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Isabel Miguel: "Sou alguém que vive com pensamentos às cores devido às línguas"

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Livros & Leituras - Quem é?

Resposta: Resposta difícil… A questão das línguas penso influencia bastante a minha identidade… Nasci em Mainz na Alemanha. Aprendi a ler com o meu pai aos 5 anos a língua alemã, na escola falávamos alemão e inglês, o português era falado em casa e com os vizinhos portugueses. O facto de ter vivido em vários locais diferentes em Portugal também ajudou à dificuldade estabelecer as minhas raízes. Hoje aos 45 anos já não dou importância a essa oscilação, sinto-me bem em qualquer local no mundo.

Isabel Miguel - Sou alguém que vive com pensamentos às cores devido às línguas que fazem parte do meu ser. Sou mulher escritora, sonhadora, professora. Luto pelo que considero justo e correto.

L&L - Como e quando começou a interessar-se por literatura?

Isabel Miguel - Sempre vivi rodeada de livros desde muito nova, os meus pais compravam livros e foram “armazenado” os mesmos para mim e não imagino uma casa sem livros espalhados. Li “Os Maias” aos 13 anos para aprender as palavras, uma tentativa exasperada para conhecer a língua portuguesa. Este momento tornou-se um dos mais bonitos da minha vida, devorei os livros de Eça, Júlio Dinis e Camilo Castelo Branco - descobri que as palavras não eram sofrimento mas sim alegria, prazer, amor.

Eu poderia contar as diversas histórias da escola que quase destruíram a literatura para mim, mas a água não passa duas vezes no mesmo local e hoje tento que a nossa língua seja amada e estimada pelos nossos jovens.

L&L - Por que motivo resolveu escrever livros?

Isabel Miguel - Porquê? Porque felizmente existem pessoas muito especiais que acreditaram em mim quando eu já não tinha capacidade e força para isso. Decidi então escrever como penso! A minha escrita vem de uma mente que pensa em três línguas, não sei se alguém entende isso, mas as frases são sempre uma mistura do inglês, alemão e português. Não consigo evitar e por vezes causa situações embaraçosas. Os meus poemas são em português, inglês, e alemão, e outras línguas que conheço.

L&L - Qual foi a obra que mais gostou de escrever e porquê?

Isabel Miguel - Participei em duas coletâneas de autores “16 autores” e “Um lugar surpreendido pelo olhar” e esta participação deu-me coragem para escrever o meu próprio livro. O apoio de Paulo Domingos do projeto Autor Publica foi fundamental, ele dizia sempre “tu consegues Vulcãozinho!”.

O livro de Poesia Sic infit - Insuficiência acutilante surgiu num momento de renascimento em que reencontrei a beleza das palavras nas diversas línguas associado à necessidade de libertar os sentimentos que estavam escondidos nas profundezas de uma alma perdida. Sinto que é um novo começo, daí o titulo em latim Sic infit (e assim começa) e a felicidade de escrever de novo após anos de fugir das palavras que brotam constantemente.

Este livro é a consolidação do meu amor pelas palavras, um amor que abafei durante quase 20 anos. Uma noite não consegui para de escrever, penso que escrevi uns 10 poemas. Nesse dia senti que tinha voltado a respirar.

O respirar deste livro foi o reencontro do verdadeiro amor, um amor por mim, aceitar-me. Ser de novo. A simplicidade de alguns poemas é enganadora! O Poema “Sempre” pode ser lido de cima para baixo, de baixo para cima e ainda alternadamente:

Sempre

Quero desistir.

Quero o pedaço que levaste.

Quero o que roubaste.

Sempre só.

Sempre sem.

Sempre com.

L&L - Em que é que se inspira para escrever um livro?

Isabel Miguel - Sentimentos! Fundamentalmente sentimentos. Palavras que oiço por aí. Tudo pode originar um poema e quando o poema aparecer tenho de escrever.

L&L - Se não fosse escritor, o que gostava de ser?

Isabel Miguel - Muito provavelmente algo relacionado com animais. A falta de compaixão para com seres indefesos ainda me surpreende. Apoio algumas associações tais como a “Associação Vira-latas” em Marinhais e “Refúgio Animal Angels” do Cartaxo.

