Livros & Leituras - Quem é?
Luísa Ducla Soares - Sou a Luísa Ducla Soares. Nasci em Lisboa, em 1939, licenciei-me em Filologia Germânica, trabalhei em editoras, jornais, no Ministério da Educação e durante trinta anos dediquei-me à Biblioteca Nacional. Escrevi mais de cem livros, quase todos voltados para a infância e juventude.
L&L - Como e quando começou a interessar-se por literatura?
LDS - Comecei a interessar-me por literatura muito cedo. Aos dez anos escrevia poemas que guardava num livrinho encadernado, com letras douradas, que me ofereceram e tinha como título Os meus versos. Publiquei alguns no jornal da minha escola. Lia então João de Deus, Cesário Verde, biografias de pessoas célebres mas rapidamente passei a devorar tudo o que havia lá por casa, especialmente Eça de Queirós. Mas iniciei-me na literatura com o meu pai, que sabia de cor muita poesia popular, de Camões, Gonçalves Crespo, Antero de Quental, Guerra Junqueiro e a recitava. Eu própria aprendi muitos poemas, que me entretinha a repetir, pelo fascínio da sua sonoridade.
L&L - Por que motivo resolveu escrever livros?
LDS - Antes de publicar livros, enchi as gavetas de textos, em verso e prosa, ao longo de anos que foram de aprendizagem. Sonhava desde a adolescência ser escritora. Era então uma pessoa muito tímida e achava que comunicava muito melhor com os outros através da palavra escrita. Tinha a cabeça sempre a borbulhar de ideias, de palavras, de planos e precisava de os compartilhar. Mas também me treinei longamente inventando histórias expressamente para o meu irmão mais novo, a quem as transmitia oralmente quase todas as tardes. Eram narrativas infindáveis, que se alongavam de dia para dia, de mês para mês, tendo-se prolongado a mais longa por três anos. No final do liceu fui colega e grande amiga de Fiama Hasse Pais Brandão, que era uma entusiasta da poesia, do teatro e pretendia igualmente ser escritora. Trocávamos livros, criticávamos mutuamente o que produzíamos, o que líamos. Sonhávamos com um futuro no mundo das letras. Na Faculdade de Letras, em contacto com Gastão Cruz, Fernando Martinho, Luiza Neto Jorge (e outros alunos) e os professores David Mourão Ferreira e Urbano Tavares Rodrigues passei a viver intensamente a literatura, a não poder viver sem ela. Dessa época datam os poemas que publiquei no 1º livro, para adultos, a que dei o nome de Contrato.
L&L - Qual foi a obra que mais gostou de escrever e porquê?
LDS - Para quem já publicou cento e vinte livros, é difícil escolher o que mais gostou de escrever. Escrever nem sempre é uma tarefa grata para quem a exerce. Implica frequentemente momentos atormentados, uma entrega total que nos leva a abdicar do descanso, dos tempos livres, do convívio. A busca de uma só palavra certa pode tirar-nos noites de sono. Por vezes escrevemos e rescrevemos e rescrevemos, insatisfeitos ou hesitantes entre várias versões. Assim um dos livros de que mais gostamos pode ser o que mais nos atormentou. O meu primeiro livro foi um dos que mais gostei de escrever, embora o seu parto fosse doloroso. Deu-me um enorme prazer escrever os Poemas da mentira e da verdade ou Abecedário sem juízo pois adoro o nonsense e os jogos de palavras. Num ímpeto rabisquei O soldado João, que aborda, recorrendo ao humor, um tema para mim muito sério e doloroso, o da guerra. Escrevi igualmente de um jacto Meninos de todas as cores, um libelo contra o racismo, após ter assistido, numa escola a uma agressão a uma criança negra por motivos de cor, com o beneplácito da professora. É uma causa que me move, a da igualdade entre os seres humanos, a dos direitos do homem e da criança e tive gosto em ter conseguido, de uma forma muito acessível, cativar os mais novos para essa causa. Um dos livros que mais me tocaram foi A cavalo no tempo, que, embora seja adequado aos mais novos, é um livro para todas as idades. Fi-lo após uma já longa caminhada no cavalo do tempo, interiorizando a minha experiência de vida. Gostei muito de escrever um livro que dedico à memória do meu pai e narra a sua infância, O menino Armando (a sair brevemente), porque o meu pai foi para mim um herói e há muito que desejava recordá-lo em letra de imprensa.
L&L - Em que é que se inspira para escrever um livro?
LDS - Tudo me serve de inspiração: a natureza, a vida de certas pessoas, os animais pelos quais sempre nutri grande afecto, as projecções do futuro, o simples jogo de palavras e conceitos, as causas cívicas pelas quais me tenho batido. Inspiro-me ao ler um livro, ver um telejornal, passar na rua, falar com um desconhecido, olhar para a paisagem, assistir a uma conferência, entrar numa escola, num lar de terceira idade, num centro comercial. Em toda a parte há temas que nos piscam o olho e nos pedem para os abordarmos.
L&L - Se não fosse escritora, o que gostava de ser?
LDS - O meu problema sempre foi o de gostar de ser isto e mais aquilo… Quando cheguei ao 5º ano do liceu (actual nono) , desejava ardentemente ir para letras para estudar literatura e desejava da mesma forma ir para ciências para poder descobrir os segredos da natureza , do homem. Tinha gostado de ser bióloga, médica, psicóloga. Tinha também gostado de me dedicar à pintura, à cerâmica, à fotografia. Não tendo enveredado pela ciência, já escrevi ficção científica… Não tendo enveredado pelas artes, ainda tenho esperança de ter algum tempo para me dedicar mais a elas. Mas terei esse tempo?
L&L - Quais são seus autores preferidos?
LDS - Entre os poetas, Camões lírico, Cesário Verde, Gedeão, Sophia, Alexandre O´Neill. Entre os prosadores, Eça de Queirós, Erico Veríssimo, Saramago, Lobo Antunes, Mia Couto. Os escritores de literatura para crianças nunca são por mim esquecidos e desejo aqui recordar, além de Sofia, Matilde Rosa Araújo, António Torrado, Maria Alberta Menéres, Álvaro de Magalhães, Manuel António Pina.
L&L - Que conselho daria a alguém que deseje vir a ser escritor?
LDS - Em primeiro lugar que leia muito. A grande escola de um escritor é o convívio com outros escritores, suas técnicas, formas de trabalhar as ideias e a língua. Em segundo lugar que seja autêntico.
L&L - Para quando um novo projecto editorial?
LDS - Projectos não me faltam. Tenho três livros a sair até ao Natal. E venho trabalhando num livro sobre a adolescência e noutro sobre a interculturalidade.
| Terça-feira: À Volta dos livros,4h20, 17h20 e 21h20, na Antena 1 |