas, certamente, e resumem-se àquilo que costumamos apelidar de experiência de vida.

L&L - Se não fosse escritor, o que gostava de ser? 

RSB - Na verdade, eu não sou um escritor no sentido restrito do termo. A certa altura da minha existência parece que uma conjugação favorável dos astros me impeliu a escrever e a publicar, sem que alguma vez tivesse desenhado qualquer projecto com esse objectivo, embora não possa negar que, secretamente, tenha colocado essa possibilidade (que imaginei sempre longínqua) por mais de uma vez.

L&L - Quais são seus autores preferidos? 

RSB - Para quem gosta muito de literatura e se habituou a ler desde menino, como é o meu caso, não constitui uma tarefa fácil seleccionar um conjunto de autores preferidos, sem mais nenhum critério, porque há tantos e tão bons escritores que essa escolha, feita de memória e no contexto de uma entrevista, acabará sempre por deixar de fora muitos mestres das letras cujos textos tanto prazer me proporcionaram. Todavia, posso dizer que os alicerces das minhas opções literárias foram construídos durante a adolescência, numa época em que lia Sartre, Boris Vian, Pessoa, Almada, Eça, Cesário Verde, Hemingway, Garcia Marquez, Huxley, Thomas Mann, Kerouac, Orwell, Kafka, Poe, Camus, Neruda, Hermann Hesse e tantos outros.

L&L - Que conselho daria a alguém que deseje vir a ser escritor? 

RSB - Sinceramente, não sei o que devo aconselhar a quem se quer iniciar na produção literária. Nestas questões de resposta delicada há sempre o subterfúgio conveniente de dizer as banalidades do costume, como “se acreditas no teu valor, não desistas”, “participa em concursos literários”, “mostra o que escreves a alguém que não te conheça e tenha alguma autoridade para se pronunciar sobre literatura”, “casa com o filho ou filha de um editor”, entre outros conselhos “sensatos”.

L&L - Para quando um novo projecto editorial?

RSB - Neste momento estou a escrever uma novela sobre a linha ténue que divide a vida da morte. O protagonista sofre um acidente no primeiro parágrafo do livro e, apesar de assumir o papel de narrador, passa a maior parte da narrativa sem saber se está vivo ou se já morreu. É uma história, uma vez mais, sobre as relações humanas.

 

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