Algo que poucas pessoas sabem é o meu gosto pela costura e criar roupa, talvez tivesse futuro, nunca se sabe.

L&L - Quais são seus autores preferidos?

Isabel Miguel - Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro, Almada Negreiros, Edgar Allen Poe, William Blake, Goethe, Almada Negreiros, Viginia Wolf, Emily Bronté, Florbela Espanca, Emily Dickinson, Zadie Smith, Stieg Larsson, Mia Couto, Herman Hesse, e tantos, tantos, tantos.

L&L - Que conselho daria a alguém que deseje vir a ser escritor?

Isabel Miguel - Ler, ler,ler,ler!

L&L - Para quando um novo projeto editorial?

Isabel Miguel - Estou a escrever o segundo livro de poemas que neste momento tem o título provisório de “Memórias líquidas “, e tenho o sonho de escrever um livro para crianças.

L&L - Agora que já conhece a revista Livros & Leituras, que opinião tem deste projeto editorial sem fins lucrativos?

Isabel Miguel - A promoção da leitura é sempre majestoso e este projeto apresenta autores, livros, acontecimentos “livrescos”, notícias e afins. O facto de ser sem fins lucrativos dignifica ainda mais o trabalho dos seus autores, porquê? Porque apresentam a literatura e tudo o que rodeia a mesma sem objetivos comerciais, simplesmente pelo amor à arte e isso é maravilhoso.


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Marisa Galvão: "Arriscar é o que nos resta"

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Marisa Afonso Dantas Galvão nasceu em Lisboa em 1980 onde cresceu apesar da forte influência das suas origens do norte do país.
Desde cedo demonstrou gosto e aptidão para os idiomas e a escrita acabando por se licenciar em Tradução na variante de Inglês/Francês pela Universidade Autónoma de Lisboa no ano de 2006. Acabou por abraçar outros desafios profissionais mantendo a tradução apenas a título freelancer.
No âmbito do estágio curricular efetuado para as Edições Sfori foi coautora de dois livros de uma coletânea intitulada “No meu tempo” editada em 2006 que se baseou numa recolha de conhecimento junto dos mais idosos.
Mas com uma alma romântica, o gosto pela escrita nunca desapareceu, levando-a a passar para o papel algumas histórias por si ficcionadas.

Livros & Leituras - Quem é?

Marisa  Galvão - Marisa Afonso Dantas Galvão, tenho 36 anos, sou licenciada em Tradução e vivo no Concelho de Sintra, sou funcionária pública na Câmara Municipal da Amadora e tradutora freelancer mas tenho a escrita como hobby e paixão.

L&L - Como e quando começou a interessar-se por literatura? 

MG - Desde sempre que houve incentivo para ler com a banda desenhada da Disney e os contos infantis normais e sempre gostei mas depois passei aquela fase da adolescência em que apenas lia os livros que era obrigada. Os livros devem ser lidos por prazer, porque nos apetece ter uma companhia para nos distrair. Nunca devem ser uma obrigação. Depois claro que amadureci e aprendi novamente a procurar a companhia agradável de um livro para relaxar do quotidiano.

L&L - Por que motivo resolveu escrever livros?

MG - Sempre tive um lado virado para a escrita pois sempre me foi mais fácil transmitir emoções por palavras escritas. Ao longo dos anos sempre fui escrevendo pequenos poemas e textos mas quando na faculdade um dos docentes nos desafiou para escrevermos um pequeno conto e o meu até obteve uma critica positiva pensei “se calhar até tenho jeito para isto e vou experimentar escrever algo mais complexo” e assim foi… Um dia de praia foi o primeiro livro que escrevi em 2006 e esteve guardado na gaveta até hoje quando tive coragem de o editar em colaboração com a Chiado Editora.

L&L - Qual foi a obra que mais gostou de escrever e porquê?

MG - Ainda só editei um romance por isso para já esta é a minha obra preferida quem sabe daqui a uns anos se tiver oportunidade de responder novamente a esta perguntar a resposta já seja outra diferente.

L&L - Em que é que se inspira para escrever um livro?

MG - Antes de começar a escrever penso sempre se poderá ser útil na vida das pessoas e se pode ajudá-las ou influenciar de alguma forma pois invariavelmente o ser humano está sempre à procura de algo que lhe transmita felicidade e bem estar. Penso nas vivências diárias comuns. Depois crio uma ideia base, uma personagem principal e a partir daí construo na minha imaginação um mundo paralelo para essa personagem e, quando me sento a escrever vivo e respiro enquanto essa pessoa, e não como a Marisa, para poder transmitir uma história o mais real possível, apesar de imaginada.

L&L - Se não fosse escritor, o que gostava de ser? 

MG - De momento não sou escritora de profissão mas apenas enquanto hobby e, por isso, gosto daquilo que faço e que ainda me permite ter tempo para dedicar à escrita.

L&L - Quais são seus autores preferidos? 

MG - Costumo prender-me mais pelas histórias em si do que nos autores mas obviamente que tenho autores que gosto mais de ler como é o caso, por exemplo, de Nicholas Sparks, Margarida Rebelo Pinto, Nora Roberts e Tiago Rebelo.

L&L - Que conselho daria a alguém que deseje vir a ser escritor?

MG - Acreditar em si e valorizar-se. Este livro “Um dia de praia” esteve na gaveta quase 10 anos tal como muitos de nós pomos de lado sonhos e objetivos de vida apenas porque achamos que não estamos à altura ou porque as condicionantes da vida nos aprisionam e envolvem numa rotina absurda cujos objetivos passam a ser outros e quando damos por isso estamos a sobreviver em vez de viver…pois só vivemos realmente quando fazemos aquilo que gostamos e nos faz sentir livres. Há momentos em que a vida ou alguém nos desafia e surge em nós uma força interior que nos leva a mostrar quem realmente sonos e o nosso valor. Arriscar é o que nos resta.

L&L - Para quando um novo projeto editorial?

MG - Para já estou ainda a promover e a viver o sonho da edição deste que é o meu primeiro romance. Espero que “Um dia de praia” tenha uma boa aceitação do público, pelo menos para já está a correr tudo muito bem, e que dessa forma me sinta mais motivada a avançar com o lançamento de um segundo livro, quem sabe para o final do ano.


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João Nuno Azambuja: "Gosto de explorar, talvez seja por isso que escrevo"

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Livros & Leituras - Quem é?

João Nuno Azambuja nasceu em Braga em 1974, o ano da revolução. Licenciou-se em História e Ciências Sociais e dedicou-se à arqueologia como voluntário. Foi também como voluntário que prestou serviço nas tropas paraquedistas. Regressado à terra construiu um bar de inspiração celta, onde se realizaram concertos memoráveis de bandas folk ibéricas. "Era uma vez um homem", livro premiado pela União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa, foi o seu primeiro livro.

L&L - Como e quando começou a interessar-se por literatura?

JNA - Julgo que começou com a banda desenhada. Eu tinha uns sete ou oito anos quando li o primeiro livro do Asterix. Fiquei tão fascinado que não desisti enquanto não os li todos. Os meus colegas da escola admiravam-se comigo porque achavam que eu demorava muito a lê-los (é que eu lia-os realmente, enquanto eles só viam os desenhos, era o que me diziam). A partir daí achei que também podia atrever-me a escrever aventuras, e escrevi algumas que desapareceram com os anos de experiências de infância e juventude. Quando vi que era altura de escrever a sério, fui guardando os rascunhos.

L&L - Por que motivo resolveu escrever livros?

JNA - Na resposta anterior já me refiro a um desses motivos, porque há outros. O principal deles é ter alguma coisa importante para dizer, para partilhar. Escrever não é só dizermos o que pensamos, também é pormo-nos na cabeça dos outros e escarafunchar o que se passa lá por dentro, somos uns bisbilhoteiros de consciências. Gosto de explorar, talvez seja por isso que escrevo. Explorando descubro-me a mim e revolvo mistérios que me exaltam a curiosidade.

L&L - Qual foi a obra que mais gostou de escrever e porquê?

JNA - Tenho somente um livro publicado, uma novela chamada "Era uma vez um homem", que venceu o primeiro concurso literário da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (concurso de toda a lusofonia), mas isso não quer dizer que só tenha escrito esse, nem foi sequer o primeiro, porque na minha oficina já trabalho há muito tempo. As outras obras estão inéditas, mas a prepararem-se para a publicação. Refiro o nome de uma delas, é um romance intenso de aventuras chamado "O rasto da Fénix", que pode ser descrito como uma viagem pela condição humana. Foi talvez este que mais gostei de escrever, encheu-me de desafios, apresentou-me obstáculos que à partida pareciam impossíveis de superar. Consegui superá-los e fiquei feliz por isso, cheguei ao fim tão cansado como realizado. Vai valer a pena ler. O "Era uma vez um homem" é mais violento, é chocante, uma crítica mordaz ao mundo atual, e obriga o leitor a inserir-se na mente do homem (a personagem principal) e a pensar como ele. Cativa a atenção (o escritor Miguel Real chegou a dizer que as palavras deste livro sentem-se na carne).

L&L - Em que é que se inspira para escrever um livro?

JNA - Inspiro-me em tudo o que existe à minha volta, na realidade, na sociedade, em tudo o que é belo e em tudo o que é feio, em tudo o que é bom e em tudo o que é mau, no nexo e na incongruência, na verdade e na mentira, na nudez do mundo e na aparência de que se veste. As sensações que tudo isto me provoca obrigam-me a escrever.

L&L - Se não fosse escritor, o que gostava de ser? 

JNA - Não sei se sou escritor, mas é o que mais quero ser. Se me perguntasse: o que quer ser quando for grande, talvez não respondesse que queria ser escritor, talvez respondesse: quando for escritor quero ser grande. Só serei escritor se os meus livros forem bons, senão não vale a pena.

L&L - Quais são seus autores preferidos? 

JNA - Marguerite Youcenar fascina-me. Não percebo como é que não foi distinguida com o prémio Nobel da literatura. Outros escritores que ganharam o Nobel são inferiores a ela. Fernão Mendes Pinto foi outro autor que me marcou profundamente. Em geral gosto dos clássicos, não consigo estar muito tempo longe deles, atraem-me. Petrónio, Séneca, Homero, Vergílio, Horácio, Ovídio, e outros, são indispensáveis na minha biblioteca.

L&L - Que conselho daria a alguém que deseje vir a ser escritor? 

JNA - Que escreva o que sente, que não procure escrever para mostrar que sabe escrever mas para partilhar o seu pensamento. Deve também ler, mas que leia aquilo que goste. Ser obrigado a ler só para acrescentar um livro ou um autor à sua bagagem é algo próximo da tortura. Schopenhauer dizia que era bom que quando comprássemos livros comprássemos também tempo para os ler. Se isso não é possível, para quê desperdiçar tempo?

L&L Para quando um novo projeto editorial?

JNA - Pelos meus desejos será o mais brevemente possível, mas as editoras têm os seus calendários muito próprios. Em 2017 conto ter mais livros nas livrarias, além do premiado "Era uma vez um homem" (que está na FNAC).

Agora que já conhece a revista Livros & Leituras, que opinião tem deste projeto editorial sem fins lucrativos?

Quem se dedica a um projeto sem fim lucrativos é porque gosta do que faz, e isso significa que o resultado é genuíno

João Nuno Azambuja. Braga, 24 de Outubro de 2016.


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Sandra Meireles: "Escrever, para mim, é tornar imortal a minha voz"

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Sandra Meireles nasceu em 1981, em Serra Azul de Minas, uma pequena cidade no interior de Minas Gerais, Brasil. Aí passou toda a sua infância rodeada pelo afeto da família e dos amigos. Com eles aprendeu tudo aquilo que engrandece o ser humano: amor, dignidade, fé, respeito e perseverança. Vive, atualmente, em Lisboa, onde frequenta o curso de Ciências da comunicação na Universidade Autónoma. Tem paixão pela escrita e pela leitura. O seu primeiro livro infantil intitula-se “O sonho da estrela guia”, Chiado Editora.

Livros & Leituras – Que significado tem para si o ato de escrever e a partir de que altura este se tornou “profissional”?

Sandra Meireles – Escrever, para mim, é tornar concretas as minhas ideias. É tornar imortal a minha voz. Pois acredito que as palavras expressadas oralmente perdem o seu valor, ou seja, deixam de existir com o tempo, enquanto as palavras escritas são eternas. A minha escrita tornou-se profissional, a partir do momento que acreditei que a mesma seria útil e que alguém se identificaria com ela.

L&L – É preciso ser um bom leitor para se ser um bom escritor?

SM – Há quem diga que não. Eu direi que sim, porque “escrever” é a cara-metade do “ler”. Se eu não tenho um bom hábito de ler, obviamente não terei um bom desenvolvimento na escrita. Até mesmo porque ninguém aprende algo sozinho, é preciso conhecer o trabalho do próximo para planear o nosso.

L&L – O seu trabalho é versátil ou, pelo contrário, tem um estilo muito próprio e facilmente identificável pelos leitores?

SM – O meu trabalho está construído no meu estilo próprio, de fácil compreensão e de forma muito identificável pelos meus leitores

L&L – Áreas como, por exemplo, a ilustração e a música têm vindo a afirmar-se na sua relação com a Literatura. Como encara esse facto?

SM – Para mim, é um facto verdadeiramente positivo e construtivo. Acho que faz todo o sentido a relação entre a ilustração, a música e a literatura. São três “ferramentas” poderosíssimas para a moldagem de uma “mente” aberta.

L&L – A tradição oral representa, nalguns países da lusofonia, uma importante marca de identidade cultural. A globalização e a dificuldade em editar podem ser uma ameaça à perda desse património?

SM – Eu não vejo o processo da globalização como uma ameaça para a perda deste património, mas sim como uma oportunidade de expansão desta cultura. Até mesmo porque é cada vez mais fácil editar, portanto, vejo a globalização como um contributo.

L&L – A Língua Portuguesa é uma mais-valia no panorama literário mundial?

SM – Não há sombra para dúvidas que sim. Temos brilhantíssimos autores, com mensagens únicas, e a nossa língua é romântica, única, sendo a quinta língua mais falada no mundo, é sempre uma mais-valia.

L&L – Quais os seus escritores lusófonos favoritos e porquê?

SM – Poderia citar uma lista interminável deles: brasileiros, angolanos, portugueses. Mas para já fico com a Clarice Lispector, Monteiro Lobato e Cecília Meireles. São uns génios na escrita, de referências inigualáveis, com um poder mágico de elaborar palavras, histórias e livros, que sempre me cativou.

L&L – Ao nível da Literatura, que medidas poderão ser implementadas para que o universo lusófono seja uma realidade mais coesa entre escritores de diferentes nacionalidades?

SM – Poderão implementar por exemplo, encontros literários internacionais, não só com escritores lusófonos, mas também com outros de outras nacionalidades. Pois o universo literário é tão amplo, com riquíssimas obras por explorar, de grandes intelectuais que por vezes nos passam despercebidos.

L&L – A Internet e os recentes suportes informáticos contribuem para o reforço e promoção do seu trabalho?

SM – A Internet é meio caminho andado, neste século dominado pelas tecnologias. Cada vez mais une as pessoas “virtualmente”, e esta ferramenta, sem dúvida, que é um meio contribuinte para a promoção e divulgação dos nossos trabalhos.

L&L – Qual o maior desafio que já enfrentou ou que gostaria de enfrentar em termos profissionais?

SM – O maior desafio que gostaria de enfrentar: abrir um biblioteca e dedicar os meus dias ao serviço dos livros.

*Entrevista realizada no âmbito do “Munda Lusófono – 3º Encontro Literário de Montemor-o-Velho”


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Tomás Lima Coelho: "Para se escrever um livro de qualidade aceitável tem de se ler pelos menos cem"

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Tomás Lima Coelho nasceu em Angola, em 1952, e é o mais velho de cinco irmãos. Percorreu grande parte do território angolano porque o pai, natural do Lobito e funcionário das Finanças estava, por esse motivo, sujeito a deslocações periódicas com a família sempre a acompanhá-lo: Lândana, Caconda, Caála, Camacupa, Bié e, finalmente, Malanje. Em consequência da guerra civil, que em 1974/5 assolou Angola, veio para Portugal, onde reside desde então. É casado com Ilda Coelho, tem dois filhos e uma neta. Há mais de uma década que se dedica ao estudo da História e das Literaturas de Angola. É autor do romance histórico “Chão de Kanâmbua” (Chiado Editora, 2010), coautor e organizador de “Malanje. O Tempo e a Memória” (Edição de Autor, 2013) e “Malanje. Suas Gentes” (Edição de Autor, 2015). É também autor da obra “Autores e Escritores de Angola (1642-2015)”. Participação nas seguintes coletâneas e antologias: “Entre o Sono e o Sonho” – Antologia de poesia contemporânea – Tomos II e III (Chiado Editora, 2011 e 2012), “Ocultos Buracos” – Coletânea de contos (Pastelaria Studios Editora, 2012), “Alhos Vedros da Minha Alma” – Antologia de contos (Academia 8 de Janeiro de Alhos Vedros, 2013) e “Taras de Luanda II” – Antologia de crónicas e contos (Chá de Caxinde, 2016).

 

Livros & LeiturasQue significado tem para si o ato de escrever e a partir de que altura este se tornou “profissional”? 

Tomás Lima Coelho – “Profissional” entre aspas, isso mesmo. Escrever é, para mim, uma forma de partilha. Ninguém escreve só para si, na minha opinião. No meu caso, curioso e apaixonado que sou pela História da África e de Angola em particular, é através da escrita que procuro partilhar com os leitores essa paixão e os conhecimentos que vou adquirindo. Desde muito cedo que a escrita tem sido natural em mim e sempre incentivada desde muito jovem pelos meus pais e professores.

 

L&L – É preciso ser um bom leitor para se ser um bom escritor?

TLC – Claro que sim. Digo sempre aos aspirantes a escritor que para escreverem um livro de qualidade aceitável têm de ler pelos menos cem. E essa leitura tem que ser a mais abrangente possível em termos de autores e géneros literários, desde os clássicos à literatura de cordel, passando também pela banda desenhada e pelos jornais. Ler, ler, ler tudo o que passe em frente dos nossos olhos.

 

L&L – O seu trabalho é versátil ou, pelo contrário, tem um estilo muito próprio e facilmente identificável pelos leitores?

TLC – Se tivesse que me definir a mim próprio diria que sou um contista-novelista. Como traço de identidade da minha escrita talvez me reconheçam porque tenho sempre Angola como pano de fundo naquilo que vou produzindo.

 

L&L – Áreas como, por exemplo, a ilustração e a música têm vindo a afirmar-se na sua relação com a Literatura. Como encara esse facto?

TLC – É um percurso antigo e uma relação natural. As Artes, que sempre procuram exprimir o belo, tendem cada vez mais a aproximar-se e a unir-se, sem esforço, sem imposições e sem dogmas. Veja-se a atribuição do Prémio Nobel da Literatura no ano de 2016, por exemplo.

L&L – A tradição oral representa, nalguns países da lusofonia, uma importante marca de identidade cultural. A globalização e a dificuldade em editar podem ser uma ameaça à perda desse património?

TLC – Pelo contrário, penso que a oralidade só terá a ganhar com a globalização e com a dificuldade em editar. Nos meios mais pobres das nossas sociedades, e também nos meios rurais, o contador de histórias terá sempre um lugar de destaque. Veja-se em África o exemplo dos griot, contadores de histórias que se deslocam de povoado em povoado transmitindo oralmente as sabedorias ancestrais e que são muitíssimo respeitados. Mesmo que um dia toda a gente saiba ler e escrever, a tradição de contar e ouvir histórias oralmente não desaparecerá. Estou plenamente convencido disso. A voz tem ritmos e nuances que a escrita nunca poderá transmitir.

L&L – A Língua Portuguesa é uma mais-valia no panorama literário mundial? 

TLC – Claro que é, ou melhor, pode vir a ser. Digo isto porque as literaturas anglófonas e francófonas ainda dominam os mercados literários. Mas se virmos o potencial de Portugal, Angola, Brasil, Cabo Verde, Moçambique, S. Tomé, Timor, Guiné Bissau, Macau, Goa e mais alguns pequenos locais onde se as comunidades se entendem em português, sabendo nós da grande quantidade de autores a produzir literatura nestes países, não há como não crescer se houver uma estratégia comum, a todos os títulos desejável, a começar pela tradução das obras de autores da língua portuguesa para outras línguas. Os autores traduzidos são ainda muito poucos.

L&L – Quais os seus escritores lusófonos favoritos e porquê?

TLC – Esta é uma pergunta difícil para um leitor compulsivo como eu, porque gosto de muitos e é complicado escolher um, dois, três ou vinte. Por isso vou apenas deixar sugestões do meu gosto pessoal, uma por cada país falante em português: Eça de Queirós (Portugal), Jorge Amado (Brasil), Mia Couto (Moçambique), José Luandino Vieira (Angola), Francisco José Tenreiro (S. Tomé), Luís Cardoso de Noronha (Timor), Filinto de Barros (Guiné-Bissau), Germano Almeida (Cabo Verde), Orlando Costa (Goa). Mas há tantos, tantos outros, que quase sinto que estou a traí-los... E se já é difícil escolhê-los, mais difícil me é dizer porque gosto deles. Nem arrisco, porque não quero meter-me na pele de um crítico literário.

 

L&L – Ao nível da Literatura, que medidas poderão ser implementadas para que o universo lusófono seja uma realidade mais coesa entre escritores de diferentes nacionalidades?

TLC – Esse é um problema que estamos com ele, utilizando o jargão angolano. Não há uma eficaz circulação de obras e de autores entre os países falantes da língua portuguesa. Essa circulação, reduzidíssima, apenas se faz pelo esforço pessoal de alguns escritores ou pela força de algumas editoras mais poderosas. Curiosamente até dispomos de uma instituição que poderia, ou melhor dizendo, deveria trabalhar mais nesse sentido, o da divulgação e circulação de obras e autores, implementando protocolos com as editoras, as transportadoras e as gráficas dos países lusófonos: estou a referir-me à CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, cuja sede se encontra em Lisboa. Mas, infelizmente, esta instituição trata da Cultura como todas as outras instituições, ou seja, a Cultura é sempre quem tem o orçamento mais baixo e é sempre na Cultura que se corta primeiro quando há que reduzir custos. Tenhamos esperança que os dirigentes daquela instituição venham a reconhecer um dia a importância da divulgação da Língua Portuguesa no Mundo.

L&L – A Internet e os recentes suportes informáticos contribuem para o reforço e promoção do seu trabalho?

TLC – Claro que sim. Não só na pesquisa mas também na divulgação através das redes sociais. A Internet e a informática são utilíssimas! Até custa a acreditar que, com as ferramentas de que dispomos hoje, ainda se consiga escrever com erros...

L&L – Qual o maior desafio que já enfrentou ou que gostaria de enfrentar em termos profissionais?

TLC – No meu caso não posso dizer “profissional”, porque o não sou, mas o maior desafio que já enfrentei foi precisamente a construção do meu último trabalho “Autores e Escritores de Angola (1642-2015)”. Foram dez anos de pesquisas, sendo os últimos cinco de um trabalho muito intenso e absorvente no que respeita às horas diárias que despendi com ele. Durante todo este tempo fui apenas um copista, um acumulador de dados, e descurei a parte da ginástica mental que é necessária manter para escrever coisas próprias. Vou agora ter que retomar esse exercício, o de ir escrevendo até que a escrita flua novamente com naturalidade. Portanto, este é agora o meu próximo desafio: reaprender a escrever coisas da minha lavra.

 

*Entrevista realizada no âmbito do “Munda Lusófono – 3º Encontro Literário de Montemor-o-Velho”


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Qualquer um pode zangar - se, pois isso é muito simples. Mas zangar - se com a pessoa adequada, no grau exacto, no momento oportuno, com o propósito justo e de modo correcto, isso, não é tão fácil como isso. (Aristóteles - Ética a Nicómaco)

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